The Handmaid’s Tale: um retrato da dominação masculina e do patriarcado

The Handmaid’s Tale: um retrato da dominação masculina e do patriarcado

Através da adaptação do livro homônimo de Margareth Atwood, a distopia “O Conto da Aia” retrata questões fundamentais da agenda feminista atual

A série “The Handmaid’s Tale”, inspirada no livro homônimo (“O Conto da Aia”[1], em português, escrito pela autora Margareth Atwood) se passa em um futuro distópico, no qual Os Estados Unidos vivenciaram um golpe e se transformaram em um Estado teocrático cristão, chamado República de Gilead. Foi criada por Bruce Miller e produzida no final do ano de 2016. Venceu prêmios importantes como o “Programa do Ano” e “Melhor Série Dramática de 2017” e “Globo de Ouro 2018”. Lançada nos Estados Unidos pelo serviço de streaming Hulu, sua estreia se deu no mesmo período em que o presidente estadunidense Donald Trump chegou ao poder. Levando em consideração seus posicionamentos reacionários no que diz respeito aos direitos das mulheres, “Handmaid’s Tale” foi interpretada como uma espécie de profecia sobre o futuro dos EUA. Visando demonstrar como se dão as relações patriarcais no interior da obra, este texto terá como objeto de análise os aspectos da dominação masculina e da sujeição das mulheres presentes na mesma.

A condição feminina

Em seu ensaio “O Tráfico de Mulheres: Notas sobre a Economia Política do Sexo”, Gayle Rubin aborda uma conceituação acerca dos usos de gênero na questão das mulheres[2]. Para a autora, o sistema sexo/gênero é um conjunto de arranjo através dos quais uma sociedade modifica a sexualidade biológica em produtos da atividade humana, e na qual estas necessidades sexuais transformadas são satisfeitas. Nesse sentido, Rubin desnaturaliza as desigualdades de gênero, afastando-se do essencialismo das leituras do senso comum.

Na República de Gilead, na qual militares e membros da direita cristãos e fundamentalistas são a classe dominante, as mulheres são completamente destituídas de seus direitos individuais e sociais, além de serem diferentes por suas roupas. As mulheres dos comandantes usam o azul da pureza, enquanto as aias, mulheres férteis que são instrumentalizadas para reprodução, utilizam um traje vermelho, relacionado ao parto. A personagem Serena Joy, esposa do comandante principal, elaborou o golpe junto a ele, em razão dos seus valores e utopias parecidos. Anteriormente, era uma ativista cristã e havia publicado um livro intitulado “O Lugar da Mulher”. Contudo, opta por abrir mão do seu sucesso profissional para se adaptar ao novo governo.

Em seguida, ela passa a ser excluída do campo político, assim como todas as outras mulheres do país. Bourdieu[3] ilustra essa questão argumentando que as funções que são obrigatórias às mulheres se situam no limiar das funções domésticas, como o ensino, cuidados, serviço. As mulheres não podem ter autoridade sobre homens e então, eles devem possuir o monopólio da fala e do pensamento. Tal divisão sexual ampara-se nas atividades produtivas, na divisão do trabalho e na manutenção do capital social e simbólico. Isso explica porque tarefas oficiais e públicas ficam a cargo dos homens, enquanto às mulheres fica relegado o papel de objeto de troca. Nancy Fraser[4] nos mostra que a cultura política do capitalismo organizado pelo Estado idealizava um cidadão que fosse um trabalhador masculino pertencente à maioria étnica e chefe de família. Era necessário que o seu salário fosse o principal ou exclusivo sustento econômico de sua família.

Infertilidade e o controle dos corpos

Outro ponto de extrema importância na nova sociedade de The Handmaid’s Tale é a fertilidade. A justificativa para a infertilidade da população é o ambiente tóxico, visto que o ar se torna demasiadamente poluído, assim como a água, fazendo com que os corpos humanos deixem de ter a capacidade de reproduzir. Outra variável passível de explicar essas taxas seria o uso indiscriminado de métodos contraceptivos pelas mulheres. Logo, em Gilead, as chances de ter um filho saudável são minúsculas: de 1 em 4. Tendo em vista que a infertilidade sempre está relacionada à mulher, ela torna-se a culpada pelo fato de a sociedade estar perdendo os herdeiros. Percebe-se uma cultura onde a mulher é culpada e julgada por não poder ou querer ter filhos. Os homens, por sua vez, sequer são lembrados nessa discussão. Desprovida de direitos e com um papel social limitado, as mulheres são submissas aos seus maridos e ao Estado. São proibidas de terem acesso a qualquer tipo de produto cultural, não podendo assistir à televisão, ler livros, revistas etc.

A respeito dessa questão, Engels[5] pontua:

“(…) o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino” (ENGELS, 1980, pp.70-71).

A sociedade é pautada pelas leis do Antigo Testamento, o que explica a ênfase na importância de se ter filhos. Nesse sentido, as mulheres são divididas: existem as mulheres que são férteis, as chamadas Aias, e as inférteis, que são Esposas. Outras categorias da série são as Marthas, responsáveis pelo serviço doméstico e as Tias, que desempenham o papel de educar e vigiar as Aias. Por fim, os Comandantes são funcionários de alto cargo na República de Gilead. As Aias são entendidas enquanto objetos de reprodução, servindo como intermédio sexual entre as Esposa e seus maridos.

