Protesto pacífico em Baltimore reúne milhares de pessoas

Por Michael Mathes
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População participa de protesto em Baltimore

Milhares de pessoas protestaram pacificamente na quarta-feira em Baltimore, cidade sob o toque de recolher noturno após dois dias de distúrbios e manifestações contra à violência policial ligada à morte de um jovem negro.

Manifestantes brancos e negros caminharam "sem incidentes" por Baltimore nesta quarta-feira, informou a polícia no Twitter.

"Sem justiça não há paz", gritavam os manifestantes, incluindo muitos estudantes, enquanto cantavam: "é preciso enviar estes policiais assassinos para a prisão, todo maldito sistema é culpado".

Apesar do caráter pacífico do protesto, a polícia deteve 18 pessoas nesta quarta-feira em Baltimore, informou o comissário da polícia Anthony Batts.

Também ocorreram manifestações em Nova York, Washington e Boston contra a violência policial envolvendo negros.

Os nova-iorquinos se reuniram na Union Square, em Manhattan, após a convocação pelo Facebook do "NYC se mobiliza e apoia Baltimore".

Mais de 100 pessoas foram detidas em Nova York, segundo a polícia nesta quinta-feira.

O protesto começou pacífico, mas mais de cem manifestantes foram detidos porque não tinham autorização para interromper o trânsito.

Em Washington, a manifestação reuniu cerca de mil pessoas, que seguiram em direção à Casa Branca aos gritos de "Parem o terror racista policial".

Em Baltimore, o toque de recolher, que entrou em vigor na terça-feira às 22H00 (horário local), será mantido por uma semana.

Eric Kowalczyk, porta-voz da Polícia de Baltimore, informou durante o dia que os policiais detiveram 35 pessoas desde a entrada em vigor do toque de recolher, sendo "34 adultos e uma menor".

Kowalczyk revelou ainda que das 209 pessoas detidas a partir de segunda-feira, quando iniciaram os distúrbios, 111 ainda não foram acusadas formalmente e "se não houver acusação formal no prazo de 48 horas, serão libertadas".

Segundo o chefe da Polícia de Baltimore, Anthony Batts, 15 policiais ficaram feridos na noite de terça-feira, durante a vigência do toque de recolher, incluindo dois agentes que foram hospitalizados.

Logo após o início do toque de recolher, às 22H00 local, a Polícia utilizou gás lacrimogêneo e gás de pimenta para dispersar dezenas de pessoas que ignoraram a medida e foram para as ruas, onde atiraram objetos contra as forças de segurança e provocaram um incêndio diante de uma biblioteca.

Mas os incidentes foram menores se comparados aos distúrbios de segunda-feira, quando centenas de jovens ocuparam as ruas para atacar prédios e lojas, incendiar veículos e saquear o comércio.

Milhares de homens da Guarda Nacional e reforços da polícia foram mobilizados nesta cidade portuária da costa leste dos Estados Unidos, onde várias lojas foram saqueadas por manifestantes na segunda-feira, além de 140 veículos queimados.

Equipes de voluntários têm trabalhado nas ruas para limpar os escombros.

Os distúrbios que paralisaram Baltimore começaram na segunda-feira, após o funeral de Freddie Gray, um negro de 25 anos que morreu vítima de sérias lesões na coluna vertebral oito dias depois de ter sido preso pela polícia.

Os advogados da família de Gray explicaram que a morte do jovem, que ficou uma semana em coma, foi causada por graves lesões sofridas depois da detenção.

Seis policiais foram suspensos sem direito a pagamento até o fim das investigações, cujas conclusões serão apresentadas na sexta-feira a promotores do estado de Maryland.

A polícia de Baltimore confirmou que Gray solicitou auxílio médico depois de sua detenção e admitiu que deveria ter recebido este atendimento médico de forma rápida.

Em um vídeo da detenção, gravado por uma testemunha com telefone celular, é possível ver Gray gritando de dor quando era levado por vários agentes para uma caminhonete da polícia.

O presidente Barack Obama condenou os atos de violência em Baltimore e afirmou que não há desculpas para eles, mas destacou estar convicto de que os Estados Unidos enfrentam uma crise latente em relação à polícia, especialmente em sua abordagem com os negros.

"Vemos muitos exemplos de interação entre a polícia e as pessoas, principalmente com os afro-americanos, geralmente pobres, que levantam questões preocupantes", afirmou o presidente em coletiva na Casa Branca.

Na opinião de Obama, "o departamento de polícia deve fazer uma reflexão". "E acho que há comunidades que devem fazer uma reflexão. Acho que todos nós, como um país, devemos fazer uma reflexão".

Obama afirmou ainda que, se o país quiser resolver os problemas que envenenam a moderna sociedade americana, os Estados Unidos devem não apenas repensar a formação da polícia, como também seu sistema educacional e talvez uma reforma do sistema judicial.

Já a pré-candidata presidencial democrata Hillary Clinton convocou nesta quarta-feira os Estados Unidos a enfrentar as duras verdades sobre o problema de raça e justiça.

"Temos que chegar a um acordo sobre algumas duras verdades envolvendo raça e justiça nos Estados Unidos", disse Hillary em um discurso na Universidade de Columbia, Nova York, onde propôs reforças no sistema judicial penal e penitenciário do país.

"Há algo profundamente errado quando homens afro-americanos ainda têm muito mais chances de serem parados e detidos pela polícia, acusados de crimes e condenados a sentenças mais longas que seus compatriotas brancos", afirmou.

"Devemos encontrar nosso equilíbrio", acrescentou, apontando que "de Ferguson a Staten Island e Baltimore os padrões se tornaram inconfundíveis e indiscutíveis", em referência aos incidentes com jovens negros desarmados mortos pela polícia ocorridos desde meados do ano passado em diferentes partes do país.