Hayley Williams, do Paramore, lança álbum solo que nasceu na terapia: 'Pude entender a raiva que sentia'

Luccas Oliveira

RIO — A cantora e compositora Hayley Williams, conhecida por, no alto de seus 1,57m, ser a grande líder da banda de rock americana Paramore, tem passado a quarentena isolada em casa, em Nashville. Lá no Tennessee, vive contrastes quase que diários. Às vezes acorda bem, animada, cozinha uma refeição caprichada, dança pelos cômodos, liga para os amigos. Em outros dias, recolhe-se, “triste, confusa e um pouco assustada”.

Nesse ínterim, promove “Petals for armor”, seu primeiro disco solo após 17 anos dedicados exclusivamente ao Paramore, que chega nesta sexta-feira às plataformas digitais.

— Lançar um álbum agora ainda é importante, mesmo que eu não possa fazer turnês em 2020 — pondera a americana de 31 anos, em entrevista ao GLOBO por telefone. — A música é um grande conforto nesse momento. Pensando como fã, eu me sinto tão grata aos artistas que lançam discos durante a quarentena, porque tenho precisado de música mais do que nunca. Mas me apoio na delicada fronteira entre promover o lançamento, pois quero que as pessoas ouçam, e entender que tem muita coisa mais importante acontecendo no mundo do que meu álbum. Sou sensível às pessoas, mas também a mim, porque também fico nervosa, ansiosa...

“Petals for armor” nasceu exatamente de um processo de autodescobrimento contínuo que Hayley tem promovido desde 2018. Mais especificamente, a ideia de fazer um disco surgiu de um conselho que ela ouviu de sua terapeuta. Em Nashville após a turnê de “After laughter”(quinto disco do Paramore, lançado em 2017; leia a crítica), Hayley encarou a depressão que vinha mascarando com o álcool durante o período de shows. Tinha se separado do marido (Chad Gilbert, guitarrista do New Found Glory) e lidado com idas e vindas de seus companheiros de banda — ela é a única que nunca largou a estrada nesses mais de 15 anos. Raiva era o sentimento mais forte naquele momento.

Após diversas sessões “girando em círculos”, a terapeuta sugeriu que Hayley pegasse esses sentimentos e lembranças dolorosas e escrevesse-as, “para poder olhar para elas”. Tanto que “Rage” (“raiva”, em inglês) abre a faixa “Simmer” — uma das primeiras compostas para “Petals for armor” e, oficialmente, seu primeiro single solo —, enquanto “Dead horse” se inicia com uma gravação de Hayley falando “levei três dias para lhe enviar isso, mas, desculpe, eu estava em depressão, mas estou tentando sair disso agora”.

— Eu queria expressar um pouco da dor que eu estava sentindo, que eu não entendia totalmente. Me levou um tempo para perceber que eu estava compondo um álbum desse processo — admite Hayley.

E qual tem sido o resultado desse processo?

— Tenho sentido diferentes níveis de alívio com isso. O primeiro foi admitir as coisas, como quando li “rage” na folha de papel. Depois, busquei entender o que me deixava assim, e continuar escrevendo canções foi como desenhar um mapa que me guiava. E, mais recentemente, pude lançar essas canções, ver outras pessoas ouvindo, cantando junto, gravando versões. Fico muito orgulhosa por saber que jovens não estão mais assustados ao conversar sobre saúde mental, porque se eu tivesse mais acesso a essas conversas quando era adolescente isso teria me ajudado a encontrar meu caminho mais rapidamente.

“Petals for armor” foi produzido por Hayley com Taylor York, guitarrista e tecladista do Paramore, e apresenta uma estética quase sombria que contrasta com aquela alegria apresentada em “After laughter” e no pop rock/punk de alta voltagem que consagrou a banda, cuja segunda maior base de fãs no mundo está no Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos.

— Em termos sonoros, é como se fosse uma grande tela na qual apenas jogamos tinta, uma coisa meio Jackson Pollock, esperando que no final tivéssemos algo que se conectasse o suficiente para ser um disco. E, mesmo que não se conecte, as histórias vêm da mesma fonte — reforça.

Crítica

Na armadura da ‘maturidade’

Por Silvio Essinger

Aquele álbum solo em que a estrela juvenil revela os recantos mais escondidos da sua mente, num formato musical adulto, até mesmo sombrio: um fetiche da cultura pop ao qual Hayley Williams se rende, enfim, num disco de qualidade mas com alguns aspectos enganosos.

O primeiro equívoco é o de falar em disco solo quando se sabe que o Paramore foi, em boa parte do tempo, uma banda ao seu serviço (e músicos do Paramore estão lá,de qualquer forma, em “Petals for armor”). O outro é o de achar que se trata de um trabalho de ruptura de Hayley: tanto em “Paramore” (2013) quanto em “After laughter” (2017), ela já vinha apostando em flertes com a eletrônica de grife como forma de fugir à armadura punk pop com a qual venceu a guerra pelas paradas de sucessos.

Como era de se esperar, o novo álbum de Hayley é o menos rock já feito por ela: as guitarras perderam o protagonismo diante de uma costura de elementos do pop alternativo, numa tentativa — bem-sucedida, diga-se de passagem — de dar diversidade sonora ao disco.

Ao longo da audição de “Petals for armor”, algumas referências pulam na cara: em “Simmer”, a cantora pega uns maneirismo dos Tune-Yards. Já em “Sudden desire”, ela mira em Bjork e, em “Roses/Lotus/Violet/Iris”, não dá para esconder que uma intenção de Fiona Apple passou por ali.

Alguns momentos mais funky, como em “Dead horse”, “Pure love” e “Taken” (essa, mais jazz-funk) apontam uma possível identidade para o som de Hayley Williams, mas o melhor que ela apresenta no disco é mesmo o seu lado compositora (canções quase sempre consistentes) e o bom arsenal interpretativo que conquistou aos 31 anos de idade — como se pode ouvir em “My friend” e “Sugar on the rim”.

Cotação: regular.