Há quem chame de "empreendedor" aquele que sobrevive na miséria

Há quem chame de "empreendedor" aquele que sobrevive na miséria

Por Pedro Daniel Blanco Alves

Há quem denomine “empreendedor” o jovem que burla a selvagem vigilância dos trens de São Paulo na tentativa de buscar sustento com a venda de todos os conhecidos itens do cardápio do “empreendedorismo” de uma economia periférica.

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Em tempos de recrudescimento das políticas neoliberais, que de tão violentamente correspondentes ao pensamento hegemônico já não parecem destoar da aparente concretude manifesta a cada partícula do cotidiano, o drama do emprego nacional, que é uma das expressões do desemprego estrutural, parece camuflar-se por entre os elementos da paisagem social.

Segundo o IBGE, a força de trabalho brasileira é composta por 106,1 milhões de pessoas. O país encerrou o primeiro semestre de 2019 com 12,7 milhões de desocupados (12%), 7,3 milhões de subocupados por insuficiência de horas trabalhadas (6,9%) e 4,8 milhões de desalentados. Lidos conjuntamente, estes números totalizam quase 25 milhões de indivíduos, compondo a subutilização da força de trabalho. Da população ocupada, 24,1 milhões de pessoas exercem trabalho por conta própria (22,7%), das quais 19,3 milhões (80,3%) não possuem CNPJ, o que revela a preponderância da informalidade neste segmento ocupacional.

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Há quem denomine “empreendedor” o jovem que burla a selvagem vigilância dos trens de São Paulo na tentativa de buscar sustento com a venda de todos os conhecidos itens do cardápio do “empreendedorismo” de uma economia periférica. Por aqui, não é raro que se traduza como “inovadora” a sobrevivência nascida dos caminhos tortuosos de um trabalho intrinsecamente cruzado com a violência e insegurança em todos os níveis da subjetividade.

Narra a ilustração contemporânea, formada da grotesca ideologia do “self-made man”, que não se trata de sobreviver a partir da precariedade e da miséria, da explicitação espetacular de uma ferida que suplica, por sua imagem própria, socorro. É que o jovem inventivo, diz a narrativa, bem-sucedido nas vendas e na fuga do desemprego e da patrulha ostensiva, brilha no cenário da informalidade.

“Vai dar certo, seguramente, em qualquer ofício”, cochicham dois passageiros que parecem nunca terem entrado num trem, onde tudo é tão comum. “É um cara do marketing, veja como toca o desejo do público. Jovem talentoso! Daquele jeito venderá todo o estoque.”

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E, como todos ali, os turistas da linha férrea têm a oportunidade de se aproximarem de sua caricatura idealizada. “Patrão, patroa, é delícia, é qualidade; um por dois, três por cinco.” E não perdem a chance. “Mas você é bom nisso... Onde aprendeu a ser tão convincente?”

Agarrado aos dois embora separando mundos inteiros, o olhar do jovem trabalhador parecia revelar uma tal eloquência, também dirigida a si mesmo como se carregando a simplicidade de uma expressão secreta. Num instante em que o tempo parecia transcorrer tão vagarosamente, os poucos silenciosos segundos que antecederam a partida do garoto demoliram por inteiro a ponte que supostamente teria se formado entre os dois universos. Autofalante, o olhar era um projétil petrificante.

A resposta não audível era tão inequívoca a quem ali tenha sido capturado, que seguramente dava por encerrada qualquer tentativa de inquirição científica de um mundo cão, onde as constatações percorrem racionalidades próprias. Uma vez empurrado novamente para a concretude, já que por um instante transportado para o devaneio dos outros, o jovem aproveitava o último tempo de seu ponto itinerante para despistar tergiversações sobre aquilo que não teria acontecido, não para ele. “Mais alguém, alguém mais?”

E o espetáculo da reificação daquele corpo, que na realidade é o corpo de milhões de indivíduos absorvidos informalmente por um mercado de trabalho marcado estruturalmente por formas precárias de reprodução, prosseguiu em sua sina de sobreviver.

Pedro Daniel Blanco Alves é advogado em São Paulo