Haddad não anunciou fim do real; posts distorcem fala de embaixador argentino sobre moeda comum

Não é verdade que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), tenha anunciado o fim do real, como alegam publicações visualizadas mais de um milhão de vezes desde 4 de janeiro de 2023. As publicações são baseadas em uma reportagem da CNN com uma entrevista do embaixador argentino no Brasil, Daniel Scioli, dizendo que há o interesse em criar uma unidade de valor comum para o Mercosul. Mas, no mesmo vídeo, Scioli destaca que isso não significaria o fim das moedas próprias de cada país do bloco.

“Haddad anuncia fim do Real, teremos uma moeda única do Mercosul. É o começo do fim !”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook, no Instagram, no Twitter, no Kwai e no TikTok.

No vídeo que embasa as publicações, o âncora da CNN Márcio Gomes diz que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se reuniu com o embaixador argentino no Brasil, Daniel Scioli. Ainda de acordo com Gomes, na pauta do encontro estava a criação de uma moeda comum para o Mercosul.

Em seguida é exibida uma entrevista com Scioli, que afirma que Haddad tem o “grande objetivo da moeda comum” do Mercosul e que os dois irão trabalhar nessa proposta. Mas, logo em seguida, Scioli acrescenta que isso não significa o fim das moedas próprias dos países-membros.

O ministro da Fazenda do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não aparece em nenhum momento do vídeo.

Captura de tela feita em 5 de janeiro de 2023 de uma publicação no Twitter ( .)

Uma busca no canal da emissora no YouTube permitiu encontrar o vídeo completo de onde foi extraído o trecho que circula nas redes.

Nele, é possível ver que além de Scioli, o analista de economia da CNN Fernando Nakagawa também explicou que uma possível moeda comum não resultaria no fim do real.

“O que Scioli e Haddad conversaram não se trata de substituir o real ou o peso como moeda corrente nos dois países. A gente está falando sobre a criação, ao avanço de um mecanismo para pagamento de exportações e importações entre os dois países”, disse o comentarista, que complementou:

“Esse mecanismo, efetivamente, já existe, é o chamado SML. Foi criado pelo Banco Central do Brasil com o apoio do Banco Central da Argentina e, com este mecanismo, é possível para uma empresa argentina comprar do Brasil, importar itens brasileiros, e não usar dólares para pagar essa conta.”

A página do Banco Central do Brasil (Bacen) dá mais detalhes sobre o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML), que é administrado em parceria com os bancos centrais da Argentina, do Uruguai e do Paraguai:

“Ele permite que pagamentos e recebimentos sejam efetuados diretamente em reais, sem a necessidade de moeda intermediária, como o dólar, dispensando, assim, o contrato de câmbio. Isso torna o sistema mais eficiente e reduz o custo das operações. Por meio desse mecanismo, exportadores e importadores dos países conveniados realizam as operações de compra e venda usando suas moedas locais, sendo o próprio SML encarregado de efetivar a conversão”, lê-se na seção específica do site para o Sistema de Pagamentos em Moeda Local.

Questionado pelo AFP Checamos se há a possibilidade de o real ser extinto, o Ministério da Fazenda respondeu “que não há nada em discussão nesse sentido”.

Em 5 de janeiro de 2023, perguntado por jornalistas após a cerimônia de posse da ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), Haddad respondeu que “não existe uma moeda única, não existe essa proposta”.