'Há pouca união entre os clubes e os jogadores são mimados', diz presidente do Bahia

Marcelo Sant’Ana deixará o Bahia tendo garantido 82% dos votos a seu sucessor (Edson Ruiz/Divulgação)

Acaba no dia 20 de dezembro o mandato de Marcelo Sant’Ana, presidente do Bahia nos últimos três anos. A julgar pela votação de seu candidato, Guilherme Bellintani, eleito neste sábado presidente com 82% dos votos, Sant’Ana deixa o Tricolor de Aço com altíssima aprovação – sua chapa no Conselho Deliberativo foi a mais votada, com 42%. Nesta entrevista exclusiva ao Blog, por telefone, o jornalista explica por que não tentou a reeleição, faz um balanço de sua gestão e põe o dedo em várias feridas do futebol ao dizer que jogador é mimado (por culpa dos dirigentes) e que falta união entre os clubes. Por fim, Sant’Ana apontou os quatro jogadores e os três técnicos que mais se destacaram durante sua gestão, que se encerra com um título baiano, uma Copa do Nordeste e o retorno à Série A do Brasileiro.

BLOG: Por que você não tentou a reeleição?
MARCELO SANT’ANA: Por questão familiar. O cargo de presidente tem muito desgaste, pressão e cobrança. Nos três anos que ocupei a presidência, passei um ano fora de Salvador, viajando com a delegação ou para reuniões em Brasília, no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Decidi sair para ficar mais perto da minha esposa e das minhas filhas, uma recém-nascida.

E existe a chance de você ter um cargo no Bahia?
Não é uma tendência. Fui candidato ao conselho no clube, mas ocupar um cargo na administração não faz parte dos planos. Seria até estranho ter um ex-presidente em alguma função… Talvez no futuro.

Mas o que pretende fazer a partir de segunda-feira?
Minha vontade é continuar no futebol. Já estava no meio desde a época em que atuava como jornalista, na imprensa. Nos últimos dias, fui procurado por outras áreas, para me lançar candidato a deputado e também para trabalhar com telecomunicações. Não é minha prioridade.

Quer ser gestor? Executivo?
Pode ser. Vamos ver o que aparece de proposta. Quem sabe administrar algum clube, atuar na área de futebol, de marketing… Se não der certo, abro um negócio ou toco uma coisa própria.

Acha que sua gestão ficará marcada por qual motivo?
Com o tempo, certamente os legados ficam mais visíveis, mas a parte de patrimônio para mim é a grande marca. Não tínhamos nenhum CT, por causa de imbróglios jurídicos e hoje temos dois. O Bahia recomprou um e conseguiu outro, além de ter mais um terreno. Tudo isso equivale a um patrimônio de R$ 40 milhões. A credibilidade também é outro ponto. Pagamos em dia, temos todas as certidões, cumprimos os compromissos… A imagem do Bahia não está mais desgastada como antes.

Qual o momento mais tenso nesses três anos?
Todo dia era tenso, porque o Bahia é muito grande e exige demais. Temos 306 funcionários, são várias pessoas para gerenciar… O momento mais chato foi o não acesso em 2015. Estivemos no G4 em 28 das 34 primeiras rodadas da Série B, mas infelizmente não subimos. Daria para ter feito mais coisas, aceleraria processos e garantiria mais confiança no trabalho que está sendo feito. Ficamos com uma sensação de dúvida que só foi saciada em 2016.

Você deixa o Bahia com qual sensação?
De felicidade por ter ajudado a reconstruir o clube de meu coração, que minha família torce. Dá orgulho ter feito parte de um pouco da história marcante do Bahia e sair com 82% dos votos para meu sucessor é uma prova de que fizemos as coisas do jeito certo. Eu queria ter acertado mais, construído mais… óbvio que houve erros, limitações, fraquezas, mas fiz sempre pensando no melhor pelo Bahia.

O futebol é muito sujo?
É muito complicado. Tem gente honesta, gente que quer fazer do Brasil o campeonato que ele merece. Mas, se todos fossem sérios, o Brasil teria o segundo melhor campeonato do mundo, só atrás da Premier League. Hoje, temos o 8º campeonato do mundo, bem abaixo do potencial real.

De quem é a culpa?
De todo mundo: clubes, jogadores, imprensa, dirigentes… A maior responsabilidade é dos clubes, que são o motor do futebol. Eles não são unidos e querem resolver apenas o problema de quarta e domingo. Não há muita preocupação com o macro, nem planejamento estratégico, horário de jogos, modelo de venda das propriedades comerciais, não só TV. Quer um exemplo? Ninguém bota limite salarial. Daria para investir mais em infraestrutura e administração, que daria oportunidade de reter talentos.

E qual a culpa da imprensa e dos jogadores?
A imprensa, da qual me incluo, sempre pede que os clubes tenham responsabilidade nas decisões, mas às vezes os comentaristas são muito calorosos nas análises e inflamam a opinião pública. Falta um pouco de equilíbrio. Quanto aos jogadores, às vezes nós, dirigentes, mimamos demais.

Você se inclui entre os dirigentes que mimam jogadores?
Sim. É muita mordomia. Os jogadores são, sem dúvida, os grandes artistas, as principais estrelas, mas, se querem assumir esse papel, têm de assumir a responsabilidade dentro e fora de campo, inclusive da gestão de suas carreiras. A época do jogador de futebol acabou. Agora, tem de ser atleta. E o ônus é ter uma vida social mais discreta, se privar de alimentação e bebida…

Quais as surpresas positivas que você teve entre os atletas do Bahia durante seu mandato?
Zé Rafael, Jean, Edgar Junio e Tiago Pagnussat, nosso capitão. Costuma falar pouco, mas lidera pelo exemplo. Os outros três são jovens e estão construindo seus nomes com muita correção. O Zé é extremamente responsável, tem força física, aplicação… Já o Jean tem muita vibração, personalidade forte e amadureceu enquanto homem, o que se reflete no desempenho. O Edgar é extremamente calmo, se sacrifica pelo time, não tem vaidade nenhuma e foi fundamental na reta final do Brasileirão.

E em relação aos técnicos?
Vou eleger um pódio também, com Guto Ferreira, Carpegiani e Sérgio Soares. O Guto foi muito importante e ajudou em um momento difícil, quando conquistamos o acesso e a Copa do Nordeste. O Carpegiani chegou quando vivíamos péssima fase na Série A. Ele tem conhecimento grande de futebol, entende absurdamente de posicionamento e dinânimca de jogo. Já o Sergio Soares foi meu primeiro técnico, mostrou pulso firme, estimulou o jogo coletivo, a troca de passes, a transição… ele fazia o time jogar de maneira bonita e eficiente, resgatando valores que a torcida queria.

O Jean vai jogar no São Paulo?
Ainda não está assinado, embora tenhamos deixado tudo bem adiantado. A decisão cabe ao novo presidente… se eu fosse continuar, poderia até vender o Jean, mas faria todo o esforço do mundo para manter o resto do elenco.

Dá para segurar todo mundo?
Exceto pelo Jean e pelo Renê Júnior (que assinou com o Corinthians), dá sim. O Mendoza e o Allione estão emprestados, mas foram muito felizes no Bahia e eu tentaria segurá-los. Os demais precisam entender que podem se valorizar muito mais em caso de um segundo ano bom pelo Bahia.

O Zé Rafael tem proposta do Corinthians?
O Zé teve uma série de sondagens, mas nenhuma proposta oficial.

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