Haddad defende que discussão de nova âncora fiscal fique para depois da transição

Lula e Haddad saúdam apoiadores após vitória eleitoral em 30 de outubro

(Reuters) - Pouco depois de discursar em evento da Febraban sem tocar na questão de uma nova âncora fiscal para o país, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad defendeu a jornalistas que essa discussão fique para depois da transição, para que se possa criar uma regra com sustentabilidade e que seja crível.

"O teto (de gastos) estorou 800 bilhões (de reais). Então, há muitas propostas e inclusive o próprio governo eleito está sugerindo que essa discussão seja feita no ano que vem, a substituição de um regime pelo outro", disse Haddad a jornalistas após o evento, ao ser questionado sobre o momento ideal desse debate.

Nome mais cotado para ser o futuro ministro da Fazenda, Haddad representou o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva no almoço de fim de ano da federação dos bancos do país.

Ele lembrou aos jornalistas que existem várias propostas hoje para uma nova âncora fiscal, como as que já foram apresentadas pelo próprio Tesouro Nacional.

"O estouro da meta fiscal foi retumbante, quase 800 bilhões de reais. Então, é preciso promover a transição para a gente fazer esse ajuste", disse acreditando ser mais prudente tratar desse assunto depois.

Para ele é preciso ter tranquilidade para fazer essa transição. Referindo-se à PEC dos Benefícios, aprovada durante a campanha eleitoral, Haddad disse que o governo atual promoveu "uma desorganização e uma deseducação de como gerir o Orçamento público".

Para ele é preciso separar as necessidades imediatas da transição --e daí as negociações em torno de uma Proposta de Emenda à Constituição que permita que os gastos com o Bolsa Família fiquem fora o teto de gastos-- de uma regra fiscal mais permanente.

"Uma coisa é você reconhecer uma disfunção orçamentária que foi produzida pelo próprio governo... Outra coisa é uma regra durável, que vai durar 10 anos, 20 anos, mas que tem quer alguma sustentabilidade. Ela tem que ser crível. A pior coisa é ter uma regra que não é crível, que as pessoas não confiam mais."

No evento, Haddad driblou perguntas diretas sobre a possibilidade de assumir o Ministério da Fazenda e defendeu que Lula tenha tempo para nomear seu gabinete ministerial.

"Olha, não se deve constranger um presidente. A gente tem que deixar o presidente com a maior liberdade possível para compor sua equipe e sua escalação", disse Haddad ao ser questionado se aceitaria um eventual convite. "Deixa o Lula escalar a seleção dele."

Questionado sobre sua relação com Pérsio Arida, nome que tem circulado como cotado para o Ministério do Planejamento, Haddad disse que é amigo do economista e que se conhecem desde quando foi mestrando de Economia na USP.

Arida, que trabalhou nas gestões econômicas tucanas e é considerado um selo de moderação fiscal pelos investidores e gestores de fundos do mercado financeiro, integra a equipe da transição de governo.

A pressão pelas nomeações do gabinete do futuro governo Lula tem crescido num momento em que o futuro governo reconhece dificuldades na negociação da PEC da Transição, cuja expectativa é que começe a tramitar no Congresso na semana que vem. Nesta quinta-feira, o senador eleito Jaques Wagner (BA), um dos negociadores petistas, disse que a indicação de um titular para a economia facilitaria as tratativas.

(Reportagem de André Romani.)