Há vagas: apesar da ameaça de recessão, EUA têm dois postos de trabalho para cada desempregado

“Estamos contratando”, avisa um letreiro azul e branco ao lado do balcão de atendimento no Aeroporto Internacional de Atlanta, na Geórgia, por onde circulam mais de 300 mil pessoas todos os dias. Anúncios como este se tornaram comuns nos Estados Unidos desde meados de 2021 e são facilmente encontrados no litoral da Flórida, nas ruas de Nova York, nas estradas que cortam o Texas, na Califórnia. Placas de “precisa-se de ajuda” estão por toda a parte, de uma costa à outra, e a escassez de mão de obra é generalizada: faltam profissionais nos setores de bens e serviços, lazer e hospitalidade, transporte, habitação, saúde, assistência social, educação, na indústria e na construção civil.

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O mercado de trabalho americano é o mais aquecido em duas décadas, tendência originalmente impulsionada pelo fenômeno que ficou conhecido como “A grande renúncia”, quando um número recorde de pessoas deixou seus empregos após o início da pandemia, em 2020. Em 2021, 47,4 milhões de trabalhadores largaram seus trabalhos por vontade própria, volume nunca visto. Este ano, a média está acima das 4 milhões de desistências voluntárias por mês, segundo o Departamento do Trabalho.

Mudança de vida

Após um período de trabalho em casa sem deslocamento, muitos americanos decidiram que o equilíbrio entre vida profissional e pessoal se tornou mais importante, por isso estão mudando de emprego e de setor, passando de funções tradicionais para não tradicionais, se aposentando mais cedo ou iniciando seus próprios negócios. Outros optaram por embarcar em anos sabáticos, segundo pesquisas da consultoria McKinsey.

— Para muitos americanos em idade economicamente ativa, o momento é oportuno: as empresas estão desesperadas para contratar mais gente e os salários estão subindo relativamente rápido — afirma David Wilcox, economista sênior do Peterson Institute for International Economics e analista da Bloomberg. — A taxa de desistência é alta porque as pessoas estão confiantes de que encontrarão um emprego melhor, mais satisfatório.

Menos imigrantes

Mas este aparente céu azul não explica todo o cenário macroeconômico dos Estados Unidos. De acordo com o economista brasileiro Otaviano Canuto, membro sênior do Policy Center for the New South e ex-vice-presidente do Banco Mundial, a escassez de mão de obra também passa pelo desabamento da imigração e da participação das mulheres no mercado de trabalho.

Estima-se que 2 milhões a menos de imigrantes em idade economicamente ativa entraram nos EUA nos últimos dois anos, devido às restrições sanitárias e ao aperto regulatório, afirma Canuto. Desse total, metade seria de trabalhadores com ensino superior, de acordo com economistas da Universidade da Califórnia.

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A taxa de participação das mulheres com 20 anos ou mais no mercado de trabalho também está abaixo dos níveis pré-pandêmicos, em torno de 58%, o que significa um déficit de mais de 2 milhões de mulheres economicamente ativas, segundo dados de junho do Escritório de Estatísticas Trabalhistas dos EUA.

— Durante o período agudo da pandemia, muitas mulheres largaram o emprego para cuidar dos filhos, devido ao fechamento das escolas e ao acúmulo da carga doméstica. Com o retorno das atividades econômicas, esperava-se que retornassem ao trabalho, mas o ritmo tem sido muito lento — comenta Canuto. — Os EUA têm o sistema de cuidados infantis mais caro entre potências ocidentais, o que dificulta a presença das mulheres na força de trabalho. Os salários estão subindo, mas não acompanham a inflação.

Soma-se a isso uma mudança demográfica do país, que está envelhecendo e perdendo população economicamente ativa, ainda que lentamente.

Para David Wilcox, porém, a escassez de mão de obra nos EUA é resultado, essencialmente, da lei da oferta e da procura. De acordo com o economista, as políticas fiscal e monetária do governo de Joe Biden, que “injetaram uma grande quantidade de suporte financeiro no sistema, ao mesmo tempo em que mantinham as taxas de juros baixas”, fizeram com que a economia americana se recuperasse com muito mais força e num tempo muito menor do que se previa após o colapso provocado pela Covid-19.

— É o mercado de trabalho mais aquecido em pelo menos duas décadas, o que leva as empresas a quererem contratar mais e mais funcionários, para aumentar a produção e o lucro, especialmente nas áreas de bens e serviço — explica. — Mas essa demanda excede muito a oferta de mão de obra.

Positivo e negativo

O superaquecimento do mercado tem consequências positivas, diz Wilcox: aumenta a confiança dos trabalhadores de média e alta renda e promove ganhos salariais nominais, principalmente para funções de menor qualificação, geralmente ocupadas por negros, imigrantes e pessoas de baixa escolaridade e renda. No entanto, a situação não é economicamente sustentável, pois leva a atrasos dos serviços e carência de produtos e pode ser um fator inflacionário.

A taxa de desemprego hoje nos EUA está em 3,6%, a menor desde fevereiro de 2020, quando foi de 3,8%, e pouco acima dos 3,5% do período pré-pandemia. O país tem 5,9 milhões de desempregados, ou seja, pessoas que procuram trabalho, dos quais só 1,3 milhão (ou 22,6%) de longa duração ( 27 semanas ou mais).

Por outro lado, foram anunciadas 11,3 milhões de vagas de emprego em maio, 11,7 milhões em abril e 11,9 milhões em março, o nível mais alto em mais de 20 anos. Há quase duas vagas para cada desempregado nos EUA, uma forte reversão do padrão histórico: antes da pandemia, sempre havia mais desempregados do que empregos disponíveis.

— Num primeiro momento, o cenário pode até parecer positivo, com muita oferta de trabalho e as pessoas ganhando mais. Mas a situação precisa ser corrigida, sob risco de o país entrar em recessão — afirma Wilcox. — Precisamos voltar a um patamar em que a oferta e a demanda de trabalhadores estejam em um nível saudável.

Otaviano Canuto acredita na “suavização de restrições à imigração” e no investimento em creches e escolas como respostas efetivas para a escassez de mão de obra, dadas a tendência demográfica do país e as limitações criadas pela automação das atividades econômicas, “cada vez mais presentes em restaurantes e hotéis”.

Mudança de política

Por enquanto, a aposta do governo Biden tem sido recuar de sua política monetária e fiscal pandêmica, suspendendo o pagamento dos benefícios e aumentando as taxas básicas de juros desde março, na tentativa de combater uma inflação anual hoje em 9,1%, a mais alta em 40 anos. Neste cenário, os pedidos de auxílio desemprego subiram para 244 mil em julho, o nível mais alto desde novembro, mas permanecem baixos, de acordo com um relatório divulgado pelo Departamento do Trabalho.

— É possível que isso já reflita a desaceleração econômica em curso, mas é cedo para afirmar qualquer coisa sobre os rumos do mercado de trabalho — diz Canuto.

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