De personalidade forte e bielsista, Heinze vira sonho de consumo de clubes brasileiros

Colaboradores Yahoo Esportes
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LA PLATA, ARGENTINA - JANUARY 24:  Gabriel Heinze coach of Velez Sarsfield looks on before a match between Gimnasia y Esgrima La Plata and Velez as part of Superliga 2019/20 at Juan Carmelo Zerillo Stadium on January 24, 2020 in La Plata, Argentina. (Photo by Marcelo Endelli/Getty Images)
LA PLATA, ARGENTINA - JANUARY 24: Gabriel Heinze coach of Velez Sarsfield looks on before a match between Gimnasia y Esgrima La Plata and Velez as part of Superliga 2019/20 at Juan Carmelo Zerillo Stadium on January 24, 2020 in La Plata, Argentina. (Photo by Marcelo Endelli/Getty Images)

Tem sido comum. Cada vez que uma grande equipe brasileira precisa contratar um técnico em 2020 aparece um nome: Gabriel Heinze. Jovem (42 anos) e sem títulos importantes no currículo, ele é apontado como um destacado seguidor de Marcelo Bielsa, um nome que parece não sair de moda no futebol sul-americano.

Cogitado no Santos após a queda de Jesualdo Ferreira e colocado como possibilidade no São Paulo caso Fernando Diniz fosse demitido, Heinze era, a julgar pelas reações nas redes sociais, um dos preferidos pela torcida do Palmeiras para a vaga deixada por Vanderlei Luxemburgo.

"Eu não posso falar sobre trabalhar no futebol brasileiro porque nunca recebi uma oferta concreta. Não vou dizer sim ou não até saber qual a proposta de trabalho. Estou sabendo por você que falaram em mim [nos clubes do país]. É bom ser reconhecido, mas não posso comentar sobre uma proposta que não existe", comentou Heinze ao Yahoo Esportes por telefone.

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Ele está sem clube desde março deste ano, quando surpreendeu imprensa e torcedores do Vélez Sarsfield ao dizer que não continuaria no comando do clube.

"Vélez está no passado. Não quero voltar a este assunto", se limita a dizer.

Não desejar comentar sobre o passado e nem sobre a possibilidade de trabalhar no Brasil no futuro se encaixa em uma das principais características do argentino: não ser muito amistoso com jornalistas. Basta digitar "Heinze vs periodistas" no YouTube e se divertir com os confrontos verbais entre o ex-lateral/zagueiro da seleção e repórteres.

Para entendê-lo, é preciso falar com quem trabalhou com ele no Argentinos Juniors e no Vélez Sarsfield, as duas equipes em que se destacou. Heinze iniciou a carreira como técnico no Atlético de Tucumán, mas durou apenas três meses no cargo em 2015. Não tinha o certificado necessário para exercer a função.

"Estou satisfeito com Diego (Dabove, atual técnico), mas no que dependesse de mim, Gabriel seria técnico do Argentinos até hoje. A saída foi decisão 100% dele. Fez um grande trabalho e ajudou a devolver o orgulho do torcedor. Ele calou todos porque ninguém, além de nós, dirigentes, o queria aqui", afirma o presidente do Argentinos Juniors, Cristian Malaspina.

Hostilizado no início pela própria torcida, que não aceitava um profissional sem experiência, Heinze chegou ao clube que revelou Diego Maradona em 2016, quando este estava na segunda divisão. No ano seguinte, a equipe estava de volta à elite com um futebol ofensivo, de toque de bola e e apelidado de "globetrotters", em alusão ao time americano de basquete especializado em exibições de malabarismo.

"Gabriel não é um técnico fácil. Não é simples trabalhar com ele, mas quando sente que você está dando tudo, vai com você até o fim do mundo. Defende o jogador contra tudo e contra todos. Muitas vezes é só o que o atleta de futebol deseja", analisa o atacante Braian Romero, que fazia parte daquela equipe, depois jogou no Athletico-PR e hoje atua pelo Defensa y Justicia.

A personalidade forte é outro traço marcante de Heinze. Já era assim como jogador. As críticas que recebeu por não ter experiência como treinador não foram nada perto das que ouviu quando foi chamado para as seleções argentinas nos Mundiais de 2006 e 2010. Setores da imprensa opinavam que ele não era bom o bastante para ser chamado.

"Eu mereço estar aqui pela opinião do treinador. É a única que me importa. Se não gostam, problema de vocês", chegou a dizer durante uma entrevista aos jornalistas antes da Copa da África do Sul.

A convicção, que pode esbarrar na teimosia, também é outra imagem que tinha como atleta e não a deixou de lado quando migrou para o banco de reservas. Em 2007, já não mais titular absoluto do Manchester United, teve a ousadia de pedir para ser vendido para o Liverpool. Um jogador não fazia essa mudança direta entre os dois principais rivais do futebol inglês desde a década de 1960.

Sir Alex Ferguson, técnico do United, não só negou o pedido como depois escreveu em sua segunda biografia que Heinze tem "o sangue do mercenário". O defensor foi negociado com o Real Madrid.

"Ele tem um estilo direto. Com Gabriel, não há rodeios. Se você está fazendo algo mal em campo ou se ele acha que o jogador não está se aplicando como devia, vai dizer na cara, sem cerimônias. Isso é bom. É um treinador que não se preocupa com idade. Se julga que o garoto é bom o bastante, o coloca para jogar e dá confiança", analisa o zagueiro Joaquim Laso, que foi comandado pelo treinador no Vélez Sarsfield e hoje está no Rosario Central.

Uma das maiores apostas do futebol argentino na atualidade, o meia-atacante Thiago Almada, 19 anos, virou titular no Vélez pelas mãos de Heinze.

"Além do futebol em campo, o resultado que ele nos deu ao revelar atletas jovens que depois vendemos para o exterior foi muito importante para o clube", garante o presidente Sergio Rapisarda.

As negociações de Santiago Cáceres (Villarreal), Matías Vargas (Espanyol) e Nicolás Domíngues (Bologna) renderam ao Vélez 29 milhões de euros ou R$ 188,50 milhões em valores atuais.

"Eram bons garotos, jogadores de talento. Eu não fiz nada demais a não ser orientá-los e dar-lhes chances. Eles se escalaram. Eu não os escalei. Mas se o presidente pensa dessa forma, fico feliz", conclui Heinze.

É uma frase que se encaixa na filosofia bielsista, de tirar mais do que se pensa que os jogadores podem oferecer.

Antes de interromper a conversa com o Yahoo Esportes, dizer que tem um compromisso e desligar o telefone, ele reconhece a admiração por Marcelo Bielsa, que o dirigiu na seleção argentina e com quem ganhou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas. Ele apenas não está tão certo quanto ao termo "bielsista".

"Existe isso? A imprensa gosta de rotular. Claro que Marcelo foi muito importante para mim, na minha carreira. Admiro o estilo de jogo dele, mas gosto de pensar que tenho o meu. E trabalhei com grandes treinadores. Aprendi com todos", justifica.

Depois de deixar o Vélez, ele chegou a ouvir uma sondagem para dirigir o Talleres, de Córdoba. Não aceitou sem dar maiores explicações.

"Heinze, para mim, é o melhor treinador argentino ao lado de (Marcelo) Gallardo", justificou o presidente do clube, Andrés Fassi.

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