Haddad, Rodrigo e Tarcísio contêm arroubos e rumam ao centro em discursos e alianças

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Fernando Haddad (PT), Rodrigo Garcia (PSDB) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) intensificaram movimentos ao centro na corrida ao Governo de São Paulo e buscaram nas últimas semanas sinalizar moderação tanto em discursos quanto na formação das alianças partidárias.

Os três, que marcam 34%, 13% e 13%, respectivamente, na pesquisa Datafolha, convergiram na busca de um eleitorado médio, decisivo para o crescimento de cada pré-candidato até o pleito. Arroubos à direita ou à esquerda foram artigos raros até aqui.

A esta mesma altura da disputa estadual de quatro anos atrás, João Doria (PSDB) apostava tudo no antipetismo. Ao lançar sua candidatura, culpou "os governos do PT e dos partidos de esquerda" pelo desemprego e bradou: "Nada de bandeira vermelha, nada de esquerdismo!"

O então candidato petista, Luiz Marinho, subia o tom contra o partido que vence no estado desde 1994. Disse em uma entrevista que, com o PSDB, "tudo só piorou" e rechaçou qualquer aliança com "partidos golpistas", como MDB e PSB, que apoiaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Com a chance de o embate nacional entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) ser espelhado na briga pelo Palácio dos Bandeirantes, os apadrinhados dos dois --Haddad e Tarcísio-- tentam avançar para além dos respectivos núcleos duros, enquanto Rodrigo luta para afastar a polarização.

O petista, que repete Lula na tarefa de se apresentar como um candidato comedido, avançou algumas casas ao levar para seu palanque Márcio França (PSB). O ex-governador, que após negociação desistiu de concorrer ao governo, é tido como trunfo na conquista de eleitores não tradicionais do PT.

A avaliação de petistas é que os apoios de França, que deve disputar o Senado pela chapa, e do ex-tucano Geraldo Alckmin (PSB), vice de Lula, ajudam a quebrar barreiras em segmentos como agronegócio, igrejas, empresariado e conservadores em geral.

Um dos auxiliares diz, sob reserva, que Haddad é muitas vezes chamado de "o mais tucano dos petistas" e que o perfil moderado é essencial na estratégia de abrir diálogo com eleitores de fora da esquerda e neutralizar o antipetismo.

Após seguidas campanhas baseadas em ataques às gestões de Alckmin e de outros quadros do PSDB, o PT no estado nega constrangimento em marchar ao lado do outrora rival.

Marinho, que concorreu em 2018 e é presidente estadual do PT, diz que a prioridade é mostrar as propostas da sigla. "Não vamos deixar de criticar o histórico dos governos tucanos. Vamos avaliar os indicadores e, em especial, o desastre das medidas tomadas por Rodrigo e Doria."

Segundo ele, a única radicalidade que se pode esperar do atual líder das pesquisas será no enfrentamento aos "problemas reais do povo paulista, como a fome, a miséria, o desemprego e a paralisia do estado".

Secretário nacional de comunicação do PT, Jilmar Tatto afirma que, assim como Lula se diz candidato de um movimento, e não só do PT ou da esquerda, o mesmo vale para Haddad. "Ele é o candidato de todas as pessoas de bem que querem mudar e transformar o estado para melhor."

O partido rechaça a pressão do PSOL para ficar com a vice de Haddad, sob a justificativa de que a composição empurraria a candidatura para a esquerda, quando o que se pretende é o oposto. A meta é atrair algum nome, preferencialmente mulher, com trânsito em diferentes setores e força no interior.

Dos mais de 34 milhões de eleitores paulistas, 27% estão na capital e 73% no restante do estado.

A retórica da conciliação tem sido levada aos extremos pelo candidato à reeleição. Rodrigo tenta se colocar como uma espécie de terceira via e passar ao largo da polarização Lula-Bolsonaro. Sua ecumênica coligação contém partidos que estão ligados a nada menos que cinco presidenciáveis.

O PSDB oficialmente endossa Simone Tebet (MDB), mas o paulista também abriga no palanque Luciano Bivar (União Brasil). Seu rol de alianças inclui ainda o Avante, do pré-candidato à Presidência André Janones, e partidos que dão suporte a Bolsonaro, como o PP, e a Lula, caso do Solidariedade.

Um dos bordões do tucano, que herdou a cadeira de Doria, é o de que procura governar para todos, independentemente se o cidadão é de esquerda, direita ou centro. A tática de tentar desnacionalizar a competição é vista com ceticismo por analistas, que acham inevitável a contaminação.

