Há 40 anos, o The Clash expôs as vísceras apodrecidas do Sistema em seu espetacular álbum de estreia

Quatro décadas atrás, todos nós fomos sacudidos violentamente pela sonoridade, estética e conceitos do punk. Eu e um monte de gente nunca mais fomos os mesmos de 1977 em diante. Um dos capítulos mais nervosos daquela transformação musical-sensorial ocorreu quando chegou às lojas brasileiras um disco com a capa verde e uma foto de três sujeitos que parecia ter sido tirada de algum fanzine xerocado…

Dá para contar nos dedos de uma mão quais foram os álbuns que retrataram com tanta fidelidade as instabilidades culturais, sociais e políticas de uma determinada época em termos globais. Um deles é justamente o álbum de estréia do The Clash.

Enquanto a segunda metade da década de 70 era para nós o início da diluição sonora de nossas bandas e artistas favoritos em busca da aceitação radiofônica iniciada pela disco music, as canções presentes no álbum do Clash ofereciam exatamente o contrário: rispidez e rusticidade exibidas em um hipotético espelho na frente de nossos olhos, como se fossem lâminas de um microscópio embebidas em caos, desesperança, tensão e inconformismo e vontade de lutar contra todo um Sistema viciado e putrefato. Tudo em forma de canções. E que canções!

Gravado inteiramente em três finais de semana ao custo total de míseras 4 mil libras, o disco tinha uma timbragem tão crua que chegou a apagar todas as noções que tínhamos até então de “som pesado”.

As canções soavam tão cortantes que era absolutamente impossível não sair pulando como um louco dentro do quarto enquanto pauladas como “White Riot”, “Janie Jones”, “I’m So Bored With the USA” e “London’s Burning” saíam dos alto-falantes como tiros de bazucas em nossos ouvidos. Bastava saber um pouco de inglês para concordar com as críticas endereçadas aos sistemas políticos e econômicos da Inglaterra naqueles tempos em canções como “Career Opportunities”. Era até mesmo possível identificar um mínimo de preciosismo melódico tradicional em maravilhas como “Garageland” e “Remote Control”. A princípio tudo soava meio amadorístico, como já tínhamos ouvido em gravações dos Ramones, mas com uma virulência verbal poética e incisiva ao mesmo tempo.

Dentro da tal “tosquice punk”, demoramos para sacar na época que uma canção poderosa como “Police and Thieves” era, mais do que uma versão de uma música de um tal Junior Marvin, o sinal de que a banda flertava com o reggae jamaicano, uma ligação que se tornaria muito mais explícita nos anos seguintes.

A parceria entre as guitarras e vozes de Joe Strummer e Mick Jones, mais o baixo pulsante de Paul Simonon era tão poderosa que não importava que o baterista Terry Chimes tivesse gravado tudo meio “de favor”, já que tinha se mandado da banda semanas antes. Qualquer um que sentasse a mão nos tambores só iria acrescentar ritmos primitivos e urgentes a canções monumentais por si mesmas.

Na época, não dava ainda para cravar que o álbum seria um clássico ou um divisor de águas instantâneo como aconteceria com o Never Mind the Bullocks… do Sex Pistols – a respeito do qual escreverei um artigo em outubro, quando o mesmo também completar seu 40º aniversário -, que cativava e fazia borbulhar nossos hormônios logo na primeira ouvida. Pelo contrário, o primeiro disco do Clash primeiro causou um espanto. O entusiasmo surgiu a partir de repetidas audições.

Por mais contraditório que fosse, ali estava uma banda que soltava uma verdadeira metralhadora giratória contra o Sistema por intermédio de um disco lançado pela poderosa gravadora CBS, que já na época havia sido vendida para a multinacional japonesa Sony. O desconforto foi tão grande que a gravadora só decidiu lançar o disco nos Estados Unidos em 1979 e com a ordem das canções trocada em relação à original. Incrivelmente, a edição brasileira do LP saiu idêntica à original inglesa, mas o CD nacional, lançado mais de uma década depois, é igual ao americano…

Com o passar dos anos, o impacto deste disco foi eclipsado pela incessante babação de ovo – justa, por sinal – em cima do terceiro álbum dos caras, o mitológico London Calling, que por sua vez acabou também prejudicando o reconhecimento do inestimável valor do disco anterior, o criminosamente subestimado Give ‘Em Enough Rope, de 1978 mas esse é papo para outra matéria…