Haaland é fenômeno que contraria padrões e cria esperança de volta à Copa do Mundo na Noruega

Bruno Marinho
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Haaland chegou ao vestiário do Molde, time da cidade homônima a 500km ao norte de Oslo, sob os olhares curiosos dos novos companheiros de time. Aos 16 anos, era profissional. E mais curioso, já com uma temporada disputada na carreira. Alto, magro, espinhas no rosto... e com a fama de ser especial.

Lá conheceu o brasileiro Neydson, goleiro, nascido em Alagoas, vivendo na Noruega com a família desde a adolescência. Nas conversas depois do treino, matava a curiosidade sobre o futebol brasileiro. Ouvia do companheiro de Molde que o Corinthians era o grande time do país — não foi à toa que causou frisson ao vestir uma camisa dos paulistas nas redes sociais no ano passado.

— Ele era muito novo, fora de campo era tímido. Mas no jogo sempre foi especial. Dava para ver que era diferente. Ele já tinha atitude de jogador que fala e faz — afirmou Neydson.

Esse é um dos principais aspectos que explicam a carreira meteórica do atacante, autor de dois gols no empate em 2 a 2 entre Borussia Dortmund e Colonia, sábado, pelo Campeonato Alemão: a grande autoestima. Haaland vai na contramão do estereótipo que cerca os nativos dos países nórdicos, considerados frios no trato, discretos nos gestos. O atacante tem certeza de sua capacidade e faz questão de mostrar isso. Quando disputou o primeiro mata-mata da Champions e fez um gol sobre o favorito Paris Saint-Germain, comemorou o feito sentado, como se fosse meditar depois da sessão de ioga. Se foi deboche com os franceses, é impossível dizer. O certo é que eles entenderam dessa forma, tanto que Neymar, depois de eliminar o garoto prodígio, devolveu a pose.

Sua confiança se percebe nos gestos. Quando jogador do Red Bull Salzburg, deixava o treino com o hino da Champions tocando alto no carro para que todos ouvissem. E ela é plenamente justificável nos números até aqui: é o atacante mais novo da história a chegar aos 20 gols na Champions e o que precisou de menos jogos — 14 — para isso. Chegou aos 100 gols na carreira com 146 partidas disputadas. Para se ter uma ideia, Messi precisou de 210. Já Cristiano Ronaldo, de 301.

O efeito desse estilo na autoestima do norueguês fã de futebol poderá ser transformador. Na quarta-feira, a seleção nacional estreia nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, no Qatar, depositando suas esperanças em uma nova geração liderada pelo atacante, fã e leitor da biografia do craque falastrão Ibrahimovic, o que ajuda a entender a personalidade do garoto.

O adversário no primeiro jogo será Gibraltar. O grupo da seleção de Haaland tem ainda Letônia, Montenegro, Turquia e Holanda. A tendência é que noruegueses briguem com turcos e holandeses pela vaga direta ou nos playoffs. A última vez que eles conseguiram disputar um Mundial foi em 1998 e o hiato mexe com o brio do povo local.

— Torço pelo Haaland também por causa do país, para que as pessoas vejam que eles não são ruins no futebol como muitos pensam — frisou Neydson: — As pessoas aqui acreditam que ele será capaz de mudar isso.

A geração que levou a Noruega para a Copa da França foi a de Ole Gunnar Solskjaer, nome que remete a outro ponto crucial na formação de Haaland até aqui.

O atual técnico do Manchester United o treinou no Molde e fez parte de sua meticulosa construção de carreira. Haaland é filho de um ex-jogador, Alf-Inge Haaland, e juntos optaram por buscar minutos em campo e não milhões de euros nas ofertas de transferência. Foi isso que Solskjaer ofereceu ao jogador no Molde e graças a ele o garoto seguiu desenvolvendo seu jogo.

Empresariado por Mino Raiola, um dos maiores agentes de jogadores do mundo, e com futebol de alto nível para a idade, teve a chance de trocar o futebol norueguês por um grande time da Europa. Mas optou pelo Red Bull Salzburg, mais uma vez atrás de tempo em campo para seguir evoluindo e fazendo gols. Nem mesmo depois disso se permitiu dar um passo maior do que as cumpridas pernas do corpo de 1,94m. Subiu um degrau na direção do Borussia Dortmund, onde alcançou precocemente o status de astro mundial e divide o protagonismo da Bundesliga com ninguém menos que Lewandowski, atual melhor jogador do mundo pela Fifa.

— Ele é incrível, tem qualidade técnica, uma capacidade de leitura de jogo, de posicionamento, impressionantes — afirmou Paulo Otávio, lateral-esquerdo do Wolfsburg: — A vontade em campo é incrível, ele faz de tudo para fazer o gol. Tem a mentalidade de vencedor.