Herdeiros políticos de Arraes, ex-ministro de Temer e delegada bolsonarista acirram disputa no Recife

JOÃO VALADARES
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***ARQUIVO***  BRASILIA, DF,  BRASIL,  13-10-2014: João Campos. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO*** BRASILIA, DF, BRASIL, 13-10-2014: João Campos. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Dois herdeiros políticos do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes (1916-2005), um ex-ministro do governo Michel Temer (MDB) e uma delegada que conta com o apoio declarado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O Recife chega ao fim do primeiro turno com quatro principais candidatos protagonizando uma das corridas eleitorais mais acirradas dos últimos anos.

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Os deputados federais João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) disputam o eleitorado no campo mais alinhado à esquerda. Primos em lados opostos desde 2014, quando Marília resolveu romper com o PSB, foram os mais votados da bancada federal de Pernambuco em 2018.

Na outra ponta do espectro político, o ex-ministro da Educação Mendonça Filho (DEM) trava uma batalha em busca do voto bolsonarista com a delegada da Polícia Civil Patrícia Domingos (Podemos), estreante nas urnas.

Líder nas pesquisas desde o primeiro levantamento do Datafolha em outubro e candidato da situação, Campos se tornou alvo preferencial dos adversários durante a campanha.

Usou a estratégia de não responder diretamente aos ataques e nem mencionar o nome dos adversários.

Na propaganda eleitoral, procurou não vincular diretamente sua imagem ao prefeito do Recife, Geraldo Julio (PSB), e ao governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB).

Os dois aparecem com as gestões mal avaliadas em pesquisas. Geraldo Julio, que governa a capital pernambucana desde 2013, sofreu intenso desgaste por recorrentes operações da Polícia Federal na Prefeitura do Recife. As investigações apontam indícios de desvios de recursos públicos destinados ao combate da pandemia.

Campos conseguiu um amplo arco de alianças. Sua coligação conta com 12 partidos. O deputado adotou na campanha o tom de que é preciso avançar no que já foi feito.

Um dos pontos explorados pelos principais oponentes de Campos é a falta de experiência pública do candidato de 26 anos. Na vida pública, foi chefe de gabinete do governador Paulo Câmara. Exerce há quase dois anos mandato de deputado federal.

Na última semana da disputa, usou com maior intensidade o pai em peças publicitárias como principal cabo eleitoral. Eduardo Campos, que governou Pernambuco duas vezes, morreu no dia 13 de agosto de 2014 durante campanha presidencial.

Em todo o primeiro turno, os candidatos só ficaram frente à frente em debate de TV aberta em uma única oportunidade.

No raro e esperado confronto direto entre os primos, Marília perguntou a Campos se ele confiava na equipe de Geraldo Julio diante das denúncias de corrupção.

Ao responder positivamente, Campos fustigou a adversária. "É de causar estranheza uma candidata do PT falando de corrupção", disse.

O PSB em Pernambuco apoiou Fernando Haddad (PT) no primeiro turno das eleições de 2018. O PT integra o primeiro escalão do governo Câmara e, até outubro, fazia parte da gestão de Geraldo.

Marília, que deixou o PSB após ser bloqueada nas suas pretensões políticas dentro do partido pelo primo Eduardo Campos, mudou a estratégia de campanha com a disputa em andamento.

No PT desde 2016, numa migração para viabilizar seus projetos majoritários, a candidata começou a caminhada no primeiro turno sem usar os principais símbolos do partido.

No início, não utilizou a imagem do ex-presidente Lula. O sobrenome do avô Miguel Arraes também não aparecia no material de campanha.

Bastante criticada por setores petistas, mudou o tom. Passou a usar o vermelho de maneira intensa e resolveu investir em Lula como principal cabo eleitoral. "É Lula. É Arraes. É Marília Arraes", diz o slogan da campanha.

Em uma das peças, a maior estrela petista declara, em vídeo, que "Marília é boa de briga". Nas redes sociais, a candidata chegou a chamar o primo de "frouxo" por, na avaliação dela, evitar o debate com os concorrentes.

Nas primeiras semanas da corrida eleitoral, Marília defendeu algumas pautas que podem encontrar ressonância no eleitorado conservador, a exemplo da proposta de armar a Guarda Municipal.

Também chegou a publicar vídeo dizendo que iria, se eleita, exigir a transferência do presídio Aníbal Bruno, maior complexo prisional de Pernambuco, localizado na zona oeste do Recife, para outro local.

Sem detalhamentos, a petista disse apenas que é preciso que o Governo de Pernambuco faça um planejamento para desativação da cadeia que "está em meio ao comércio e a milhares de residências de famílias".

Depois, durante sabatina Folha/UOL, fez um reconhecimento de que tinha cometido uma falha de comunicação por não ter detalhado com mais profundidade a proposta.

O ex-ministro Mendonça Filho, que governou Pernambuco por nove meses em 2006, subiu na reta final, de acordo com o Datafolha, após centrar ataques na delegada Patrícia Domingos.

Na televisão, veiculou postagens antigas feitas nas redes sociais por sua adversária no campo da direita. Em 2011, por exemplo, a delegada se referiu à capital pernambucana como "Recífilis". Também postou que nunca tinha visto tanta gente feia reunida em um bar recifense. "Estaria eu em um parque de horrores? Kkkkkk", escreveu.

Em outra postagem, alegou que a maioria das pessoas só estava viva porque era ilegal atirar contra elas.

Mendonça também ironizou a oponente por ela não ser do Recife e, segundo ele, não conhecer a cidade. Patrícia é do Rio de Janeiro.

Diante de adversários mais jovens, o ex-ministros fez um esforço de comunicação nas redes sociais para construir a imagem de um candidato menos formal. Em algumas postagens, aparece dançando forró, pulando corda, andando de motocicleta e jogando bola com crianças.

"Tem quem diga que Mendonça trabalha bem, mas falta um pouco de carisma, que poderia ser menos sério. Mas o que é mais importante? Ter um prefeito simpático e cheio de carisma ou um prefeito honesto, experiente?", pergunta na propaganda eleitoral.

Mesmo defendendo que a campanha não deveria ser nacionalizada, o nome da coligação do candidato é Recife Acima de Tudo, numa alusão ao conhecido jargão bolsonarista.

Mas o presidente Jair Bolsonaro resolveu, na última semana, declarar apoio, durante uma live, a Patrícia Domingos. O fato novo na reta final do primeiro turno fez com que o presidente nacional do Cidadania, Roberto Freire, retirasse o apoio do partido à candidata do Podemos.

Conhecida por ser mais alinhada ao ex-ministro da Justiça Sergio Moro, desafeto de Bolsonaro, Patrícia vestiu a camisa do bolsonarismo. Ela esteve em Brasília na última segunda-feira para gravar com o presidente.

"Amigos do Recife, não acreditem em pesquisas. Se dependesse delas, eu não seria presidente", disse Bolsonaro em um vídeo ao lado da delegada postado por ela nas redes sociais.

Durante a campanha, quando apresentou crescimento nas intenções de voto, Patrícia Domingos usou de maneira intensa as pesquisas para dizer que representava a única candidatura com condições de vencer o PSB no segundo turno.