Hispânicos temerosos do socialismo ajudaram na vitória de Trump na Flórida

Leila MACOR
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Simpatizantes do presidente Donald Trump fazem comemoração em frente ao Café Versailles im Miami, Flórida, 3 de novembro
Simpatizantes do presidente Donald Trump fazem comemoração em frente ao Café Versailles im Miami, Flórida, 3 de novembro

A retórica antissocialista de Donald Trump fez eco na Flórida. Embora seu adversário, Joe Biden, tenha mobilizado alguns eleitores, os hispânicos de direita, capitaneados pelos cubano-americanos anticastristas, contribuíram para a vitória do presidente neste estado do sudeste americano. 

No bairro cubano de Little Havana, em Miami, dezenas de cubanos ouviam salsa e agitavam bandeiras americanas, já comemorando a vitória do seu presidente neste estado de que Trump precisava para se manter na Casa Branca. 

"Não sei você, mas eu/ eu vou votar em Donald Trump", dizia o verso de uma música em frente ao emblemático Café Versailles. "Liberdade para Cuba!", gritava a mulher para as câmeras. 

Segundo especialistas, a vitória de Trump neste estado foi resultado de vários fatores, entre eles seu carisma entre os moradores brancos das zonas rurais e sua retórica anticomunista, que convenceu os hispânicos, receosos dos governos de esquerda da América Latina. 

"Os democratas perderam o voto hispânico. Não só o dos cubanos. Também dos venezuelanos, argentinos, bolivianos, colombianos... São todos trumpistas aqui", disse Eduardo Gamarra, professor de Ciência Política da Universidade Internacional da Flórida (FIU). 

Segundo o especialista, "não entenderam que a estratégia do presidente Trump é vencer a eleição, não mudar políticas favoráveis para estes grupos".

Os protestos raciais que desde o verão provocaram distúrbios em todo o país tampouco ajudaram a convencer os latinos da Flórida, que não se identificam com os afro-americanos, a votar em Biden.

"O eleitor sul-americano que está aqui na Flórida vem das classes médias e altas dos nossos respectivos países", disse Gamarra, lembrando o racismo dominante nas sociedades latino-americanas.

"Por isso, uma das coisas que mais mal fez foi o tema do 'Black Lives Matter'. Ao contrário, os latinos do restante dos Estados Unidos têm outra percepção de si mesmos, por sua origem social, e estar mais comprometidos com o debate dos direitos civis", explicou.

- Biden demorou -

O cubano Carlos Rizo, por exemplo, aguardava os resultados em sua casa, em Miami, "rezando" junto com a família para que Trump vencesse e que considera, assim como muitos hispânicos na Flórida, que o movimento 'Black Lives Matter' é um instrumento da esquerda para abalar a democracia.

"Esse 'Black Lives Matter', todo mundo sabe o que são e o que provocaram", disse à AFP este motorista de 53 anos. "Eles e os antifa (antifascistas) são pessoas que usaram (os democratas) para criar pânico e terror".

Jorge Duany, diretor do Instituto de Pesquisas Cubanas da FIU, não atribui apenas aos hispânicos - que compõem 20% do eleitorado da Flórida - a vitória de Trump, visto que também é possível vencer este estado sem o voto latino se se conseguir, por exemplo, o rural.

Mas a "estreita relação" que o presidente cultivou com as comunidades cubana e venezuelana de Miami "surtiu efeito", disse.

"Estes dois segmentos não são decisivos na hora de atribuir o total, mas certamente devem ter inclinado a balança a favor de Trump".

Duany também atribui a derrota de Biden à demora de sua campanha em se fazer presente na Flórida e, quando o fez, era tarde para neutralizar os avanços conquistados por Trump. 

Também demorou a reagir à campanha de Trump, que acusava Biden de "comunista" e de pretender confabular com os governos de esquerda de Cuba e Venezuela.

"Aqui na Flórida, essa ideia foi martelada mais de uma vez, e provavelmente teve, sim, seu efeito", disse Duany.

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