Haddad precisa se descolar de Lula para ter chance de vencer, diz brasilianista de Harvard

MARCO RODRIGO ALMEIDA
Renato S. Cerqueira/Futura Press

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há quase quatro décadas dedicado a pesquisas sobre Brasil e América Latina, o cientista político norte-americano Scott Mainwaring testemunhou incontáveis fatos na região, mas poucos tão surpreendentes quanto a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) e de seus aliados neste domingo (7). 

"É quase um caso único. O mais parecido, dentre as candidaturas viáveis para a Presidência, foi o de Fernando Collor [PTC], em 1989. Collor tinha um discurso populista, mas nem de longe tão antidemocrático quanto o de Bolsonaro. E tinha mais experiência administrativa", diz.

Professor de estudos brasileiros na Universidade Harvard (EUA), umas das mais conceituadas do mundo, Mainwaring, 64, é autor de, entre outros livros, "Sistemas Partidários em Novas Democracias - O Caso do Brasil".

Após os resultados das urnas, o professor prevê mudanças significativas no modelo brasileiro, com um cenário bem mais incerto e descentralizado nas próximas eleições presidenciais. "PT sai bastante enfraquecido, e acho improvável que o PSDB retome a força de antes." 

Uma vitória de Bolsonaro, diz, é o cenário mais provável deste segundo turno. Fernando Haddad (PT), seu oponente, só terá chances de êxito se conseguir atrair votos do centro, mas para isso precisa descolar sua imagem da de Lula. "O PT não pode insistir na fidelidade de Haddad a posições petistas no segundo turno."

PERGUNTA - O senhor esperava o resultado deste primeiro turno?

SCOTT MAINWARING - Não, fiquei surpreso com a votação de Bolsonaro e o resultado de seus aliados. Essa eleição foi muito difícil de prever. Há pouco tempo eu mesmo tinha dúvidas se Bolsonaro iria ao segundo turno, e ele quase ganhou no primeiro.

P - Quase todos os analistas brasileiros também diziam que ele perderia fôlego ao longo da campanha.

SM - A trajetória foi muito atípica. Tinha pouco tempo de TV, quase nenhuma estrutura partidária, ainda sofreu um ataque e ficou de fora da campanha.

Foi uma surpresa para mim. O caso mais parecido, dentro das candidaturas viáveis para a Presidência, foi o de Fernando Collor, em 1989. Collor tinha um discurso populista, mas nem de longe tão antidemocrático quanto o de Bolsonaro. E tinha mais experiência administrativa. 

P - Como fica o sistema partidário brasileiro depois disso?

SM - As eleições presidenciais serão bem mais imprevisíveis daqui para frente. Acho difícil que se volte a essa lógica de domínio de dois partidos, PT e PSDB. Haverá a partir de agora mais candidatos em condições reais de vitória. O PT segue um competidor importante no nível nacional, mas bastante enfraquecido em relação a seu passado. Acho que se não fosse o impeachment, estaria ainda mais enfraquecido.

P - O impeachment ajudou o partido?

SM - Para o centro brasileiro, o impeachment foi um grave erro. O governo Temer não foi capaz de retomar o crescimento como se imaginava e também apresentou muitos casos de corrupção. Essa combinação permitiu a reabilitação muito rápida do PT.  

Outro fator foi o sucesso do governo Lula em reduzir a pobreza nos anos 2000. A memória dessa boa fase faz um contraste forte com o momento atual em grande parte do eleitorado.

P - E que perspectivas vê para o PSDB?

SM - Saiu muito debilitado no plano nacional. Acho mais provável que não se recupere, que não volte ao protagonismo de antes. Sempre teve um patamar baixo de identificação partidária. E  agora perdeu sua imagem de opositor do PT. Quando um partido não tem um eleitorado fiel e nem ocupa um lugar definido no modelo partidário, é muito difícil que mantenha destaque nacional. O espaço que ocupava antes estará aberto a outras siglas. 

