Com time renovado e pouca grana, handebol feminino do Brasil sonha com boa campanha no Mundial

(Foto: Wander Roberto/COB)


Por Marcelo Laguna (@MarceloLaguna)

Em 2013, o handebol feminino escreveu uma das páginas mais bonitas do esporte olímpico brasileiro ao conquistar, de forma até surpreendente, o título mundial na Sérvia, diante das donas da casa. Eram tempos mais abastados, quando a modalidade contava com patrocinadores fortes, havia dinheiro em caixa e era até cotada para brigar por uma medalha olímpica.

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Seis anos depois, a seleção brasileira está na reta final de sua preparação para mais um Mundial, desta vez no Japão, no final deste mês de novembro. Em condições completamente diferentes de quando foi campeã, diga-se de passagem. Sem contar com qualquer patrocínio e proibida de receber recursos da Lei Agnelo/Piva por problemas administrativos da antiga gestão, a CBHb (Confederação Brasileira de Handebol) precisa da ajuda do COB (Comitê Olímpico do Brasil) para bancar parte da preparação da seleção na competição.

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Dentro de quadra, alheia aos problemas administrativos, a seleção chega para o Mundial com um grupo renovado e otimista em conseguir melhorar o resultado obtido em relação à edição anterior da competição, em 2017, quando ficou apenas em 18º lugar. Com a vantagem de já ter alcançado nesta temporada o principal objetivo no ano. Ao ficar com a medalha de ouro pela sexta vez consecutiva nos Jogos Pan-Americanos de Lima, o Brasil também assegurou sua classificação para a Olimpíada de Tóquio-2020.

“Não podemos garantir uma melhor colocação do que em 2017 pois estamos num grupo muito difícil. Mas acredito que nossa equipe está num patamar melhor que o último Mundial. Estamos mais entrosadas e mais confiantes como time. Gostaria muito de ficar entre os 12 primeiros, vamos ver se é possível”, afirmou a armadora Eduarda Amorim, a Duda, capitã da equipe, remanescente do time campeão de 2013 e que irá disputar o seu sétimo campeonato mundial.

Ao lado das outras 17 convocadas, Duda chega com a seleção brasileira nesta terça-feira (19) em Ota, local de uma das bases de preparação do COB em território japonês para a Olimpíada do ano que vem. Lá as brasileiras farão a sua aclimatação para o Mundial, que envolverá a participação em um torneio amistoso e que também será o evento-teste do ginásio de handebol para os Jogos de Tóquio. “Nossas últimas competições preparatórias permitiram que enfrentássemos equipes de alto nível, como será agora. Isso nos dará mais confiança para o Mundial”, disse Duda.

A partir de quinta-feira (21), o Brasil disputará a Japan Cup, ao lado de Japão, França (última campeã mundial e que está no grupo do Brasil este ano) e Eslovênia. Após a competição, o grupo seguirá para Kumamoto, sede principal do Mundial feminino.

“Acredito que fizemos a melhor preparação que estava a nosso alcance, primeiro com esse apoio do COB neste período de aclimatação. Mas disputamos torneios preparatórios contra equipes de diversas escolas. Nosso planejamento é avançar para a segunda fase, embora nosso grupo seja talvez o mais forte”, afirmou Ricardo Souza, presidente da CBHb.

Na primeira fase, o Brasil integrará o Grupo B, em Yamaga, onde enfrentará além da França, equipes tradicionais como Dinamarca e Alemanha, além de Coreia do Sul e Austrália. A estreia será dia 30, contra as alemãs.

Grupo renovado

A verdade é que tanto as jogadoras quanto o técnico espanhol Jorge Dueñas estão conscientes do tamanho do desafio em avançar de fase. Apenas as três melhores equipes de cada um dos quatro grupos seguirão na briga pelo título. As dificuldades serão ainda maiores pelo fato do Brasil se apresentar com um time bem renovado em relação ao último Mundial, em 2017. Somente cinco atletas seguem no grupo, em comparação com a equipe que participou do torneio disputado na Alemanha.

Mesmo modificado, a seleção chega com alguns trunfos no Japão. Um deles, a volta da ponteira Alexandra Nascimento, também integrante do elenco campeão do mundo em 2013. O outro ponto positivo é disputar a competição “mais leve”, após ter assegurado a classificação para a Olimpíada com a medalha de ouro no Pan-Americano de Lima. “Nunca existe tranquilidade total em um Mundial, mas como nós sempre conseguimos nossa vaga olímpica antes, então não é uma coisa que nos preocupa muito, ao contrário de outras seleções”, explica Duda Amorim.

A capitã da seleção brasileira também elogia o processo de renovação na equipe, reconhecendo que a trajetória teve alguns problemas. “Agora posso dizer que está no caminho certo. Foi um início de ciclo bem conturbado, mas agora as coisas estão ficando mais claras e mais potencializadas. Estamos evoluindo e por mais que nossa equipe seja nova e a maioria ainda necessite de mais experiência internacional, acredito muito no potencial desse time. O Dueñas está fazendo um bom trabalho e nós cada vez mais adaptadas à filosofia dele”, afirmou a armadora do Brasil.

