Há 40 anos, a coletânea “A Revista Pop Apresenta o Punk Rock” derreteu os nossos cérebros

Regis Tadeu

Para quem morava no Brasil em 1977, quando a internet era coisa de ficção científica tipo Jornada nas Estrelas, foi um soco no estômago, nos ouvidos, na cabeça e, principalmente, no coração. De repente, o sangue que era bombeado pela extensão de nosso corpo parou por pouco mais do que 33 minutos, tempo suficiente para que tomássemos contato com um tipo de som que jamais pensamos que existisse em tempos de domínio do rock progressivo inglês, do hard rock americano e do jazz rock de todo o mundo ocidental.

Agora mesmo, neste exato instante, tenho dificuldade em expressar em um texto o que se passou pela minha cabeça e de todo mundo que gostava de música naquele ano quando a única revista que falava ao jovem naquela época, a Pop, resolveu sabe-se lá por quê lançar uma coletânea, A Revista Pop Apresenta o Punk Rock. Ainda hoje é indescritível a sensação de ter ouvido pela primeira vez um troço chamado “punk rock” em pleno 1977.

Não tenho a menor dúvida de que a coletânea foi muito mais que a porta de entrada para que milhares de roqueiros no Brasil adentrassem ao universo daquele estilo. Foi o bilhete – só de ida – para que viajássemos para um mundo em que a gravidade e a velocidade parecessem funcionar ao contrário do que nosso cérebro percebia aqui na Terra.  Tudo ali era uma novidade tão grande que não dava pra assimilar a coisa toda logo de cara. Era preciso ouvir várias vezes para entender o que estava fincado naqueles sulcos do LP. Nem era preciso pedir: a gente não conseguia parar de ouvir o disco. Eu mesmo fiquei 20 dias só ouvindo aquilo. Era viciante de uma maneira como nenhum de nós havia sentido…

Para começar, todas as noções de como uma canção deveria soar foram derretidas de maneira acachapante. E o repertório? Tente imaginar o impacto que tivemos ao ouvir em pleno 1977 algumas canções de bandas das quais a gente aqui no Brasil nunca tinha ouvido falar: Ramones, Sex Pistols, Ultravox, The Jam, Runaways, Eddie and the Hot Rods…

Quem ouviu o disco tratou logo de montar sua banda. Gente como Edgard Scandurra, que montou um trio chamado Subúrbio e chamou um jovem baterista iniciante apelidado de “Orelha” – que décadas depois mais tarde passou a ser conhecido como “Regis Tadeu” – só para tocar tudo o que fosse possível encontrar de Sex Pistols, Ramones, The Clash e mais umas canções próprias que mais tarde foram reaproveitadas quando a banda mudou de nome para Ira! e passou a ter um vocalista chamado Nasi. Gente de São Paulo como Clemente, que formou imediatamente os Inocentes, da mesma forma que outros garotos não demorariam a montar grupos como Ultraje a Rigor, RPM, Titãs; um pessoal de Brasília que logo se reuniu para formar bandas como Aborto Elétrico, Plebe Rude, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana.

Na contracapa, um texto do renomado jornalista e crítico Okky de Souza explicava de maneira didática e brilhante o que estávamos ouvindo naquela sucessão de canções mitológicas:

“Há poucos anos, quando os grupos “classicosos” invadiram o cenário pop, muita gente pressentiu que o rock estava morrendo. Afinal, as sofisticadas harmonias e arranjos daqueles grupos pouco tinham a ver com a característica básica de que o rock sempre se alimentou: a energia instintiva e visceral, que hipnotiza a juventude através do saudável exercício da dança. Mas, com o passar do tempo, os grupos “classicosos” provaram transmitir pouco mais que um imenso tédio. Hoje seus discos vendem cada vez menos e suas temporadas de shows se viram reduzidas. Os tempos mudaram!

Reagindo violentamente à sofisticação de um gênero que sempre foi simples, a garotada inglesa e americana acabou arrombando a festa. Pegaram guitarras e amplificadores, aprenderam uns poucos acordes musicais, reuniram-se no fundo de suas garagens e lançaram um novo grito de contestação: ‘Temos que salvar o rock!’ Nascia o punk. Estava declarada guerra ao rock clássico e progressivo. A ordem era voltar às raízes de rebeldia e energia primitiva que, nos anos 60, ajudaram a deflagrar a revolução cultural daquela década. ‘Afinal’, comentou há poucas semanas Johnny Rotten, líder dos Sex Pistols, ‘de que adiantou Elvis balançar os quadris se um bando de idiotas decide levar o rock a sério…’.

Neste LP, a Phonogram e a revista POP fizeram uma seleção do que há de mais representativo no mundo do punk rock. E o disco chega no momento certo. Afinal, nos Estados Unidos e Europa o punk rock já tomou proporções de verdadeira revolução na música popular. Os jornais especializados, como o Melody Maker, Sounds, New Musical Express e outros, falam cada vez menos dos grupos de rock tradicional. O punk rock ou New Wave (Nova Onda) é o assunto do dia. É claro que os músicos mais ligados ao rock tradicional não aceitaram de cara a revolução dos grupos punk. Afinal, o movimento surgiu em pleno reinado do rock “classicoso”, e nunca deu muita bola para os conceitos tradicionais de estética musical. Mas os roqueiros punk não chegaram a se abalar com as opiniões dos outros. O importante, para eles, é estar em cima de um palco, devolvendo ao rock a energia que ele ameaçava perder. E para isso eles possuem referências acima de qualquer suspeita: são influenciados pelo The Who, Doors e todos os grupos que nunca pretenderam sofisticar um simples exercício dos sentidos.

Assim, o rock que você vai ouvir neste LP não tem compromissos com os padrões tradicionais da música. Feito e executado por garotada de 18 a 20 anos, ele não possui nenhum dos vícios seriosos que 20 anos de rock acabaram criando. Ele representa uma nova tendência que, na verdade, nos recorda de um fato que quase íamos esquecendo: o rock foi feito para dançar.”

O que mais posso escrever a respeito de mais um LP que mudou a minha vida e a de todos que tomaram contato com ele? Apenas que você mentalmente se teletransporte para 1977 e ouça este LP na sequência original…