Hamilton Mourão se projeta para ocupar espaço 'vazio' deixado por Bolsonaro

Brazil's Vice President Hamilton Mourao reacts during a ceremony of Aviator's Day at Brasilia Air Base in Brasilia, Brazil October 21, 2022. REUTERS/Ueslei Marcelino
Brazil's Vice President Hamilton Mourao reacts during a ceremony of Aviator's Day at Brasilia Air Base in Brasilia, Brazil October 21, 2022. REUTERS/Ueslei Marcelino

Nem bem o novo governo começou e o ex-vice presidente Hamilton Mourão, senador eleito pelo Republicanos do Rio Grande do Sul, já coloca à prova um velho ditado segundo o qual, em política, não existe espaço vazio.

Ele mal esperou Jair Bolsonaro (PL) decolar em direção aos EUA para chamar um pronunciamento à nação e dizer, sem citar o agora ex-presidente, que “lideranças que deveriam tranquilizar e unir a nação em torno de um projeto de país deixaram que o silêncio e o protagonismo inoportuno e deletério criasse um clima de caos e desagregação nacional”. E de forma forma irresponsável, prosseguiu, fizeram com que “as Forças Armadas de todos os brasileiros pagassem a conta”. “Para alguns, por inação, e para outros por fomentar um pretenso golpe”.

O endereço do recado era claro, e àquela altura desembarcava na casa de um lutador de MMA em Miami.

Bolsonaro absorveu o golpe em silêncio, mas seus filhos foram à forra. “Um bosta”, escreveu, sem citar o nome do general, o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) em suas redes.

Enquanto o pai segue em silêncio, Mourão continua testando o terreno para ficar as bases como líder da oposição. A concorrência na vizinhança é alta e tem na disputa os também senadores eleitos Sergio Moro (União-PR) e Damares Alves (Republicanos-DF), sem contar o primogênito Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O general segue desfilando e concedendo entrevistas, agora sem o olhar atento e vigilante do chefe, que não perdia a chance de repreendê-lo.

À Folha de S.Paulo ele declarou que o presidente Lula (PT) “chegou com espírito de revanche e sem entender que venceu no photochart, portanto sem apoio francamente majoritário”.

Era uma referência ao revogaço promovido por Lula sobre os decretos da era Bolsonaro, entre elas o que facilitava o desmatamento e o acesso a armas.

Na entrevista, Mourão disse que o Executivo deixou de esclarecer suas posições e isso jogou para o colo das Forças Armadas, sobretudo do Exército, uma pressão descabida. “Julguei que era minha responsabilidade chamar a pressão para mim”, disse ele, como se não soubesse que Bolsonaro era antes um cavalo de Tróia das pretensões militares no Brasil do que um líder incômodo a constrangê-los.

Após ser eleito, Mourão escolheu alvos da fúria bolsonarista, como o Supremo Tribunal Federal e, em especial, o ministro Alexandre de Moraes, para sugerir mudanças ao longo de seu mandato. Houve quem entendesse que essa era uma forma de atrair a militância e se colocar como um cavalo de Tróia menos caricato e problemático do que o ex-presidente ao paladar dos militares.

Mourão está na pista, quem sabe já planejado voos em direção a 2026.

Bolsonaro que não se cuide.

Quando decidir voltar de suas férias estendidas no exterior, pode encontrar ocupada a cadeira de onde pretende liderar a oposição.