'Há uma falsa impressão de que o pior da pandemia passou', diz presidente do conselho dos secretários estaduais

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O secretário estadual de Saúde do Maranhão, Carlos Lula, criticou ontem o Ministério da Saúde por estar dedicando mais atenção à CPI da Covid-19 do que às atividades de resposta à pandemia do novo coronavírus. Em entrevista ao GLOBO, o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) diz que o governo federal precisa buscar negociações para adquirir doses de vacina da AstraZeneca que foram rejeitadas pelos EUA e pela Europa.

O Conass trabalha com a possibilidade real de uma terceira onda?

A gente trabalha com esse cenário e espera esse cenário. Uma diminuição passou uma falsa impressão para as pessoas de que o pior da pandemia passou. Só que não passou. A gente estabilizou num número muito alto de casos e mortes. E nas últimas semanas isso começou a aumentar novamente em alguns estados. Alguns estados não estão nem indo para a terceira onda, mas já para a quarta. É o caso do Espírito Santo.

Prefeituras e estados devem começar de novo a adotar medidas mais duras de circulação e abertura de comércio e escolas?

A sociedade tem um esgotamento do ponto de vista econômico e social. As decisões dos governos têm que ser tomadas com base nessas duas variáveis, mas não dá para a gente ignorar o fato de que a gente tem uma vacinação lenta no país, que vai diminuir seu ritmo nas próximas duas semanas. É sim a hora de repensar medidas de distanciamento social.

Os estados correm risco de ter falta de oxigênio e insumos de novo?

Desta vez, a gente não teve problema com oxigênio, como tivemos na segunda onda. Mas temos problemas com outros insumos, sobretudo o kit intubação, que não foi abastecido em quantidade adequada. A gente tem para o dia a dia, mas não um estoque que nos permita enfrentar uma nova crise.

Atuação de Marcelo Queiroga

Marcelo Queiroga é o quarto ministro a chefiar o Ministério da Saúde durante o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) - Foto: AP Photo/Eraldo Peres
Marcelo Queiroga é o quarto ministro a chefiar o Ministério da Saúde durante o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) - Foto: AP Photo/Eraldo Peres

O diálogo dos estados com o governo federal melhorou com o novo ministro?

A gente dialoga permanentemente com o ministério. O problema é que, muitas vezes, ações são bloqueadas pelo presidente da República. A gente tem notado que o ministério também tem voltado muita atenção para o que acontece na CPI da Covid-19. O ministério tem que se preocupar neste momento em vacinar mais pessoas, e mais rápido. É isso que vai ajudar a conter a pandemia.

O Conass ainda busca adquirir mais vacinas por conta própria?

Neste momento, existe uma fila enorme com os fornecedores, e a gente não tem como furar essa fila. O que era para ter sido feito era o governo federal adiantar suas compras. Nós, os entes subnacionais, não temos mais oferta de vacina. A gente tentou ajudar fazendo a compra da Sputnik V, mas não logramos êxito, porque não veio a autorização da Anvisa.

Brasil terá terceira onda?

Foto: Xinhua/Rahel Patrasso via Getty Images
Foto: Xinhua/Rahel Patrasso via Getty Images

O que o ministro, governadores e prefeitos podem fazer para conter uma eventual terceira onda?

Por parte do ministério, ele tem de ir atrás, por exemplo, da AstraZeneca, que rompeu contrato com a União Europeia. Eu não vi nenhuma atitude do ministério querendo ir atrás dessas vacinas. Isso é um problema. Por que a gente não foi atrás do excedente? Os Estados Unidos apontam no mesmo sentido. Cadê a interlocução para fazer um acordo com os EUA e tentar pegar o excedente de vacinas de lá? Falta às vezes proatividade para o governo federal tentar tomar medidas se antecipando ao problema, sem esperar acontecer.

Para os entes subnacionais, a gente precisa fazer uma pressão expressiva de financiamento. Isso tem que ser dito com todas as letras. A gente viveu o pior momento da pandemia sem o governo federal aportar nada de recursos para estados e municípios.

O que o público precisa entender agora no Brasil?

A gente tem que olhar com muito cuidado e muita precaução as semanas que estão por vir. A gente pede cuidado e ajuda da população para ajudar a conter a Covid-19 neste momento. Uma terceira onda seria muito pior do que esses dois momentos que a gente já viveu.

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