'Há sete anos somos agredidos': jovem negro baleado por guarda municipal em SP instalou câmeras para se proteger dos ataques racistas

Do quarto do hospital, o microempreendedor Pedro Azpilicueta, de 28 anos, agradece por estar vivo após ter sido alvejado com três tiros pelo vizinho, um guarda municipal que desde 2015 tem atitudes racistas contra a família da vítima. Atingido no rosto e na barriga, o jovem levou 11 pontos da bochecha ao queixo e teve parte do intestino grosso retirado por conta da bala que transpassou o órgão. Sem previsão de alta ainda, Pedro se recupera bem, mas teme pela segurança dos pais, que continuam na casa onde o crime aconteceu, em Mogi das Cruzes (SP).

— Eu nem quis saber do médico se tinha chances de eu morrer. Cheguei perdendo muito sangue, estava desesperado. Passei por uma cirurgia e hoje vai ser o dia que vou poder comer sopa. A gente (a família) tem medo do que esse cara pode ser capaz ainda. Mas tenho certeza que ele já tinha tudo premeditado sobre o que fazer depois de atirar. Só espero que ele pague pelo o que fez — relatou Pedro nesta manhã ao GLOBO.

De acordo com a vítima, as câmeras de segurança foram colocadas na casa por conta de seu comércio de banho e tosa, mas as que foram instaladas do lado de fora tinham a intenção de proteger a família das agressões do suspeito identificado como José Carlos de Oliveira. Ele está foragido.

— Há sete anos somos agredidos. Ele ataca a gente desde que se mudou. Já mostrou a arma na cintura para nos intimidar e sempre xinga sem motivo algum. Então instalamos as câmeras fora para registrar tudo o que ele faz. Hoje a gente precisa ter milhões de provas para comprovar que sofre racismo, mas nem assim é suficiente — desabafou o jovem.

As imagens da câmera de segurança localizada no portão da casa da vítima mostram o momento em que o ataque aconteceu. Ao chegar em casa, na quarta-feira (23), Pedro contou ter sido abordado por José Carlos, que o chamou de “macaco” e disse que seu pai, Jefferson Azpilicueta, é “vagabundo”. Pedro tentou registrar as falas racistas com o celular, mas foi impedido e agredido pelo agente com uma barra de ferro. Em seguida, o suspeito sai de perto do jovem, vai até a casa dele e volta com uma arma. Neste momento, a vítima entra correndo para dentro de casa e é atingido por dois dos três tiros disparados pelo agressor.

Após ser baleado, Pedro conta que entrou no quarto sangrando muito e pediu para o pai chamar o vizinho para levá-lo ao pronto socorro mais próximo. Segundo o jovem, ele temia que a ambulância demorasse a chegar no local. A vítima foi levada a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade e depois transferido para o Hospital Luzia de Pinho Melo, onde passou por cirurgia ainda na terça-feira.

Ameaças anteriores

De acordo com a vítima, José Carlos já havia feito ameaças contra ele o pai outras vezes. As câmeras já registraram o suspeito descartando cascas de banana em diversas oportunidades, atitude considerada racista. Em um dos desentendimentos com o vizinho, Jefferson registrou um Boletim de Ocorrência na delegacia, mas o vizinho não apareceu na audiência solicitada pela Justiça. Ainda segundo Pedro, na época, a polícia sugeriu que ele e a família se mudassem de casa.

— Há anos ele faz ameaças, mas eu nunca consegui filmar porque ele é agressivo e a câmera localizada do lado de fora não capta som. Ele sempre passa e fala que somos pretos, sujos. Também já apareceu do outro lado da sacada da minha casa, abaixou as calças e começou a fazer gestos obscenos para a minha mãe — relata o jovem. — Infelizmente, o BO não deu em nada, mas eu cresci e trabalho na minha casa, não tem cabimento eu largar tudo por conta de um vizinho racista — desabafa.

O caso foi registrado pela Polícia Civil como tentativa de homicídio no 3º DP de Mogi das Cruzes.

Em nota, a Secretaria Estadual de Segurança Pública de São Paulo informou que “a ocorrência segue em investigação por meio de inquérito policial, que analisa todas as circunstâncias relevantes ao caso. A Polícia Civil segue nas diligências visando o completo esclarecimento dos fatos. Outros detalhes serão preservados para garantir autonomia ao trabalho policial”.

Em sua conta do Twitter, o prefeito da cidade, Caio Cunha (PODE) , disse que o autor dos disparos contra Pedro já está afastado das suas atividades. “Solicitei a abertura imediata de sindicância para uma possível exoneração. Esse fato lamentável não representa nossos servidores e GCM. Minha solidariedade à família e a estima de melhoras à vítima”, escreveu.