Pesquisa Datafolha mostrou que, no estado, Lula tem 43% de intenções de voto (ante 47% em âmbito nacional) e Bolsonaro possui 30% (ante 28% na média do país). Entre os eleitores paulistas, 64% não votariam em candidato a governador apoiado por Bolsonaro; o percentual ligado a Lula é de 51%.

O esforço de Rodrigo para se desconectar da disputa federal e figurar como independente foi beneficiado pela saída de Doria do páreo presidencial, o que o desobrigou de fazer campanha para o correligionário, que deixou o governo em abril com 36% de reprovação e 23% de aprovação.

O atual governador busca agora replicar a lógica da neutralidade no preenchimento da vaga de vice. Segundo aliados, a intenção é encontrar alguém que não tenha traços de radicalização em seu currículo.

Candidato do presidente, o ex-ministro da Infraestrutura vem buscando fugir do estereótipo bolsonarista e falar mais de propostas para a área que ele comandou na esfera federal e a economia do que de pautas ideológicas ou de comportamento.

A frequência das menções dele a Bolsonaro já motivou críticas de apoiadores do presidente, mas é um aspecto minimizado pelo aliado Otávio Fakhoury, presidente do PTB-SP, um dos partidos da coligação.

"Até então, ele estava muito focado nas alianças. Por isso, tinha que fazer acenos mais ao centro para trazer apoios. Agora vai ter que flutuar entre centro e direita. Nós, por exemplo, somos da ala da direita da campanha. Ele tem que acenar aos conservadores, tem que falar do Bolsonaro", afirma.

Parte da jogada culminou na parceria com o PSD, o partido que é presidido por Gilberto Kassab e se guia pelo pragmatismo, com acertos da direita à esquerda. Felicio Ramuth, até então pré-candidato da legenda ao Bandeirantes, ficou com a posição de vice de Tarcísio.

O candidato bolsonarista disputa com Rodrigo um eleitorado semelhante, que envolve apoiadores tradicionais do PSDB e moradores do interior. "Ele tem que tirar votos do Rodrigo. Para isso, vamos atacar a perpetuação do partido no estado e as falhas do governo Doria", diz Fakhoury.

Tarcísio também ajustou o tom ao falar, por exemplo, de cracolândia. Passou a dar tintas mais sociais à sua proposta para o problema. Além de pregar aumento da repressão ao tráfico e mudança da sede do governo para a região, ele defende integração entre políticas de assistência e de saúde.

Para a cientista política Andréa Freitas, um fio que alinhava as estratégias dos três candidatos é a caça aos votos do interior. "O eleitorado paulista é, de fato, mais conservador do que em outros estados", diz a professora da Unicamp e coordenadora do Núcleo de Instituições Políticas e Eleições do Cebrap.

Segundo ela, se o pleito continuar girando em torno de Lula e Bolsonaro e esse cenário interferir no embate estadual, a faixa do eleitorado médio será disputada. "É nela que estão os eleitores menos radicalizados e, portanto, decisivos."

Andréa, no entanto, diz que o correr da campanha deve ter impacto na postura moderada que os postulantes tentam emplacar. "Pelo contexto, o mais provável é que eles tenham de se colocar efetivamente entre um dos lados e reforcem a associação aos padrinhos", afirma.

Os caminhos que levam ao centro Fernando Haddad (PT)

Usa apoios de Márcio França (PSB) e Geraldo Alckmin (PSB) para abrir pontes com eleitorado que não é tradicional do PT e setores refratários ao partido Embora sua associação a Lula seja consolidada, pode ampliar vantagem com o perfil de "o mais tucano dos petistas", como descrevem aliados seus Propostas colocadas pela campanha até aqui se concentram nos gargalos óbvios do estado, sem pregar rupturas ou guinadas no modelo de gestão Rodrigo Garcia (PSDB)

Apresenta-se nas propagandas da campanha como um político que preza o diálogo e governa para todos, seja o cidadão de esquerda, direita ou centro Tenta passar ao largo da polarização Lula-Bolsonaro e construiu uma coligação com partidos que já se comprometeram com cinco presidenciáveis Plataformas exploradas pelo tucano giram em torno de continuidade e receitas para crescimento econômico e combate a desigualdades Tarcísio de Freitas (Republicanos)

Ex-ministro faz parte do "bolsonarismo lustrado", na definição da cientista política Andréa Freitas, e já discordou do presidente sobre vacinas Arco de alianças ganhou recentemente a adesão do PSD, partido presidido por Gilberto Kassab e conhecido por flutuar da direita à esquerda Ressalta planos para economia e contempla temas do bolsonarismo, como segurança, mas inclui verniz social, como no caso da cracolândia

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