Haddad recicla na campanha ao governo temas falhos de sua gestão como prefeito

SÃO PAULO, SP, 20.09.2022 - O ex-presidente e candidato à Presidência da República pelo PT, Lula, participa de encontro com representantes do setor de turismo no Hotel Gran Mercure, em São Paulo, nesta terça. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, 20.09.2022 - O ex-presidente e candidato à Presidência da República pelo PT, Lula, participa de encontro com representantes do setor de turismo no Hotel Gran Mercure, em São Paulo, nesta terça. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O candidato Fernando Haddad (PT) reciclou em seu plano de governo metas de sua gestão na Prefeitura de São Paulo que tiveram falhas de execução, sendo que algumas delas já viraram munição para adversários na corrida ao governo paulista.

Uma das promessas do ex-prefeito é retomar obras paradas no estado. A campanha de Rodrigo Garcia (PSDB), porém, tem aproveitado o gancho para atacar Haddad por ter deixado esqueletos na cidade de São Paulo.

Outros projetos importados por Haddad de sua gestão para o plano estadual também tiveram problemas de execução, como a instalação de corredores de ônibus à esquerda das vias, a parte de habitação do projeto Braços Abertos e a construção de CEUs (Centros Educacionais Unificados), entre outros.

A vidraça mais explorada até o momento, porém, são as obras da saúde. Durante o debate da Folha de S.Paulo, UOL e TV Cultura, no dia 13, Rodrigo Garcia criticou o ex-prefeito. "[Você] prometeu hospital, acabou não entregando, deixou um esqueleto de obras na saúde", disse.

Essa é a tônica de peça do senador na chapa de Rodrigo, Edson Aparecido (MDB), com fortes ataques ao petista relacionados à saúde, incluindo obras.

A campanha de Haddad até tentou barrar a peça de Aparecido na Justiça Eleitoral, mas não obteve sucesso. Aliados do ex-prefeito disseram à reportagem que se trata de uma estratégia dos adversários para gerar maior rejeição no petista visando o segundo turno, mas que se baseia em informações incorretas.

A questão dos hospitais atrasados até gerou uma das mais diretas críticas de Haddad à gestão de Geraldo Alckmin (PSB), ex-governador tucano e hoje vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Haddad afirma que atrasou a entrega de um equipamento a pedido de Alckmin, que pretendia fazer uma estação de metrô no local, que fica na Brasilândia (zona norte). "O metrô não chegou, mas o hospital está lá", disse Haddad durante debate no dia 7.

Sobre o outro hospital prometido, de Parelheiros (zona sul), o ex-prefeito afirma que deixou a obra civil pronta.

A reportagem apurou que os tucanos pretendem continuar batendo nesta tecla das promessas de equipamento da área da saúde.

Haddad promete em seu plano retomar investimentos em infraestrutura "com a construção e a modernização de creches e escolas, hospitais e postos de saúde, moradias, metrôs, estradas vicinais, rodovias, ferrovias e portos".

Em sua gestão na cidade, porém, as obras paradas atingiram várias áreas. Segundo balanço da prefeitura, o petista deixou ao menos 35 delas suspensas, entre as quais um hospital, corredores de ônibus e um terminal de transporte.

Eleito em um cenário positivo na economia em 2012, Haddad tinha um plano de metas ambicioso, que contava com repasses federais do governo Dilma Rousseff (PT). O clima mudou, o dinheiro não veio e promessas ficaram pelo caminho.

Várias voltaram ao plano de governo do ex-prefeito para o estado. O petista pretende, por exemplo, criar institutos de educação estaduais inspirados nos federais. Fisicamente, a promessa é que tenham estruturas análogas aos CEUs.

Esse tipo de escola que reúne também equipamentos esportivos, de lazer e cultura é uma das principais vitrines petistas, criadas na gestão de Marta Suplicy em São Paulo, na qual Haddad foi secretário-adjunto.

Durante a gestão Haddad, a promessa era entregar 20 CEUs, mas só um foi inaugurado. Paradas em 2016, obras de 12 equipamentos foram retomadas só no fim de 2018.

O plano do petista também cita a viabilização de recursos para cidades implantarem corredores de ônibus e faixas exclusivas.

Os corredores são vistos como uma solução mais eficaz que as faixas, pela maior capacidade. De 150 km prometidos por Haddad na capital paulista, a gestão contabilizou a entrega de 42 km -porém, parte se referia a uma requalificação de corredores.

Sem dinheiro para os corredores, o petista construiu 423 km de faixas exclusivas à direita. A medida tem a aprovação majoritária de especialistas por dar prioridade ao transporte coletivo, mas é vista como uma opção apenas paliativa em muitos casos, com eficácia menor que a dos corredores.

Outra medida da gestão na prefeitura resgatada pelo ex-prefeito é o programa Braços Abertos, baseado na filosofia de redução de danos, com previsão de emprego, moradia e tratamento de saúde para os dependentes químicos da cracolândia, no centro de São Paulo.

Quem aderia ao programa prestava serviços de zeladoria pública, pelos quais recebia R$ 15 por dia e abrigo nos hotéis da região. Um estudo divulgado em 2016 mostrou que dois de cada três pessoas que passaram pelo programa diminuíram o uso da droga.

Apesar disso, houve problemas na questão da moradia, uma vez que parte dos hotéis eram apontados como insalubres e houve denúncias de que o tráfico se infiltrou nos locais. Só no fim da gestão a prefeitura passou a mover a moradia para bairros mais afastados da cracolândia.

Gestões seguintes encerraram o programa e adotaram políticas erráticas, que incluem repressão aos usuários de drogas.

Rodrigo Garcia (PSDB) é um dos principais críticos do programa de Haddad, o qual chama de "bolsa-crack".

Rodrigo foi secretário de Alckmin na época em que Haddad implantava o Braços Abertos -o governo tinha um projeto diferente, focado na abstinência, e o descompasso entre os entes é outro ponto visto por especialistas como prejudicial.

Se for eleito, o petista lidaria novamente com uma gestão, a da Ricardo Nunes (MDB), com visão diferente da sua.

Tarcísio de Freitas (Republicanos), outro rival de Haddad, também já usou a gestão do petista na prefeitura para atacá-lo, embora mais genericamente.

Em debate, o bolsonarista pediu que a população pesquisasse no Google "quem foi o pior prefeito de São Paulo". Haddad rebateu pedindo para a população pesquisar a palavra "genocida", em referência a Jair Bolsonaro (PL), que apoia Tarcísio.

Em resposta à estratégia que deve ser explorada pelos adversários, Haddad comprou um anúncio no Google para dizer que foi o melhor prefeito da cidade.

Agora, segundo a reportagem apurou, a equipe de Tarcísio também mira a questão das obras paradas na gestão do ex-prefeito. Mas pretende guardar o assunto como munição para um eventual segundo turno.

Questionada sobre o assunto, a campanha de Haddad não comentou sobre as metas recicladas e com falhas.

Entre os pontos que os petistas usam para defender a gestão Haddad estão a elaboração de um Plano Diretor considerado avançado, a criação da CGM (Controladoria Geral do Município), a renegociação da dívida com a União e as medidas de mobilidade.

Além disso, Haddad costuma citar ter deixado recursos para terminar obras que estavam em andamento.