P - Qual resultado mais provável para o segundo turno?

SM - Acho bastante mais provável uma vitória de Bolsonaro. A vantagem foi grande no primeiro turno e o resultado geral favorece sua candidatura.

P - Houve uma vitória expressiva de nomes ligados a Bolsonaro. Teremos um movimento de direita mais consolidado no país?

SM - Certamente o Brasil teve uma imensa onda antipetista, conservadora, alavancada por Bolsonaro. Agora é difícil dizer se essa onda terá uma duração longa. Vai depender da situação do país, do resultado do governo desses eleitos. 

No Brasil não há um partido conservador com base ativista expressiva, sólida. A fragmentação na direita é muito grande. O partido de Bolsonaro, o PSL, pode vir a ocupar esse lugar, mas dependerá de como governarão.

P - É mais difícil ter partidos de direita sólidos e democráticos em países subdesenvolvidos?

SM - Sim, são mais comuns nos EUA e na Europa. Criar um partido conservador em países em que existe muita pobreza é mais difícil.

Imagine um candidato que se apresenta com a meta de solucionar o déficit público. Que eleitor pobre vai votar nessa proposta? Nenhum. Não bate, não faz parte da realidade do eleitor comum, de baixa renda.

É mais fácil para um partido de direita vender para o público propostas sobre segurança pública, sobre moral.

P - Debate-se muito no Brasil se Bolsonaro e Haddad são ameaças à democracia. O que o senhor acha?

SM - Isso passa pela interpretação de cada um. Para mim, o Bolsonaro tem um discurso claramente antidemocrático. Não há nada que nos faça pensar que ele mudou suas atitudes a respeito da democracia nesses últimos meses. Tem um discurso de pouco tolerância, de discriminação contra mulheres, homossexuais, a favor do uso excessivo da força da polícia, de não respeitar os direitos de suspeitos.

P - E em relação ao Haddad?

SM - Haddad, a meu ver, é completamente o contrário. A prática e o discurso dele são plenamente democráticos. 

P - Mas algumas medidas do PT não seriam também ameaças?

SM - Corrupção, apoio a governos autoritários, declarações de algumas lideranças, como José Dirceu falar em "tomada do poder".  Há no PT alguns traços não completamente democráticos, mas não no caso do Haddad. Haddad é o perfil mais democrático e moderado dentro do partido. 

P - Se Bolsonaro é uma ameaça e teve votação tão expressiva, isso significa que o eleitor não preza os valores democráticos?

SM - As pessoas estão dispostas a abrir mão de direitos democráticos se acham que algum líder carismático pode solucionar os problemas graves do país. 

Alberto Fujimori, por exemplo, reelegeu-se presidente do Peru em 1995, com grande margem de votos, depois de ter fechado o Congresso e suspendido as garantias constitucionais. O que se passava no Peru? O país sofreu hiperinflação nos anos 80, pior que a do Brasil, passou por uma crise econômica muito mais drástica que a brasileira e ainda enfrentava uma guerra contra o terrorismo. Fujimori conseguiu resultados positivos em todos esses casos, o que explica sua popularidade, a despeito de seu autoritarismo.

P - As instituições brasileiras são sólidas o bastante para controlar um presidente autoritário?

SM - As instituições podem bloqueá-lo até certo ponto. Numa vitória de Bolsonaro, tenho certeza de que os direitos individuais serão menos respeitados do que eram nos últimos anos, os direitos para a comunidade homossexual, para pessoas pobres que moram em bairros de muita criminalidade. Também acho provável que ele busque aumentar os poderes presidenciais, brecar os freios institucionais. Creio que seria um retrocesso em relação aos direitos democráticos. 

P - Não falta ao PT uma autocrítica maior em relação aos escândalos dos últimos anos?

SM - Sim, certamente. Ignorar o problema da corrupção, prosseguir como se nada tivesse ocorrido, é uma falta grave. O PT perdeu grande parte da classe média brasileira por isso.