Caixa vazio

Se está bem dentro de quadra, fora dela o handebol brasileiro padece um bocado. Culpa de atos desastrados, para dizer o mínimo, do antigo presidente da confederação, Manoel Luiz Oliveira, que comandou a entidade por quase três décadas. Afastado definitivamente do cargo pela Justiça no ano passado, ele foi denunciado pelo MPF de Sergipe em julho deste ano, acusado de desvio de recursos públicos, por causa da organização do Mundial de 2011, realizado em São Paulo.

Sucessor de Oliveira no cargo, Ricardo Souza (que era o vice na última eleição do ex-presidente, em 2017), reconhece as dificuldades. “Fomos perdoados da dívida que tínhamos com a IHF (Federação Internacional de Handebol), de R$ 2,5 milhões, mas ainda não temos algumas certidões negativas, em razão de prestação de contas, que nos impede ter acesso direto a recursos da Lei Agnelo/Piva”, explicou Souza. Ele argumenta que está, ao lado de outras entidades, questionando na Justiça a legalidade da recusa da secretaria especial do Esporte em aceitar as documentações. Este seria o maior obstáculo para que os recursos chegassem à entidade. Para 2020, o handebol terá direito a R$ 3.091.024,29 referente aos recursos das loterias

Com isso, a CBHb acaba tendo acesso ao dinheiro liberado a conta-gotas pelo COB, que o faz diante dos projetos previstos (competições como o Mundial, por exemplo) ou extraordinários, apresentados mensalmente. Para complicar, a confederação, que teve apoio de peso como do Banco do Brasil, não tem nenhum patrocinador atualmente. Resultado é que os salários de vários funcionários (inclusive do próprio Ricardo Souza, que tem direito a receber como presidente) estão atrasados. O dirigente espera saldar estas dívidas antes de fechar a temporada de 2019.

Até que ponto esta situação pode afetar o desempenho das seleções? Na opinião do presidente da CBHb, de forma alguma. “A confederação segue trabalhando, apesar destes problemas. Se ela estivesse paralisada, aí sim os atletas seriam prejudicados. Todas as fases de treinamento e principais competições internacionais, nós cumprimos. Tudo o que foi planejado, foi executado. Acredito que ainda exista alguma resistência dos atletas em razão dos problemas das administrações passadas. Mas eles às vezes não têm o total conhecimento de tudo o que envolve a parte administrativa”, afirma o presidente da CBHb.

Os atletas, por seu lado, têm preocupação com os efeitos que esta situação poderá trazer para o futuro da modalidade. “Não tenho conhecimento do atraso dos salários da confederação, porém sei que a situação financeira está muito complicada. Mas o que me deixa preocupada é a falta de transparência nas ações da confederação para soluções desses problemas”, afirma Duda Amorim, que vê outras questões além da crise financeira.

“Nós estamos esperando a eleição da comissão de atletas desde agosto. A CBHb tem até seis meses para realizar o pleito, porém mais uma vez não temos informações sobre o que está acontecendo. Isso mostra o desinteresse em ter os atletas ajudando na melhoria da gestão da entidade. A seleção adulta depende totalmente da ajuda financeira do COB nesse momento. Estamos sendo bem amparadas até agora, mas as categorias de base e todo resto do handebol nacional se encontra em uma situação delicada”, pondera, com preocupação, a capitã da seleção brasileira.

Os jogos do Brasil no Mundial feminino de handebol

Primeira fase

Grupo B (Yamaga)

30/11 (3h) – Alemanha x Brasil

1º/12 (3h) – Brasil x França

3/12 (3h) – Coreia do Sul x Brasil

4/12 (8h30) – Dinamarca x Brasil

6/12 (3h) – Brasil x Austrália

*Obs: horário de Brasília

As convocadas para o Mundial do Japão

Goleiras: Bárbara Arenhart (Vaci Noi Kezilabda/HUN), Gabriela Moreschi (Fleury Loiret/FRA) e Renata Arruda (Bera Bera/ESP);

Pontas: Adriana de Castro (Bera Bera/ESP), Ana Cláudia Bolzan (Esporte Clube Pinheiros/BRA), Alexandra Nascimento (Érd HC/HUN), Larissa Araújo (CSU Cluj Napoca/ROM) e Mariana Costa (CS Gloria Bistrit Nasaud/ROM);

Centrais: Ana Paula Belo (Rostov/RUS), Bruna de Paula (Fleury Loiret/FRA) e Patrícia Machado (MKS Zaglebie Lubin/POL);

Armadoras: Deonise Fachinello (Bourg de Péage/FRA), Eduarda Amorim (Gyori Audi Eto KC/HUN), Jaqueline Anastácio (Magura Cisnadie/ROM) e Samara Vieira (SCM Ramnicu Valcea/ROM);

Pivôs: Elaine Gomes (CSM Corona Brasov/ROM), Isaura Menin (Rincón Fertilidad Malaga/ESP) e Tamires Araújo (HC Dunãrea Brãila/ROM).

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