Guru de seita de escravas sexuais NXIVM é condenado a 120 anos de prisão

Thomas URBAIN
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Seth DuCharme, procurador do distrito leste de Nova York, fala à imprensa em frente à corte federal do Brooklyn, em Nova York, após a condenação de Keith Rainiere a 120 anos de prisão em 27 de outubro de 2020
Seth DuCharme, procurador do distrito leste de Nova York, fala à imprensa em frente à corte federal do Brooklyn, em Nova York, após a condenação de Keith Rainiere a 120 anos de prisão em 27 de outubro de 2020

Keith Raniere, guru da seita de escravas sexuais NXIVM, que eram marcadas a fogo com as suas iniciais, foi sentenciado nesta terça-feira (27) a 120 anos de prisão por um juiz de Nova York.   

Raniere, de 60 anos, líder de um grupo de autoajuda exclusivo que atraiu ricos e famosos, foi considerado culpado no ano passado de obrigar mulheres a fazer sexo com ele.  

A sentença foi pronunciada após cinco horas de audiência no tribunal federal do Brooklyn, durante a qual 15 vítimas prestaram depoimento contra o guru, incluindo uma mulher identificada apenas como "Camila", que relatou ter sido forçada a fazer sexo com ele desde os 15 anos. 

"Eu era uma menina (...). Ele roubou minha juventude", declarou Camila, hoje com 30 anos. 

"Ele me manipulou para seu próprio prazer", acrescentou. "Ele esperava que eu estivesse sexualmente disponível o tempo todo", finalizou a testemunha.

Seu depoimento surpreendeu a audiência. Camila não testemunhou durante o julgamento de Raniere, em junho do ano passado, quando o réu foi declarado culpado por sete crimes, incluindo exploração sexual de uma adolescente de 15 anos, extorsão e formação de quadrilha.

As outras vítimas presentes na audiência o descreveram como um "predador", um "monstro", "um mentor sádico e patológico".

Seu advogado, Marc Agnifilo, tentou argumentar que as vítimas podem ter mudado sua maneira de ver seu relacionamento com o guru. 

"É claro que ele se aproveitou das pessoas sexualmente", respondeu o juiz, Nicholas Garaufis.

A sentença marca o fim da jornada de um homem com um poder de persuasão incomum, ainda reverenciado por dezenas de pessoas apesar das acusações pelas quais responde.

Durante o processo, que durou seis semanas, o júri ouviu como os seguidores de Raniere faziam cursos de autoajuda de cinco dias, que custavam 5.000 dólares. 

Algumas mulheres eram exploradas financeira e sexualmente, e obrigadas a se submeter a uma dieta baixíssima em calorias. Raniere e outras mulheres que trabalhavam para ele exigiam das vítimas documentos e fotos íntimas, que guardavam para depois chantageá-las caso quisessem deixar o grupo.  

Durante anos, Raniere manteve um harém com 15 a 20 escravas sexuais, uma delas com 15 anos. Algumas de suas vítimas foram marcadas com um símbolo que representava suas iniciais, enquanto eram submetidas por outras seguidoras. 

Após ser detido em uma vila luxuosa do balneário mexicano de Puerto Vallarta, em março de 2018, Raniere foi declarado culpado em junho de 2019 de tráfico sexual, extorsão, crime organizado, ameaças e abuso de menores por um júri de Nova York. 

Estabelecida em Albany, capital do estado de Nova York, a NXIVM (se pronuncia Nexium) tinha centros em várias cidades dos Estados Unidos, no México - onde o sócio de Raniere era Emiliano Salinas, filho do ex-presidente Carlos Salinas de Gortari (1988-1994) -, Canadá e outros países. 

Em mensagem publicada no Twitter durante o processo contra Raniere, Salinas disse ter se desligado da NXIVM "de forma imediata" no começo de 2018, quando uma conhecida envolvida na seita lhe contou sobre as "atrocidades" sofridas. 

O escândalo com a NXIVM é tema de duas adaptações para a TV e o cinema: uma série documental, "The Vow" (A promessa, em tradução livre), na HBO, que insiste no lado sexual da organização, e um filme de Lisa Robinson, "Escaping the Nxivm Cult" (Escapando da seita Nxivm, também em tradução livre), de 2019, sobre o testemunho de uma mãe que tentou libertar uma filha da seita. 

Outras cinco pessoas foram acusadas ligadas ao caso e todas se declararam culpadas. 

Uma delas, a herdeira do império de destilarias Seagram, a canadense Clare Bronfman, foi condenada em 30 de setembro a mais de seis anos de prisão. 

Em 2019, a filha do bilionário Edgar Bronfman, de 41 anos, se declarou culpada de ter usado mais de 100 milhões de dólares de sua fortuna de 2,6 bilhões de dólares para ajudar a organização criada por Raniere. 

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