Hábil e rei da gafe, Biden teve a vida marcada por tragédia

FÁBIO ZANINI
·11 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se fosse criado um candidato anti-Donald Trump em laboratório, das visões políticas aos detalhes da vida pessoal, ele teria muitas das características de Joe Biden. O presidente é bilionário, nascido na maior cidade do país (Nova York) e belicoso. Biden, por sua vez, vem de uma família de classe média da cidade mineira de Scranton, na Pensilvânia, e construiu a carreira buscando consensos. O republicano elegeu-se como um outsider, imagem que cultiva mesmo após quatro anos morando na Casa Branca. O democrata exerceu cargos políticos de forma ininterrupta por 48 anos, como vereador, senador por Delaware e vice-presidente. Trump é eloquente e dono de retórica burilada em programas de TV. Biden tinha gagueira crônica na infância, uma condição amenizada ao longo dos anos, mas que é apontada ainda hoje como razão para seus discursos pouco empolgantes. Joseph Robinette Biden Jr. nasceu em 1942, primogênito numa família de quatro filhos, com raízes irlandesas e o hábito de frequentar a missa todo domingo. Se eleito, será o segundo presidente católico da história americana, após John Kennedy. O pai, de mesmo nome, era comerciante e vendedor de carros. Com alguma dificuldade, conseguia dar uma vida de classe média para a família. Em 1953, quando o hoje candidato tinha dez anos, mudaram-se para Delaware, após uma oferta de emprego para o pai. Desde então, a vida e a carreira do futuro político ficaram associadas ao segundo menor estado do país. Na escola, Biden era alvo de bullying pela dificuldade em se expressar. Era como se falasse em Código Morse, relembrou anos depois, com as sílabas sendo repetidas como pontos e traços de um telégrafo. Ganhou dos colegas o apelido de "Dash" (traço). Lidar com essa característica foi sua primeira superação. Antes de sair para a escola, treinava frases feitas em casa para tentar encaixá-las em algum diálogo. Nas aulas em que os alunos liam textos em sequência, contava os parágrafos para tentar antecipar qual trecho lhe caberia, e assim poder ensaiar. Das provações que enfrentou, no entanto, nenhuma foi maior que a ocorrida em 18 de dezembro de 1972. Biden tinha 30 anos recém-completados e havia sido uma das sensações da eleição para o Senado americano, ocorrida pouco mais de um mês antes. Com praticamente nenhuma experiência política, e sem que ninguém apostasse em sua campanha, o então vereador de primeiro mandato venceu o veterano republicano James Boggs, que buscava a terceira eleição seguida. Naquele dia, a uma semana do Natal, a mulher de Biden, Neilia, que conhecera enquanto cursava direito na Universidade de Siracusa, tinha saído com os três filhos para comprar uma árvore para enfeitar a casa. Um caminhão abalroou o veículo e morreram ela e Naomi, filha de 1 ano do casal. Sobreviveram Beau, 3, que morreria em 2015 de câncer no cérebro, e Hunter, 2, que na atual campanha teve sua ligação com uma empresa ucraniana de gás explorada exaustivamente por Trump. A posse no Senado seria apenas 17 dias após o acidente, e Biden, deprimido, pensou em renunciar ao mandato. Para não perder a estrela ascendente, o Partido Democrata designou um de seus principais assessores políticos, Wes Barthelmes, para ser uma espécie de tutor de Biden, que tomou posse no hospital, onde os filhos se recuperavam. Morto em 1975, Barthelmes jamais desconfiaria que seria indiretamente responsável pela primeira das muitas ligações de Biden com o Brasil. Na década de 1960, a irmã do assessor se casou com um alemão e se mudou para o Paraná, onde nasceu Thomas Traumann, que viria a ser secretário de Comunicação da presidente Dilma Rousseff. "A gente em casa chamava ele de tio Joe. Ele nos mandava cartões de Natal", diz Traumann, que só viria a conhecer Biden pessoalmente em 2013, durante uma visita do então vice-presidente ao Brasil. Com a ajuda de Barthelmes, Biden aos poucos superou o trauma e ambientou-se ao Senado. Com os filhos em Delaware, fazia o trajeto de 90 minutos diariamente, ida e volta, até Washington, o que repetiu por 36 anos. A rotina lhe rendeu o apelido de "Amtrak Joe", referência à empresa americana de trens. A tragédia dá a Biden uma espécie de conexão pessoal com eleitores, diz Jeff Wilser, autor de "O Livro de Joe", biografia do candidato lançada em 2017. "Biden sabe o que é tragédia pessoal. Quando muitos políticos dizem 'eu sinto a sua dor', isso soa artificial e