História de Carmen Miranda agrada avôs, pais e filhos em novo musical

Leonardo Bruno
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Imagine a cena: o avô de 80 anos leva a neta de 10 para uma sessão de “Carmen, a Grande Pequena Notável”. Os dois assistem ao mesmo espetáculo, mas veem peças completamente diferentes. Ele acompanha a saga da maior estrela brasileira do início do século passado, de quem tem boas recordações. Já a menina enxerga uma super-heroína, com figurino luxuoso e colorido (como as divas dos quadrinhos) e cheia de superpoderes: a personagem empoderada, que não se curva a homem nenhum; a cantora de carisma insuperável, que chega aonde nenhum outro artista brasileiro sonhara; e dona de habilidade incrível com as palavras, que enfeitiça plateias ao redor do mundo. Este é o trunfo do musical em cartaz no CCBB: satisfazer a dois públicos tão distintos – com níveis de conhecimento desiguais sobre a protagonista –, que são atendidos pelas camadas de compreensão do espetáculo.

“Carmen, a Grande Pequena Notável” nasce do livro infanto-juvenil de Heloisa Seixas e Julia Romeu, também responsáveis pela dramaturgia da peça. Vem daí a proposta ousada de apresentar a personagem a um público jovem, sem referências sobre a cantora, morta em 1955. Mas a qualidade do que se vê no palco agrada também às outras gerações – e é verdade que as cadeiras do teatro têm sido mais ocupadas pelos adultos do que pelas crianças.

O texto narra de forma objetiva e bem humorada a trajetória de Carmen Miranda, sem cair na superficialidade. A trama só fica devendo um maior aprofundamento justamente quando pende para o drama: na volta da cantora ao Brasil, em 1940, quando foi recebida com frieza no Cassino da Urca, o que resultou na gravação de “Disseram que eu voltei americanizada”. A direção de Kleber Montanheiro mantém durante todo o tempo o clima alegre e o ritmo intenso, com boas soluções cênicas, como a apresentação da letra de “Rebola a bola”, um verdadeiro “trava-línguas”, para que o público acompanhe a habilidade de Carmen ao cantar em alta velocidade.

Montanheiro também assina cenários e figurinos, sendo mais feliz nas roupas. A cenografia que reproduz o Rio do início do século 20 resulta espremida no palco do CCBB, como se adaptada para a boca de cena de dimensões reduzidas. Já na segunda parte do espetáculo, os paredões brancos não compõem a ambientação esfuziante do sucesso da cantora. Os figurinos, ao contrário, transmitem bem esse espírito, com o uso criativo de materiais de grande efeito estético. A direção musical de Ricardo Severo alcança ótimo resultado com formação orquestral reduzida, com os quatro músicos compondo a cena e passeando por diversos gêneros, do forró ao choro e às marchinhas.

O elenco chega ao Rio afiado (parte veio da temporada paulista): Daniela Cury, Guh Rezende, Fernanda Gabriela, Júlia Sanches e Samuel de Assis demonstram alto nível de atuações e canto, em revezamento de personagens. Amanda Acosta mostra por que é um destaque no cenário de musicais, encarnando Carmen com carisma e delicadeza – e ainda dá conta do tal “trava-línguas” sem tropeços. O rico trabalho de composição vai além dos movimentos de mãos e do leve sotaque português, investindo no marcante olhar da personagem.

Carmen Miranda passou a carreira arrastando multidões. Neste momento, lotar teatros não é possível – o CCBB funciona com capacidade reduzida. Mas o feito da cantora continua sendo admirável: afinal, fazer vovôs, papais e netinhos saírem do teatro igualmente felizes não é tarefa fácil. Só mesmo a super-heroína brasileira para conseguir essa proeza.

Centro Cultural Banco do Brasil (Teatro I): Rua Primeiro de Março 66, Centro — 3808-2020. Qui e sex, às 18h. Sáb e dom, às 16h. R$ 30. 70 minutos. Livre. Até 28 de março.