Há relação entre as mudanças climáticas e a intensidade de furacões?

Nos últimos meses, dois tufões, dois furacões e diversas tempestades assolaram países tanto nas costas do Oceano Atlântico quanto nas do Oceano Pacífico, com intensidades cada vez maiores. A pergunta que fica é: qual a influência das mudanças climáticas nesses fenômenos? A resposta é complexa, assim como as condições que influenciam as tempestades.

Uma coisa já é clara: mudanças no clima aumentam, sim, o limite de intensidade dos furações e a quantidade de chuva que trazem, além de aumentar o nível do mar, e, por consequência, a ocorrência de marés de tempestade (conhecidas como "ressacas"). Já a influência na quantidade de furacões é mais incerta.

Furacões são influenciados pelas mudanças climáticas, especialmente o aumento da temperatura global (Imagem: Pixabay)
Furacões são influenciados pelas mudanças climáticas, especialmente com o aumento da temperatura global (Imagem: Pixabay)

Temperaturas e a chuva

Tanto a temperatura do oceano quanto da atmosfera são muito importantes na geração de furacões. Eles são alimentados pela liberação de calor da água quando esta evapora da superfície marítima e se condensa na forma das chuvas de tempestade. Um oceano mais quente evapora mais, permitindo que chova mais, o que libera ainda mais calor e, consequentemente, ventos mais fortes.

Essa conta relativamente simples dá aos especialistas a certeza de que um planeta mais quente gera a expectativa de mais tempestades — tanto no mar quanto na terra. Segundo simulações, a taxa de chuvas em furacões vai aumentar em pelo menos 7% para cada grau a mais na temperatura média do planeta.

Força e intensidade das tempestades

Há um consenso de que o aumento de temperatura também vai aumentar a velocidade dos ventos em um clima mais quente, aumentando também a proporção de furacões que chegam às categorias 4 e 5. O dano causado pelos furacões é exponencialmente maior em relação à velocidade do vento: potencialmente, uma tempestade de categoria 4 pode ter ventos a 240 km/h — como aconteceu com o furacão Ian —, causando danos cerca de 256 vezes maiores do que uma tempestade de categoria 1, com ventos a 120 km/h.

Ainda é debatido se o aquecimento global causa uma intensificação mais rápida desses fenômenos, mas as probabilidades são grandes. Entre os problemas que enfrentamos, há a falta de informações históricas, já que temos dados sobre furacões desde os anos 1800, mas sua confiabilidade só é grande a partir de 1980, quando a cobertura por satélites surgiu. Em setembro, os furacões Ian e Noru apresentaram aumentos rápidos, o que foi previsto dias antes pelos cientistas.

O estrago causado pelas tempestades é maior de acordo com a velocidade dos ventos: na Imagem, Fort Myers, na Flórida, após a passagem do Furacão Ian (Imagem: Maxar Technologies)
O estrago causado por furacões é maior de acordo com a velocidade dos ventos. Na foto, vemos Fort Myers após a passagem do Furacão Ian (Imagem: Maxar Technologies)

Marés de tempestade

A maré de tempestade, ou ressaca, é o aumento do nível da água na costa que a ocorrência traz, influenciada por sua velocidade, tamanho e direção do vento, bem como a topografia do fundo do mar costeiro. Há duas influências do aquecimento global nessas marés: a força crescente das tempestades e o aumento do nível do mar, que aumenta o tamanho bruto das ondas, maior do que nunca em relação à terra.

Velocidade e lentidão

A velocidade de movimento espacial dos furacões tem grande influência no total de chuva em lugares específicos durante uma tempestade. Um fenômeno mais lento, como o Furacão Harvey, de 2017, permite um acúmulo pluviométrico maior. Há alguns indícios de que a velocidade de movimento dos furacões tem diminuído globalmente, mas ainda não temos muitos dados e os mecanismos por trás do fenômeno são pouco compreendidos.

Frequência das tempestades

Ainda não há estudos concretos que expliquem o número de tempestades em climas mais quentes, então não há como saber se o número de furacões tende a aumentar ou não. Além das condições ambientais para alimentar o fenômeno, ele tem de se formar a partir de um distúrbio na atmosfera, e há debates na comunidade científica acerca do papel desses distúrbios na quantidade de tempestades nos climas presente e futuro.

As marés de tempestade e a quantidade de chuvas em tempestades sofrem aumentos proporcionais às maiores temperaturas globais (Imagem: Austin Neill/Unsplash)
As marés de tempestade e a quantidade de chuvas em tempestades sofrem aumentos proporcionais às maiores temperaturas globais (Imagem: Austin Neill/Unsplash)

Fenômenos naturais, como o El Niño e a La Niña, também influenciam na formação de furacões, e ainda é estudado o quanto as variações climáticas, por sua vez, impactam nestes fenômenos. Atualmente, os esforços estão concentrados no Furacão Ian: enquanto estudos ainda estão sendo feitos, já se pode afirmar que a influência humana no clima tornou a tempestade mais forte, chuvosa e provável de acontecer.

Fonte: Canaltech

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