Haftar, 'disposto' a ir a conferência de paz sobre Líbia, com presença de rival

Fotograma de vídeo obtido na página de Facebook das forças do marechal Khalifa Haftar, em que aparece Haftar (D) recebendo ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas, em Bengasi, na Líbia, em 16 de janeiro de 2020

O líder do Governo de Acordo Nacional da Líbia confirmou nesta quinta-feira (16) que participará de uma conferência internacional em Berlim para lançar um processo de paz, e seu rival do leste, o marechal rebelde Khalifa Haftar, se declarou disposto, "a princípio", a comparecer.

Tanto o chefe do Governo de Acordo Nacional líbio (GNA), baseado em Trípoli (oeste), Fayez al Sarraj, como o marechal Khalifa Haftar, homem forte do leste, informaram sobre suas posições, enquanto se realizou um cessar-fogo no domingo que vem sendo respeitado pelas partes.

Temendo uma internacionalização do conflito na Líbia e que haja um aumento nas chegadas de migrantes, os europeus redobraram os esforços para solucionar a situação no país, principalmente com a organização de uma conferência em Berlim sob os auspícios da ONU.

Na capital líbia, Trípoli, Fayez al Sarraj confirmou na quinta-feira, por meio de sua assessoria de imprensa, que irá à conferência.

Em Bengasi (leste), seu rival, o marechal Haftar, recebeu o ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas.

Haftar "concordou em respeitar o cessar-fogo em curso" e "deixou claro que deseja contribuir para o sucesso da conferência líbia em Berlim e, em princípio, está disposto a participar dela", twittou o ministro alemão depois de encontrá-lo.

O marechal Haftar, que controla uma parte importante dos recursos energéticos da Líbia, deixou Moscou no domingo sem assinar o acordo de cessar fogo, após reuniões promovidas por Rússia e Turquia, que apoiam Haftar e Al Sarraj respectivamente.

Al Sarraj assinou o acordo em Moscou, mas não se reuniu diretamente com Haftar em momento algum.

Antes dessa conferência em Berlim, Haftar viajou nesta quinta-feira a Atenas para se reunir com o presidente e o primeiro-ministro gregos, que o apoiam.

- Impedir as ingerências -

Vários países serão representados em Berlim, incluindo Rússia, Turquia, Estados Unidos, China, Itália e França.

O objetivo principal da conferência consiste em consolidar a trégua sobre o terreno e, sobretudo, impedir ingerências estrangeiras na Líbia, especialmente por meio de apoio militar. Nesse sentido, se proporá um embargo às armas, segundo Berlim.

A Líbia, que conta com as reservas de petróleo mais importantes da África, está imersa em violência e disputas pelo poder desde a queda do regime de Muamar Kadhafi em 2011, depois de uma revolta popular e uma intervenção militar dirigida por França, Reino Unido e Estados Unidos.

Em abril de 2019, as forças pró-Haftar lançaram uma ofensiva para conquistar Trípoli. Mais de 280 civis morreram desde então, assim como mais de 2.000 combatentes, segundo a ONU. Cerca de 146.000 pessoas tiveram que fugir dos combates.

O cessar-fogo é relativamente respeitado apesar de ambos os lados se acusarem mutuamente de violá-lo.

Na terça-feira, o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, denunciou "a implicação militar" de Moscou a Ancara na Líbia e comparou esse conflito ao da Síria.

"Dizemos que não há solução militar para o conflito. Mas isso já dissemos para a guerra síria. E o que assistimos na Síria? A uma solução militar. A mesma situação poderá ser reproduzida na Líbia", advertiu.

Ancara mobilizou militares em janeiro para apoiar o governo reconhecido (GNA) de Fayez al Sarraj, enquanto que a Rússia, apesar de suas negativas, é suspeita de apoiar as tropas do marechal Haftar com o fornecimento de armas e a chegada de mercenários.