Hipódromo de SP completa 80 anos endividado e à espera de plano urbanístico

ARTUR RODRIGUES
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 23.01.2021 - Corrida de cavalos no Hipódromo de São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 23.01.2021 - Corrida de cavalos no Hipódromo de São Paulo. (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Vivo entusiasmo despertam as corridas inaugurais do hipódromo da Cidade Jardim", anunciava o jornal Folha da Manhã no início de 1941.

Em janeiro daquele ano, só se falava da corrida de estreia no novo hipódromo em 25 de janeiro, cujo páreo principal foi vencido pelo potro Bagual, depois da polêmica desclassificação de dois concorrentes. Na arquibancada, estava o então interventor do estado, Adhemar de Barros.

A atual sede do Jockey Club de São Paulo, no bairro Cidade Jardim, completa 80 anos sem o brilho daqueles tempos. Hoje, o clube lida com dívidas em centenas de milhões e aguarda um plano urbanístico que pode ajudá-lo a sair da difícil situação financeira.

O local também passa por restauração, mais um passo na busca para recuperar o aspecto imponente que o Jockey já teve um dia.

A história do turfe em São Paulo é antiga em São Paulo. As corridas de cavalos costumavam acontecer nas ruas no século 19. A cidade ganhou o hipódromo da Mooca (zona leste de SP), que teve sua primeira corrida em 1876.

Com a crescente popularidade da prática, o Jockey ganhou um espaço mais moderno, em Cidade Jardim, em 1941. Na atmosfera suntuosa frequentada por quatrocentões paulista, já estiveram figuras políticas como Juscelino Kubitschek e a rainha Elizabeth, do Reino Unido.

Antes de virar o hipódromo, o terreno na Cidade Jardim era descampado de mais de 600 mil m², às margens do rio Pinheiros, em uma área afastada.

Décadas depois, a área virou um dos metros quadrados mais caros da cidade, o que afeta no débito crescente de IPTU do clube -só na dívida ativa há mais de R$ 150 milhões a serem pagos à prefeitura, sem contar outras dezenas de milhões em parcelas em aberto. O clube não reconhece esses valores e briga na Justiça.

Na tentativa de resolver os problemas financeiros, o Jockey já leiloou obras de arte e vendeu imóveis. Além disso, teve o terreno da Chácara do Jockey desapropriado devido à dívida. A pandemia complicou mais a situação do clube, que chegou até a atrasar salários.

Vice-presidente do Jockey, Marcelo Arthur Motta Ramos Marques, 70, afirma que a implantação do plano de intervenção urbana do Jockey pode ajudar a melhorar as contas do clube. Ele faz parte de um grupo que assumiu a administração em 2017 com essa missão, tendo o empresário Benjamin Steinbruch, da CSN, como presidente.

O PIU (Plano de Intervenção Urbana) foi articulado ainda na gestão de João Doria (PSDB), amigo de Steinbruch, como prefeito.

O projeto anunciado por Doria previa um parque de 150 mil m², a retirada do muro do Jockey e a construção de prédios em parte do terreno. Como se trata de uma área altamente valorizada, a expectativa é de que não faltará demanda por parte do mercado imobiliário.

"É um projeto que otimiza a parte mobiliária. Evidentemente que a parte tombada não será modificada, que são as arquibancadas. Tem outras áreas que serão aposentadas para rentabilizar para o clube e a prefeitura também", diz Marques.

Segundo a gestão Bruno Covas (PSDB), o projeto de intervenção do Jockey está na segunda etapa da consulta pública, com plataforma aberta para receber comentários até 26 de fevereiro. Depois disso, terá que ser votado na Câmara Municipal. A ideia da prefeitura é criar novos usos além do turfe, atraindo mais gente para o espaço.

O urbanista Renato Cymbalista, professor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), da USP, alerta que a resolução da questão da dívida é crucial para um eventual sucesso do plano de intervenção urbana do clube. Para ele, é importante que a dívida seja executada, uma vez que a não resolução poderia até servir de exemplo a outras instituições privadas.

