Para os habitantes de Jerusalém, coronavírus é 'pior que a guerra'

Por Claire GOUNON
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Vendedor em rua de Jerusalém deserta

Muni Abu Asab, um palestino que mora na Cidade Velha de Jerusalém, viveu cinco guerras, mas esse coronavírus, que fechou ruas, comércios e templos em sua amada cidade, "é novidade e pior".

"Eu vivi tudo", diz Muni Abu Asab, um homem de 56 anos de bigode e olhos claros, referindo-se à Guerra dos Seis Dias (1967), Guerra do Kippur (1973), Guerra do Golfo (1991) e duas Intifadas (levante palestino contra a ocupação israelense).

"Mas 2020 é o pior ano da minha vida", acrescenta esse empresário do turismo que passa seus dias gerenciando os cancelamentos de dezenas de clientes, depois que Israel decidiu proibir a entrada de pessoas do exterior para combater o novo coronavírus.

Até agora, houve 427 casos de pessoas contaminadas em Israel e 44 nos Territórios Palestinos.

Israel, que administra a Cidade Velha desde sua anexação em 1967, não reconhecida pela ONU, proibiu todos os movimentos não essenciais.

Nas ruas de Jerusalém, onde milhares de turistas perambulam todos os dias, vendedores de cerâmica, camisetas e tapeçarias não têm clientes e a maioria decidiu fechar as lojas.

"Durante a Intifada, embora muitas coisas precisassem ser poupadas e os turistas fossem escassos, a situação era menos ruim", diz Munib Abu Asab.

De 2000 a 2005, a segunda Intifada incendiou Israel e os Territórios Palestinos com sangrentos atentados suicidas palestinos e uma repressão mortal de Israel.

"Hoje não há turistas. Tenho quatro funcionários e no final do mês pode haver apenas dois, não posso pagar quatro salários", afirma.

O "coronavírus me mata", acrescenta fatalista.

- Cidade morta -

Mais de três milhões de turistas visitam Jerusalém a cada ano e a Cidade Velha, epicentro do monoteísmo, com menos de um quilômetro quadrado, é uma etapa obrigatória.

Tzoghig Karakashian comemorou este ano o centenário do negócio familiar de venda de cerâmica, instalado desde o primeiro dia de sua existência na Cidade Velha de Jerusalém.

Os funcionários do negócio preferem ficar em casa para evitar o máximo possível a epidemia, mas o proprietário de origem armênia está determinado a não fechar, apesar da ausência de clientes.

"Eu não vi um único cliente hoje", suspira Tzoghig Karakashian. "A Cidade Velha é uma cidade morta, por que as pessoas viriam? Tudo está fechado", diz ele.

"O novo coronavírus afeta psicologicamente as pessoas, elas temem correr riscos. Durante a Intifada, foi completamente diferente", comenta à AFP.

Seu irmão Moses Aintablian, um vendedor de ícones, vai além. "Sabemos como é a guerra, que mais cedo ou mais tarde termina, mas um vírus... Ninguém sabe o que pode acontecer", afirma na porta de sua loja vazia, não muito longe da Igreja do Santo Sepulcro.

Construída onde a crucificação, o sepultamento e a ressurreição de Jesus teriam ocorrido, a igreja costuma lotar de fiéis que beijam, às vezes em lágrimas, o túmulo coberto por uma laje de mármore.

Para entrar, em tempos normais, é necessário aguardar pelo menos uma hora, hoje, apenas três minutos.

A Esplanada das Mesquitas, o terceiro local sagrado do Islã, e o Muro das Lamentações, o local mais sagrado de oração do Judaísmo, estão tão vazios quanto o Santo Sepulcro.

- Perigo invisível -

Para os turistas que chegaram antes das restrições serem mais rígidas ou que acabaram de sair da quarentena de 14 dias, essa é uma oportunidade única.

"Adoramos que haja tão poucas pessoas. Conseguimos visitar a Cidade Velha mais profundamente do que em tempos normais", diz um americano do estado do Arizona.

Atrás do balcão de sua padaria, cheia de bolos, Mansur Shawar, está amargurado.

Como seu irmão, entediado ao lado da caixa, ele olha para a rua deserta e espera, em vão.

"O que mais podemos fazer?", pergunta.

Mansur Shawar relembra a Guerra do Golfo, durante a qual "as pessoas saíram às ruas para ver os mísseis caírem". E também as duas Intifadas, "quando as pessoas nas ruas pediam mais liberdade e não tinham medo da morte".

Mas o coronavírus "é pior que a guerra, é mais perigoso: lutamos contra algo desconhecido. Invisível", diz fatalista.