piegas. Com Biden é real. Ele pode dizer que sente a dor dos eleitores porque ele conhece a dor", afirma Wilser. No Senado, Biden começou como um político marcadamente de esquerda, advogando o fim da Guerra do Vietnã e defendendo direitos civis para negros e um tema que à época era um tanto exótico, o ambientalismo. Em 1977, deu mais um passo rumo à superação de sua perda familiar ao se casar com a professora Jill Jacobs, que em breve pode se tornar a primeira-dama dos Estados Unidos. Ambos têm uma filha, Ashley, nascida em 1981. Foi só na segunda década no Senado que Biden adquiriu o status de um dos principais operadores políticos da Casa. É também desse período sua conversão a expoente da ala moderada do Partido Democrata. Se isso lhe rende críticas internamente na legenda, pode ser a chave para conquistar os chamados "eleitores-pêndulo", que costumam decidir o vencedor nos EUA. Entre seus principais parceiros de articulação no lado republicano, por exemplo, estava Strom Thurmond (1902-2003), senador da Carolina do Sul que se notabilizou pelo combate à expansão dos direitos civis no país. Biden encontrou uma forma de trabalhar com Thurmond, e ambos foram fundamentais para a aprovação de uma lei anticrime em 1984."‚ A nova regra aumentou o tempo de prisão para quem for pego com drogas e restringiu o direito a liberdade condicional para condenados. Dez anos depois, outro pacote similar com o dedo de Biden baniu armas de assalto, mas também ampliou os casos passíveis de pena de morte e prisão perpétua. Nos dois momentos, os democratas precisavam passar uma mensagem de dureza contra o crime. O ex-vice reconheceu na atual campanha que errou ao apoiar as leis, no entanto. Segundo ele, uma das consequências foi o aumento do encarceramento da população negra. No front internacional, também houve uma conversão. O ex-pacifista do Vietnã apoiou intervenções militares na Bósnia e no Kosovo nos anos 1990 e as guerras contra o Afeganistão e o Iraque na década seguinte. Seu status de centrista estava consolidado. A expertise em política externa o catapultou à vaga de vice de Barack Obama, em 2008. Seus oito anos na função não tiveram nada de decorativos. Recebeu do presidente a tarefa de endurecer a legislação de acesso a armas, mas esbarrou no Congresso. Também foi designado para diversas tarefas de política externa, e o Brasil acabou sendo um dos palcos em que foi mais atuante. "Biden, se for eleito, vai ser talvez o presidente dos EUA que melhor conhece a América Latina na história", afirma Traumann. A relação com o Brasil começou pouco depois da posse de Dilma, em 2011. Suas primeiras visitas tiveram duplo objetivo: melhorar o clima entre os dois países, que havia sido prejudicado pela proximidade do governo Lula com o Irã, e fazer lobby pela americana Boeing na venda de caças para a FAB. Em 2013, o charme vendedor de Biden foi testado após emergirem informações de que a NSA (Agência de Segurança Nacional) espionou Dilma. A presidente, furiosa, cancelou uma visita aos EUA. Coube ao então vice telefonar para ela e pedir desculpas. Dois anos depois, quando Dilma retomou a viagem, Biden de novo foi escalado para amaciar o clima. O então vice, lembra um diplomata brasileiro que participou da organização da visita, foi designado não apenas porque conhecia bem o Brasil. Era ele quem fazia o trabalho do político sedutor, que apara arestas. Em outras palavras, um político da velha escola. A relação entre Dilma e Biden estreitou-se a ponto de causar ciúmes no então vice brasileiro, Michel Temer. Tanto que Biden é citado na famosa carta em dezembro de 2015 na qual Temer reclamava com Dilma por ser um "vice decorativo". "A senhora na posse manteve reunião de duas horas com o vice-presidente Joe Biden sem convidar-me, o que gerou pergunta: o que é que houve que numa reunião com o vice-presidente dos EUA o do Brasil não se faz presente?", escreveu. Construir relações sólidas com líderes estrangeiros sempre foi uma característica de Biden, afirma Nick Zimmerman, que trabalhou diretamente com o democrata entre 2014 e 2016. "Obama é mais intelectual, um pouco mais reservado, às vezes distante. Biden investe muito em relações pessoais com líderes estrangeiros e outros políticos, incluindo republicanos", afirma ele, que foi diretor para o Brasil e o Cone Sul no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. Um exemplo prático, recorda-se o ex-assessor, foi a transferência de acusados por terrorismo da base americana de Guantánamo, em