H1N1 foi muito mais letal no Brasil do que o novo coronavírus tem sido na China

Ana Lucia Azevedo
Foto: Getty Images

Uma análise recém-concluída mostra que o H1N1, o vírus da gripe suína, é muito mais letal no Brasil do que o novo coronavírus demonstrou ser na China até agora.

E nos siga no Google News:

Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

Autor da avaliação, o diretor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o professor titular Roberto Medronho, destaca que o H1N1 mata muito no Brasil, embora não assuste tanto. Só no ano passado, 796 pessoas morreram de gripe H1N1.

Leia também

Medronho diz que o coronavírus da Covid-19 deve ser temido e combatido, mas salienta que há um temor exagerado, muitas vezes, irracional.

— A gripe continua a ser um inimigo da saúde pública para o qual muita gente não dá a devida atenção. E hoje podemos nos prevenir do H1N1, pois ele faz parte da composição da vacina da gripe. Não precisaríamos ter tantas mortes. Não faz sentido um pânico coletivo contra uma doença e a negligência pessoal contra outra, que mata mais e para a qual há vacina. Aliás, ela mata tanto justamente porque as pessoas não se vacinam — frisa ele, que é especialista em epidemiologia e saúde coletiva.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Em 2019, o Brasil notificou 3.430 casos de H1N1 — apenas casos graves acabam por ser notificados, pois a imensa maioria dos infectados nem recorre a serviços médicos —, dos quais 796 morreram. Isso dá à gripe H1N1 uma taxa de letalidade de 23,2% no Brasil em 2019.

Medronho também é coautor de um estudo que analisa em detalhes o perfil da gripe H1N1 no Rio de Janeiro, em 2009. Naquele ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou pandemia da doença, o que não fez com a Covid-19 até agora.

No Rio, a gripe teve uma taxa de letalidade de 7,4%, se considerados os casos graves, e de 0,01% a 0,04%, se estimados todos os possíveis infectados.

Aqui morreram principalmente pessoas de baixa escolaridade e com alguma outra doença, o que especialistas chamam de comorbidade.

Dupla epidemia de Covid-19

A taxa de letalidade da Covid-19 na China muda a cada dia, pois o vírus emergiu há pouco mais de dois meses. Mas, dentro da China, é de 3,6%, se considerados todos os casos e 12,4%, se levados em conta apenas os pacientes graves. É menor que a da gripe H1N1 em qualquer comparação.

O número de infectados pelo novo coronavírus já passou de 90 mil no mundo e mais de 3.000 pessoas morreram desde dezembro. A China concentra mais de 90% dos casos, mas o vírus já se espalhou para mais de 60 países, sendo Irã, Itália e Coreia do Sul os mais afetados.

Medronho vê na Covid-19 uma dupla epidemia. A primeira é a da infecção causada pelo vírus propriamente dita. A segunda é a infodemia, o pânico exagerado alimentado por fake news.

O problema não se restringe ao Brasil. Pressionado pela disseminação da Covid-19 nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump, que já assumiu germofóbico, tem desdenhado o temor generalizado e dito se tratar “apenas de outra gripe”. Mas Trump não escondeu a surpresa em “descobrir” que a gripe mata tanto.

E é justamente por ter um padrão muito semelhante ao das gripes epidêmicas que o novo coronavírus preocupa a Organização Mundial de Saúde (OMS) e especialistas. Ele causa uma infecção respiratória capaz de matar, é transmissível pelo ar e com sintomas indistinguíveis de inofensivos dos extremamente comuns resfriados.

— A Covid-19 deve nos preocupar tanto quanto a gripe. O problema é que temos pânico da primeira, que sequer se propagou em massa aqui, e desdenhamos a segunda, que é muito grave. A Covid-19 preocupa justamente porque se parece com a gripe — adverte Medronho.