As “cerimônias”, nas quais os Comandantes estupram as Aias, acontecem mensalmente até que as Aias engravidem, tenham a criança e sejam transferidas para outro local. Baseadas em uma passagem bíblica, o Estado demanda que em seu período fértil, as aias tenham relações sexuais com o comandante da casa onde vivem, deitadas entre as pernas de sua esposa. Através disso, elas gerarão filhos que serão do casal. A misoginia presente em Gilead descreve essa condição como um privilégio para as aias, que são férteis e estão trabalhando para o futuro da humanidade. A questão do “destino biológico” se faz muito presente na série, ao tematizar a noção de que todas as mulheres nasceram para cumprir a expectativa social de que tenham filhos.

Na história, fica evidente que a prática sexual passa pelo intenso controle do Estado, visto que a ideologia da República de Gilead é pautada em preceitos religiosos judaico-cristãos. A finalidade socialmente aceita do sexo é a procriação e tudo o que desviar dessa norma deverá ser punido. No oitavo episódio da primeira temporada de nome “Jezebels” (alusão à princesa bíblica vítima de maldição), uma Aia é levada por seu senhor ao bordel frequentado pelos homens poderosos de Gilead, trazendo à tona a hipocrisia presente na defesa da moralidade cristã na série. A justificativa dada pelo Comandante consiste em que os homens necessitam extravasar seus impulsos sexuais devido à sua natureza com as prostitutas do local. Essas mulheres não são oficialmente reconhecidas pelo Estado, servindo exclusivamente de entretenimento para os clientes abastados.

A representação das mulheres em The Handmaid’s Tale nos mostra os reflexos do patriarcado na sociedade retratada. O poder exercido pelos homens, manifestado tanto pela violência física e palpável, como pela violência simbólica da linguagem e do pensamento, que muitas vezes acaba por ser invisível às suas vítimas. Bourdieu trata da questão da dominação, indicando que relações desiguais de poder ocorrem com certa assimilação por parte do grupo oprimido, ainda que não seja de maneira consciente. Assim, a subordinação feminina se consolida em diversas esferas sociais.

Nessa perspectiva, as Aias seriam escravas sexuais responsáveis pela reprodução e continuidade da força de trabalho. Pode-se afirmar que nessa lógica, as mulheres foram reduzidas ao uso do seu útero. Dessa maneira, elas têm sua liberdade e autonomia cerceadas, sendo estigmatizadas como mães e donas de casa, dependentes financeiramente dos seus maridos. Bourdieu trabalha com a noção de que o ato sexual sempre ocorre a partir de uma relação de dominação, marcadamente assimétrica tanto em suas práticas como representações. Nas sociedades patriarcais, as relações sexuais são concebidas pelos homens como formas de apropriação e posse com relação às mulheres. Enquanto as mulheres são preparadas pra viver a sua sexualidade como uma experiência de caráter afetivo, os homens dão maior relevância à penetração, orientados para o orgasmo e se atendo somente à parte física (BOURDIEU, 2002, pp.29-30). Nesse sentido, a relação sexual é construída a partir da dicotomia masculino-ativo e feminino-passivo, fundamentada no desejo masculino de posse e dominação.

MacCormack[6] problematiza a noção de a desvalorização feminina em decorrência da oposição entre cultura e natureza é universal. Ela aponta que enquanto as mulheres são entendidas como “naturais”, a maior aproximação dos homens com relação à cultura se dá por conta do domínio humano que eles detêm sobre os recursos naturais. As tradições judaico-cristã e industrial realizam fortemente essa associação. (MACCORMACK, p.6). Sherry Ortner[7], por sua vez, intenta expor a lógica do pensamento que legitima a inferioridade feminina, mostrando seu discurso persuasivo, bem como as fontes sociais e culturais para indicar onde se encontra o potencial para a mudança. A mulher seria identificada como símbolo em culturas distintas entre si como algo naturalmente desvalorizado, enquanto elemento de uma ordem inferior ou natureza no seu sentido mais generalizado, numa distinção bem clara entre natureza e cultura na qual os homens estão mais próximos (ORTNER, p. 100).

 

Bárbara Pinheiro Baptista é graduanda em História na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e bolsista de Iniciação Científica do projeto “Biografias intelectuais : trajetórias de pesquisadoras pioneiras nos estudos históricos brasileiros”. 

 

[1]ATWOOD, Margaret. A história da Aia (The handmaid’s tale). Trad. Marcia Serra. São Paulo: Marco Zero, 1987.
[2] RUBIN, Gayle. O tráfico de mulheres: notas sobre a economia política do sexo.
[3] BOURDIEU, P. A Dominação Masculina.
[4] FRASER, Nancy. O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história. Dossiê: Contribuições do pensamento feminista para as Ciências Sociais
[5] ENGELS, F. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.
[6] MCCORMACK, Carol. Natureza, cultura e gênero: uma crítica.
[7] ORTNER, Sherry. Está a mulher para a natureza, assim como o homem para a cultura?