P - Esse eleitorado pode ser reconquistado?

SM - Vai ser difícil. Se o PT ganhar e governar de maneira razoavelmente bem, pelo menos poderia neutralizar o medo em relação ao partido. Acho que é um medo exagerado, francamente. O PT não governou da mesma maneira que Hugo Chávez. Há uma diferença profundíssima.

Mas o próprio PT dificulta essa recuperação ao ignorar a realidade. Por exemplo, parte da sigla diz que não precisamos de uma reforma da Previdência. É um discurso fora da realidade. Em termos de governabilidade para um futuro governo petista, não é bom.

P - Lula alavancou a candidatura de Haddad, mas não será agora um limitador para sua campanha? Defender que Lula foi preso injustamente —tese rejeitada pela maioria da população, segundo o Datafolha— não vai atrapalhar Haddad a conquistar eleitores do centro?

SM - Esta é uma questão muito interessante. Haddad enfrenta um delicado ato de equilíbrio: Lula é um apoiador essencial e um grande obstáculo. Haddad deve defender Lula, ele precisa da base de Lula, mas a rejeição a Lula e ao PT é um grande obstáculo.

Acho que o PT cometeu alguns erros nesta campanha, mas foram erros que teriam sido difíceis de evitar, dada a história recente do país. A ardente defesa de Lula, a alegação de que ele é inocente, a ideia extremamente questionável de que o impeachment foi um golpe (embora eu ache que foi uma má ideia), a rejeição da reforma da Previdência, essas bandeiras ajudaram a mobilizar a base do PT, mas também solidificaram no resto do país (especialmente na classe média e na elite) a ideia de que o PT é um perigo. 

Para vencer, Haddad precisa se descolar de Lula. O PT não pode insistir na fidelidade de Haddad a posições petistas no segundo turno.

Haddad representa a parte mais moderada, democrática e pensativa do PT, mas ele é prisioneiro do partido e de Lula. Este é, realmente, um curso muito difícil para ele navegar.

P - Como avalia a democracia brasileira após o fim da ditadura?

SM - Simplificando um pouco, podemos dizer que a democracia brasileira tem três fases bastante nítidas. A primeira vai de 1985 a 1994, uma fase de muita turbulência política, recessão, um impeachment. 

A segunda vai do governo de Fernando Henrique Cardoso ao fim da gestão de Lula, em 2010. Nesse período parecia que o rumo do país estava mais acertado, a pobreza caía, a economia estava estabilizada. Foram anos de conquistas importantes, nos quais a democracia se fortaleceu. 

O último período, de Dilma Rousseff até hoje, é de uma grave crise, de muito ceticismo, aumento da violência, recessão. A questão é saber que rumo o país tomará agora.

P - Uma piada cínica diz que o período FHC e Lula foi um intervalo democrático no país, e que agora voltamos à instabilidade brasileira tradicional.

SM - Eu concordo (risos). Mas as sementes da crise dos anos 2010 foram plantadas, de certa maneira, no governo Lula, pela corrupção. 

P - É comum a comparação de que Bolsonaro é o Trump brasileiro. O que o senhor acha?

SM - Os dois são semelhantes em muitos aspectos, mas Bolsonaro é mais extremado na maioria deles. Ambos prometeram sacudir o sistema político. Ambos têm discursos um tanto autoritários, mas Bolsonaro muito mais.

Ambos manifestam algumas atitudes sexistas e racistas, mas Bolsonaro é muito mais homofóbico.  Ambos defenderam a tortura. Ambos apelam para a lei e a ordem e a valores tradicionais.

Claro, existem algumas diferenças. Trump era um verdadeiro outsider político, no sentido de que ele nunca havia disputado uma eleição antes, mas era o candidato de um dos partidos políticos mais antigos do mundo, o Republicano. Bolsonaro se vende como um outsider no sentido de que seu partido é muito pequeno, mas ele é deputado federal há 27 anos.