Hichtofen, Matsunaga, João de Deus: por que histórias de crimes brasileiros ganham espaço e fazem sucesso na TV

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Obras sobre crimes estão ganhando cada vez mais espaço - Foto: Divulgação
Obras sobre crimes estão ganhando cada vez mais espaço - Foto: Divulgação
  • Histórias de crimes vêm ganhando cada vez mais espaço na televisão brasileira

  • Especialistas opinam sobre o que causa essa atração e quais os prós e os contras dessas produções

  • Mercado já prepara novas séries e filmes sobre casos famosos da história do país

Suzane von Richtofen, Elize Matsunaga, João de Deus. Além de conhecidos criminosos brasileiros, esses nomes têm em comum o fato de serem o tema de obras televisivas lançadas recentemente por serviços de streaming, em um movimento que tem se tornado cada vez mais comum no país.

Não é de hoje que grandes casos criminosos atraem a atenção da população brasileira. Prova disso é o sucesso de programas policiais que já dura décadas. De alguns anos para cá, porém, estas histórias deixaram o horário da tarde na TV aberta e conquistaram um público bem maior por meio de filmes, séries e documentários em serviços como Netflix, Amazon Prime e Globoplay.

Para o psicanalista Christian Dunker, professor titular em Psicanálise e Psicopatologia do Instituto de Psicologia da USP, a atração humana pelo crime é “imemorial” e “uma tendência universal”. “Talvez não exista fato que melhor nos defina, para além da loucura, do que o crime”, afirma em entrevista ao Yahoo!.

“Apenas os humanos produzem leis, portanto, apenas os humanos conseguem transgredi-las. Nesse momento da transgressão é que a gente se afirma mais como capaz de quebrar a lei. Há também as narrativas de justiça. Seja reduzindo ela à vingança, aos personagens que a gente consegue aproximar da nossa experiência. Acho que essa tendência nos cinemas e nas séries é um processo inicial da reflexão brasileira sobre justiça, tanto nos seus piores momentos quanto nas suas maiores aspirações, de produzir um Brasil mais justo, perceber a injustiça se aprofundando ou diminuindo”, diz.

Tais aspirações fizeram as gigantes do audiovisual se movimentarem na busca por saciar esse desejo do público brasileiro por histórias criminais. Desde a série documental “Bandidos na TV”, em 2019, a Netflix especializou-se no tema, lançando na sequência e no mesmo formato: “Elize Matsunaga – Era Uma Vez um Crime” e “João de Deus – Cura e Crime”.

Richtofen virou tema de dois filmes - Foto: Reprodução
Richtofen virou tema de dois filmes - Foto: Reprodução

O mesmo médium já havia sido abordado na série documental da Globoplay “Em Nome de Deus”. O serviço de streaming da gigante emissora brasileira também foi responsável pelas produções de “O Caso Evandro”, trazendo para as telas o podcast de sucesso, e “Doutor Castor”, sobre o folclórico bicheiro carioca.

A Amazon Prime igualmente não ficou para trás e fez barulho esse ano com o lançamento de dois filmes sobre o caso dos assassinatos de Manfred e Marísia von Richtofen pela filha, Suzane, e os irmãos Cravinhos: “A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais”.

O mercado aqueceu de tal forma que já há outras obras sobre grandes crimes brasileiros em produção. O podcast “Praia dos Ossos”, que narra o assassinato de Ângela Diniz por Doca Street, teve os direitos adquiridos pela Conspiração Filmes, enquanto a Galera Distribuidora prepara um longa baseado no caso do “Castelinho da Rua Arpa”.

Outro caso que vai para as telas em breve é o do assassinato da garota Isabella Nardoni, com roteiro de Ilana Casoy, responsável pelos filmes sobre Suzane von Richtofen. Com décadas de experiência e dezenas de obras sobre crime lançadas, ela considera que a atração pelo assunto não é exclusividade brasileira.

