Há 20 anos, o Sepultura disseminou o Brasil para o mundo do heavy metal em termos globais com o extraordinário “Roots”

Não tem nem o que discutir. Pode espernear, fazer o tradicional ‘mimimi’ de ‘metaleiro troo’, ofender, boicotar, fazer o diabo. Será um desperdício de energia e um atestado de cretinice negar a importância deste álbum – que completou este mês o seu 20º aniversário de lançamento – não apenas para a carreira do Sepultura e para a história do heavy metal nacional, mas para a história da música mundial.

Sim, é isto mesmo. Não é exagero da minha parte. Basta você verificar o quanto Roots se tornou a ‘porta de entrada’ para o universo do metal para uma molecada que ainda não havia tido contato prévio com qualquer sonoridade mais pesada e também para artistas de outros gêneros que nunca haviam prestado atenção a qualquer coisa mais densa que não fosse o “álbum preto” do Metallica. Durante meus tempos como editor e diretor de Redação de revistas voltadas a um público instrumentista, cansei de entrevistar gente famosa do mundo do pop, do jazz e do que mais você imaginar que fazia questão de citar Roots como uma obra prima, mesmo que eu não fizesse qualquer pergunta a respeito.

E Roots é mesmo um álbum diferenciado, mesmo que eu não o considere como o meu favorito dentro da discografia da banda – Chaos A.D. ainda é imbatível -, mas como há muito tempo eu consegui aprender a ter o distanciamento necessário para ouvir um disco sem compará-lo com os anteriores, consigo facilmente curtir o Roots como se deve: sem preconceito. E sem levar em conta o sucesso internacional que Max Cavalera, Andreas Kisser, Igor Cavalera e Paulo Xisto já desfrutavam naquela época.

Os temas espalhados pelas canções eram assombrosamente diversificados. Críticas ao regime militar (“Dictatorshit”) e à escravidão (“Roots Bloody Roots”), recado cifrado contra a antiga gravadora (“Cut-Throat”), e mais um monte de outras mensagens, todas endereçadas com raiva e um espantoso vigor na hora de usar sonoridades tipicamente brasileiras - inclusive indígenas -, principalmente em termos rítmicos, já que nas guitarras imperava aquela “disgracêra” espetacular, com riffs mastodônticos tocados em afinações mais baixas que o normal para realçar a violência da bateria. De repente, o mundo inteiro ouviu um “outro Brasil”, que nada tinha a ver com mulatas exuberantes seminuas no Carnaval servindo como “iscas” para turistas virem para cá se banquetearem com um extenso cardápio de ofertas sexuais bem baratinhas…

Você provavelmente vai ler outros textos por aí exaltando/criticando a presença de convidados – Mike Patton (Faith No More), Jonathan Davis (Korn), Carlinhos Brown e outros – e a produção – primorosa, diga-se de passagem - de Ross Robinson, os detalhes de cada faixa e o escambau. De minha parte, tudo o que tenho a dizer é que você vai encontrar em Roots artigos raríssimos no heavy metal que se faz hoje em dia: inteligência, criatividade, ousadia, experimentação e, acima de tudo, a ausência de preconceito.

Parece incrível que, mesmo decorridos duas décadas de seu lançamento, este álbum ainda tenha muito a ensinar a pessoas que acreditam que heavy metal é trilha sonora para beber cerveja quente em copos de plástico…