Cuba. "Esse é o cara que convenceu líderes estrangeiros a receber presos. Não é algo fácil de se pedir a outro político", diz. Para Zimmerman, Biden conseguiu, na atual campanha, pacificar o Partido Democrata, dando à sua candidatura uma roupagem menos centrista. "Quando ele fala sobre saúde pública, ou em investir US$ 1,7 trilhão [R$ 9,82 trilhões] em infraestrutura verde, é algo extremamente progressista. Nessa eleição não vimos a divisão entre Biden e [Bernie] Sanders como ocorreu com Hillary Clinton [em 2016]. Ele tem conseguido encontrar um campo comum no partido", afirma. A imagem de político da "velha escola" tem também um lado desabonador para Biden. Durante vários momentos de sua longa carreira, ele parece não ter acompanhado a mudança de padrões de comportamento na política e na sociedade. O resultado é uma sucessão de gafes, situações mal explicadas e outras que são apenas mentira. Wilser, o biógrafo, diz que o democrata tem sorte de ter como adversário um dos políticos menos cuidadosos com as palavras a já ocupar a Casa Branca. "Biden comete gafes? Claro. Mas compare-o a seu oponente." A lista de tropeços verbais do democrata é longa. O primeiro revés veio em 1987, quando disputou pela primeira vez a indicação do partido para ser candidato a presidente. Ele foi acusado de plagiar discursos de outros políticos e de criar versões fantasiosas sobre seu desempenho escolar e sua participação em marchas por direitos civis. Foi obrigado a desistir. Duas décadas depois, ao tentar ser candidato pela segunda vez, novamente meteu os pés pelas mãos. Disse que Obama era o primeiro afroamericano articulado, esperto, limpo e de boa aparência. A gafe contribuiu para mais uma derrocada. Na atual campanha, Biden esteve na defensiva em vários momentos. No início de 2020, teve de reconhecer que havia exagerado ao dizer que foi preso na África do Sul na década de 1970 durante o apartheid. Também foi acusado por diversas mulheres de ter tido comportamento inapropriado ao longo dos anos. Uma ex-assessora, Tara Rede, chegou a acusá-lo de agressão sexual. Biden reconheceu que seu jeito "tátil" no trato pessoal por vezes pode causar desconforto, mas negou de forma veemente qualquer agressão ou abuso. O mais delicado foram as suspeitas envolvendo Hunter, que trabalhou para a Burisma, empresa de gás ucraniana investigada por corrupção. Quando vice, Biden tinha relação próxima com o ex-presidente do país Petro Poroshenko, o que gerou acusações de tráfico de influência para beneficiar o filho. O caso se agravou após reportagem do tabloide New York Post com supostos detalhes de negociações entre Hunter e a empresa . O jornal afirma ter tido acesso a um email que indica que Hunter apresentou o pai, à época vice-presidente, a um empresário ucraniano. Outro ponto explorado por Trump é o jeito gauche de Biden, às vezes lembrando uma versão delawariana do ex-senador Eduardo Suplicy. O presidente costuma insinuar que o adversário é senil e não tem condições mentais de exercer a Presidência. Nas internet, chama-o de "Joe Sonolento". Biden parece não se importar. Prestes a completar 78 anos, será o presidente mais velho da história dos EUA se for eleito. Cultiva com gosto a imagem de vovô bonachão que adora tomar sorvete, seu único vício conhecido. A vida sempre lhe deu rasteiras emocionais, mas Biden frequentemente surpreendeu quem o subestimou. Ele está perto de gaguejar por último, agora na Casa Branca. * LINHA DO TEMPO Origens: - Nasce em 30 de novembro de 1942 em Scranton, na Pensilvânia, numa família católica e de origem irlandesa; - Aos 10 anos, a família se muda para Delaware, onde ele estuda e se forma em história, ciência política e direito. Carreira política: - Eleito vereador em 1969, seu primeiro cargo público; - Em 1972, com apenas 30 anos, elege-se senador e se torna uma sensação no Partido Democrata; - Ao todo foram sete eleições ao Senado, no qual ocupou postos importantes como a chefia das comissões Judiciária e de Relações Exteriores; - Foi vice-presidente de Barack Obama entre 2009 e 2017; - Tentou ser candidato a presidente em 1988 e 2008, antes de conseguir a indicação democrata em 2020. Vida pessoal: - Em 1972, sua mulher, Neilia, e a filha Naomi, de 1 ano, morrem num acidente de carro quando compravam árvores de natal; os filhos Beau, 3, e Hunter, 2, sobrevivem; - Casa-se em 1977 com a professora Jill Jacobs; a filha de ambos, Ashley, nasce em 1981; - Em 2015, o filho Beau morre aos 46 anos de câncer no cérebro.