“Quando comecei, o ‘true crime’ já era um grande sucesso nos EUA, pauta para séries, filmes. E somos bem americanizados, no sentido de que nossa cultura se parece, nesse aspecto, com a americana. A gente gosta das mesmas coisas, em geral. Mas chega atrasado”, avalia. “Eu acho que o que puxa é o sucesso internacional. Quanto mais sucesso esse tema faz lá, mas o povo aqui procura.”

Ilana foi responsável pelos roteiros dos filmes do caso Von Richtofen - Foto: Divulgação/Assessoria
Ilana foi responsável pelos roteiros dos filmes do caso Von Richtofen - Foto: Divulgação/Assessoria

Antes de se estabelecer como uma escritora criminal de sucesso, Ilana também era uma fã de obras ligadas ao tema. E ela explica o que chamou a atenção para que se aprofundasse no mundo do crime.

“O absurdo! ‘Como assim alguém matou 100 pessoas? Como assim torturou? Como assim nunca ninguém achou?’. Os enigmas são atraentes”, aponta.

Christian Dunker concorda com a atração pelo “suspense”, mas vê uma certa admiração de parte da população por alguns criminosos. “A cultura brasileira tem uma certa afinidade com esse ‘anormal’. Está muito próximo de nós, vive entre nós. Olhando por um certo ângulo, nós mesmos podemos nos reconhecer ali naquela narrativa”, argumenta.

“Temos um problema brasileiro, em que o crime estaria associado a certo heroísmo, ao estado de exceção, àquele que se diferencia enquanto indivíduo e faz valer sua coragem no ato criminoso. No Brasil, temos essa especificidade que é a interpretação de que a corrupção graça por todos os lados, a falta de limites é geral e, portanto, aqueles que são transgressores também estão ensinando a todos nós como nos virarmos em uma cultura na qual a lei está sob custódia.”

Prós x contras

O sucesso de obras criminais fez com que fosse retomada uma discussão sobre possíveis danos que a exploração desse assunto pode trazer. Christian considera que o público brasileiro tem sido “formado há décadas” por programas televisivos que se aproveitam da “estética da violência”.

“É a política da insegurança, em que o medo tem papel fundamental, em que o discurso sobre insegurança vai ter efeitos políticos. Vai se juntando uma série de coisas nesse formato que preparou e formou um público. E agora, uma vez formado, você tem uma facilidade de vender e criar produtos para eles.”

Ilana, por outro lado, considera que livros, filmes e séries criminais, quando bem-feitos, têm poder educativo. Ela aponta que obras como CSI tiveram impacto direto no conhecimento coletivo sobre, por exemplo, como deve funcionar um julgamento.

“A arte é um belíssimo caminho para gerar cultura. Como foi gerada a cultura de prova, que hoje reina lá fora e aqui ainda está caminhando? Só quando entenderam que a prova é importante. A pessoa vai entendendo o que é digital, DNA. Os jurados aprendem a exigir mais evidências sobre os crimes, e não só uma retórica ou uma acusação ou defesa verbal.”

A escritora destaca, ainda, a relevância dessas obras para entender o caminho traçado pelo criminoso. Segundo ela, o objetivo não é “gerar compaixão”, mas mostrar que se trata de um ser humano que merece um julgamento dentro das leis.

“Estamos julgando se é bom ou mal ou se cometeu crime? Nossa sociedade confunde um pouco. Julgamento divino, moral, é pra Deus. Estamos falando de outra coisa: se cometeu crime, se tem atenuante, se tem qualificadora e se eu tenho prova disso”, argumenta. “Todo mundo grita sobre a falta de empatia dos assassinos, mas as próprias pessoas não têm a menor empatia com alguém julgado. Uma pessoa que tropeça na vida e comete um crime pode ser seu vizinho, seu amigo, um filho, seu pai. E aí, como é que faz?”.

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