Hesitação vacinal, nem pensar

Após esses longos e incomparáveis 31 meses em nossas vidas, amanhecemos todos os dias em busca de boas notícias, de uma alforria desejada em diferentes culturas e intensidades. O que encontramos, em relação à pandemia, é o aparecimento de novas cepas do Sars-Cov-2, hoje tão mutadas, como se fossem um novo patógeno.

E eis que acompanhando o ritmo implacável da biologia do novo coronavírus, quase a cada duas semanas surge uma nova variante desde o advento da Ômicrom (B.1.1.529), nem todas chamadas de preocupação. Após as subvariantes BA.1 e BA.2, que inclusive revelaram escape substancial de anticorpos neutralizantes, agora aparece a cepa BA.2.75, detectada originalmente na Índia, na região de Himachal Pradesh, mas já encontrada em sete países, e com uma capacidade de transmissão muito superior às BA.2 e BA.5, esta última hoje dominante na África do Sul. Uma vez mais será posta à prova a proteção conferida pelas vacinas utilizadas sobretudo contra o agravamento e mortes pela doença.

A revista New England publicou recentemente artigo de revisão sobre o que seria a hesitação vacinal definindo-a como “um estado de indecisão e de insegurança em relação ao ato de vacinar”, como se fosse um agir ou não agir, eis a questão. Esse comportamento representaria um tempo pessoal de vulnerabilidade e de oportunidade ao mesmo tempo. Quando houve a pandemia de influenza H1N1 em 2009, que foi menos intensa do que se havia anunciado, o aparecimento da vacina gerou uma reação, com poucas pessoas aceitando recebê-la de início, e por outro lado, manifestando temor do contágio, em mais um desses paradoxos do comportamento humano que nos intriga. Após a hesitação inicial muitos dos que não tomavam as vacinas regulares para influenza quiseram receber a específica para H1N1, após dado o alarme epidemiológico, entendendo que “era uma vacina diferente”.

De par com a desigualdade no acesso e distribuição das vacinas para Covid-19 no planeta, a hesitação vacinal seria assim um desafio global a ser vencido para se alcance uma taxa de cobertura capaz de interferir num momento posterior na transmissão viral. Sabemos que haverá uma segunda geração de vacinas, fabricadas com a proteína spike da cepa Ômicrom, mas essas ainda dependem de estudos controlados para serem postas em uso.

Polarização política, como ocorreu entre nós, bem como visões ditas libertárias ou retórica de práticas alternativas em saúde, são os fatores que mais põem em risco a importância, a segurança e a efetividade do processo vacinal. O Brasil, com tantas e crônicas deficiências sanitárias, porém com tradicional e arraigada adesão às vacinas, desde o nascedouro do PNI e das exitosas campanhas de vacinação para a poliomielite, demonstra o impacto dessa atitude no aumento da expectativa de vida ao nascer nas últimas três décadas.

A despeito de todas as dificuldades que foram sendo vencidas, sobretudo quanto à propaganda nociva de descrédito nas vacinas, alcançamos no Brasil uma boa taxa de cobertura, faltando ainda melhorar a adesão às terceira e quartas doses, que sabemos fazem diferença na proteção contra formas graves e hospitalização.

O excesso de substantivos fáticos que assolam o país atualmente, exige aprofundar nosso exercício mental para não cair em tristeza abissal, com violência, misoginia, equívocos na condução de políticas sanitárias e prioridades, e deliberados gestos deseducadores numa situação epidêmica ainda preocupante. Nesse cenário, será necessário recuperarmos as taxas de cobertura vacinal de doenças preveníveis para as crianças, sobretudo, resgatando a confiança das famílias, desde a vacina BCG, aplicada a recém nascidos e que protege contra formas graves de tuberculose, até o sarampo, cujas coberturas sofreram queda inaceitável.

Sabendo da confiança que existe em nossa sociedade nos profissionais da saúde, consideramos fundamental, portanto, manter aquecida a discussão entre nós e as comunidades, sobre a relevância das vacinas com o objetivo de detectar e mitigar a hesitação e o descrédito, num tempo ainda estratégico para o controle da pandemia.

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