Heloísa Périssé fala de nova fase após câncer e da volta à TV ainda com sequela: ‘Não vou ficar sem sorrir’

Carol Marques
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Heloísa Périssé: “Não olho para trás”

Coincidência ou não, o número 9 esteve presente na fase mais crítica da vida de Heloísa Périssé. Nove meses atrás, a atriz anunciava que havia descoberto, num trivial clareamento dentário, que estava com câncer nas glândulas salivares. Ela passou por nove horas de cirurgia na boca para a extração do tumor, que seguiu-se de um severo tratamento com sessões de químio e radioterapia. Dia 9 de setembro, ela concluía a metade desta etapa. Dia 9 de outubro, o fim. E em 18 (1 + 8= 9) de fevereiro deste ano, anunciava sua cura.

Na numerologia, nove é o ápice da realização intelectual e espiritual. Toda manifestação do universo passa por nove estágios. A gestação humana dura 9 meses. O nove é o número que finaliza os elementares, pois é o último, o mais elevado, assinalando o fim de uma fase e, ao mesmo tempo, marcando o começo de outra. Para os chineses, é o número do bom presságio. No caso de Heloísa, um “exercício” (com nove letras) da fé que sempre pontuou sua vida.

— As pessoas me perguntam o que eu aprendi com a doença. Eu digo que não aprendi nada. Só confirmei. Eu pratiquei o que vinha em teoria. Deus é pai, Deus é bom. E quando você consegue ir para um campo de não julgamento, de não se vitimizar, é a sua força bruta que surge. Você coloca sua força onde há força. Você tira de onde tem. Então, não há frustração. E se descobre um grande mundo que, talvez, nunca tivesse sido explorado — analisa.

De alguma forma, Heloísa fez uma espécie de “estágio” para o que estamos todos vivendo hoje, isolados socialmente, à espera de uma cura que ainda não foi descoberta, lidando com os pequenos (ou grandes) demônios de uma rotina alterada.

— Te diria que estamos tendo uma grande oportunidade neste momento. De a humanidade descobrir uma coisa que realmente é transformadora: a saída para dentro. Quando você tem uma identificação muito grande com o externo, você se pergunta, por exemplo, ‘Por que vou colocar hoje um salto alto se não posso sair? Niguém vai me ver...’. E eu questiono: Por que não? O lado externo é efêmero, está sempre se transformando. Enquanto você finca a sua casa nessa coisa de querer a aceitação do outro, preocupada com seu número de seguidores, com a marca que você usa, é fácil dar errado —, ensina ela, que vem cumprindo a quarentena à risca e, obviamente, também sente falta da vida lá fora: — Eu nunca fui muito de sair. Mas uma coisa é ter a escolha, outra é ser obrigada a ficar em casa. Ninguém gosta. Mas a gente só tem o aqui e o agora e é este o foco.

'Uma marca temporária'

Irrequieta de nascença, Heloísa se mantém produtiva nesta fase. Aos 53 anos, está concluindo remotamente a faculdade de Artes Cênicas, já pensa na matrícula do mestrado pós-pandemia (“Talvez faça Filsofia ou Pedagogia, ou até Teologia, que são assuntos que me interessam demais”), entregou um novo projeto a Globo, está escrevendo uma nova peça, “Nada a pedir, muito a agradecer”, criando um grupo de teatro para jovens com o amigo, o diretor João Fonseca, e já vislumbra uma reforma em casa quando tudo passar.

— Já estou com tudo anotado, as plantas num caderninho. Todo mundo que me conhece sabe que eu amo uma obra —, conta, rindo de si mesma.

O riso, inclusive, é o antídoto que Heloísa receitaria para o mundo. No elenco de “A vila”, do amigo Paulo Gustavo, no Multishow, a atriz apareceu pela primeira vez num trabalho com a musculatura da boca ainda um pouco paralisada. Algo que a incomodou bem no início da fisioterapia que faz para ter os movimentos de volta.

— Eu gravei um programa com meu querido amigo Alê de Souza (maquiador e fotógrafo) e disse a ele que estava meio receosa por conta da minha boca, de aparecer assim, com ela ainda tortinha. Ele disse que era isso mesmo, aparecer como sou e como estou. E decidi gravar. Foi muito interessante. Porque faz parte dessa história que eu vivi, é uma marca temporária. Passei por nove horas de cirurgia. os nervos tiveram que ser refeitos, estão voltando aos poucos ao normal da musculatura. Já melhorou bastante. Mas por enquanto é assim que está e vai ficar. E eu não vou ficar sem sorrir —, avalia.

Sempre cercada de muitos amigos, de longa data, famosos ou não durante o processo contra o câncer, Heloísa descobriu uma legião de pessoas que torcem por ela e que ela nem conhecia.

— Sabia que era amada, mas me senti muito amada! Não falo isso com ego, não. Falo com muita felicidade. Porque eu sou uma pessoa que preza por relacionamento. Eu de fato me relaciono com as pessoas. Não sou a pessoa do “oi, tudo bem, como você tá?” e vou embora — justifica.

O tamanho que a gente se dá

Mãe de Luísa de Paula (fruto do casamento com Lug de Paula), também atriz, e Antônia Farias (do marido Mauro Farias), Heloísa teve que ficar longe delas durante o tratamento que fez em São Paulo.

— Elas me visitavam, claro. Mas passamos um período afastadas —, relembra ela, que sempre teve jogo aberto com as meninas sobre tudo: — Minhas filhas são muito especiais. Lógico que teve aquele baque no começo de tudo, mas elas, assim como eu, também são muito práticas, rápidas. Não cabe o sofrimento. A gente tem o tamanho que a gente se dá, as coisas têm a importância que a gente destina a  elas.

Herança de outra Heloísa, a Helena, mãe da atriz, que, aos 90 anos, é uma fortaleza em pessoa.

— Nossa... minha mãe é uma mulher de muita fibra, muita fé. É dela que vem tudo isso. Com ela aprendi crer num Jesus Cristo que deu voz a quem não tinha. Aprendi o meu lugar. Além disso, se cuida muito bem. Aos 90 anos, ela está incrível — elogia.

Com a matriarca, a atriz também aprendeu a não deixar o passado interferir no presente ou condenar o futuro.

— Fui criada muito livre, com pais maravilhosos. Que nunca quiseram me podar. Ninguém se impressiona com nada, sabe? Não tem coitadismo. Apesar de sermos todos muito solidários, não somos uma família de problemas, mas de soluções. Eu tenho muita facilidade de me adaptar às situações. E faço o melhor que eu posso, aqui e agora. Procurar saber meu ponto de equilíbrio. Não olho para trás.