Cientista russo afirma que vendeu Novichok a criminosos chechenos nos anos 90

Moscou, 23 mar (EFE).- Um cientista russo que participou do desenvolvimento do agente químico Novichok - que teria sido usado para envenenar o ex-espião Sergei Skripal e sua filha segundo o Reino Unido - assegura que vendeu várias doses dessa substância a criminosos chechenos nos anos 1990.

"Sim, entendi que essa gente tinha a intenção de utilizar essa substância contra pessoas", afirmou o cientista, Leonid Rink, segundo materiais sigilosos revelados na última edição do jornal investigativo "Novaya Gazeta".

Essa foi a resposta de Rink durante um interrogatório dentro das investigações pelo assassinato em 1995, em Moscou, do banqueiro Ivan Kivelidi e sua secretária, que foram envenenados com tal substância, segundo revelou recentemente o jornal "Kommersant".

O julgamento do caso se prolongou por vários anos - entre 1999 e 2006 - e um antigo sócio do oligarca acabou sendo condenado pelo fato.

De acordo com os materiais sigilosos sobre esse caso revelados pelo "Novaya Gazeta", o nome de Rink, que trabalhava como chefe de laboratório em uma filial do Instituto Estatal Científico de Pesquisa de Química Orgânica e Tecnologia, na cidade fechada de Shikhan, consta no sumário do caso e, ao longo desses anos, ele ofereceu "interessantes testemunhos" sobre tal substância.

Em um dos interrogatórios, o cientista reconheceu que vendeu mais de 100 doses a organizações criminosas chechenas em Moscou, um mês depois da morte de Kivelidi.

Rink teria recebido US$ 1.800 pela venda da substância, segundo a publicação.

Em entrevista realizada há poucos dias para a agência oficial russa "Ria Novosti", Rink desmentiu as autoridades russas, que negam a existência do Novichok, ao narrar que participou pessoalmente no desenvolvimento desse agente químico.

Não obstante, o cientista descartou que o governo russo seja o responsável pelo envenenamento em 4 de março de Skripal e sua filha, Yulia, na cidade britânica de Salisbury, apesar das acusações do governo do Reino Unido.

Segundo o cientista, o fato de Skripal e sua filha estarem vivos, apesar de se encontrarem em estado crítico, só prova que eles não foram vítimas do Novichok.

"Por enquanto, todos estão vivos. Isso quer dizer que não é o sistema Novichok ou que este foi muito mal preparado e utilizado de maneira incorreta", afirmou Rink. EFE