É preciso saber se, uma vez executada a dívida, o terreno continuará sendo inteiramente do clube, se parte irá para a prefeitura ou se haveria uma desapropriação, com possível autorização para uso do espaço.

"Tem um problema fiscal e um problema urbanístico. O problema que eu vejo é que esse plano não é capaz de definir o desfecho, que só pode ser definido pelo final das disputas judiciais sobre esta dívida. Não é fácil planejar com esse grau incerteza", diz, ressaltando que se trata de uma área estratégica, que necessita de um plano para ela.

O clube aposta muitas das suas fichas em conseguir vitórias na Justiça para resolver seus débitos com a prefeitura. Na última semana, uma liminar do Tribunal de Justiça suspendeu a cobrança dos cerca de R$ 18 milhões de IPTU em 2021.

O Jockey sustenta que é discriminado em relação a outros clubes, uma vez que a isenção no tributo ocorre para todos, exceto aqueles que vendem pules e apostas. "Quem vende pules? O Jockey. É uma exclusão com endereço certo", diz o advogado Igor Mauler Santiago, que representa o clube na ação.

Outro argumento neste mesmo processo é que, mesmo estando em área urbana, o Jockey deveria pagar ITR, o imposto territorial rural, por desenvolver o turfe. A prefeitura recorrerá da decisão liminar.

As dívidas não se limitam ao IPTU. Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, de agosto de 2020, os débitos do clube somavam por volta de R$ 400 milhões, de acordo com balanço apresentado em 30 de junho de 2019.

Atividade fim do Jockey, o turfe vem tendo queda nos últimos anos, assim como as apostas. No período áureo, o hipódromo tinha corridas quatro vezes por semana, agora ocorre apenas uma vez.

Marcelo Marques, membro da atual gestão e frequentador do Jockey há 50 anos, diz que atividade é muito menos presencial hoje em dia. "Antigamente você tinha que ir presencial, ver a corrida, o espetáculo, comprar pule de papel", diz. Agora, é possível apostar pela internet sem nunca ter visto um cavalo pessoalmente.

A ideia é que, sem abandonar o turfe, o espaço desenvolva cada vez mais uma série de outras atividades rentáveis, como serviços de restaurantes (já existem três) e eventos.

"O Jockey de São Paulo tem uma localização muito feliz. Normalmente, os hipódromos em outros países estão afastados do centros urbanos. Então há muitas possibilidades para promover atividades", disse, citando a realização do Lollapalooza e do Free Jazz Festival no Jockey. A pandemia, porém, atingiu em cheio esse tipo de atividade.

Área interna do passadiço das tribunas sociais, que foi restaurado Eduardo Knapp/Folhapress Área interna do passadiço das tribunas sociais, que foi restaurado **** Durante a pandemia, as corridas continuaram, mas sem espectadores. Quando o público voltar ao Jockey, deve encontrar um espaço restaurado.

A primeira terminou neste mês, o restauro do passadiço das tribunas sociais, parte de um complexo tombado pelos patrimônios históricos estadual e municipal. O custo estimado é de R$ 3,3 milhões, com incentivo da Lei Rouanet.

"É o maior complexo art déco das Américas", diz Wolney Unes, da Elysium Sociedade Cultural, que realiza as obras e define o espaço como uma "joia".

"É um dos representantes do conceito design total. O arquiteto desenhava o prédio, mas também lâmpadas, mobiliários, as louças. Não ia na loja comprar o que tinha, ele desenhava. Então, lá no Jockey tem tudo isso. É um ícone de uma época", diz.

O projeto inicial do Jockey é do arquiteto Elisário Bahiana, responsável por obras como o viaduto do Chá. Porém, o aspecto atual tem hoje mais do estilo do francês Henri Sajous, que iniciou uma remodelação a partir da segunda metade dos anos1940.

Muito do charme daquela época foi corroído pelos efeitos do tempo. O objetivo das obras é restaurar um pouco do Jockey como era no começo da segunda metade do século 20, quando a elite paulista se aglomerava nas arquibancadas com os papéis das pules nas mãos.