A história extraordinária de Vivian Maier, cuidadora de crianças nova-iorquina que, depois de morta, ficou famosa pelos registros que fazia da vida de pessoas comuns

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Ela segura sua Rolleiflex na altura do tórax e encara o reflexo. Excêntrica. Taciturna. Reservada. São adjetivos que surgem no documentário “À procura de Vivian Maier”. As famílias que a contrataram em Chicago e Nova York como babá e governanta não sabiam que ela fotografava. Obsessivamente, em qualquer lugar. As crianças percebiam que Vivian carregava sempre a câmera. Mas ela não conversava com ninguém sobre isso. Não mostrava. Por que escondeu a vida toda esse talento, esse olhar perscrutador sobre personagens de rua? Crianças, mulheres, velhos. Marginais, mendigos, bêbados. Elegantes, ricas, belas. Freiras, motoristas, jornaleiros, marinheiros, estivadores, operários, faxineiras, vendedores. Há afeto, ironia, humor em suas imagens em preto e branco, a maioria jamais revelada, muitas ainda nem escaneadas.

Os flagrantes urbanos de Vivian Maier nada ficam a dever aos mestres da fotografia. Por que nunca organizou ou exibiu sua obra, por que só soubemos dela depois que se foi? Morreu aos 83 anos, sozinha, numa casa de repouso, meses depois de escorregar no gelo e bater a cabeça na calçada. A rua foi sua companheira até o fim.

Vivian Maier não planejou a fama. Ao contrário. Jamais imaginou que sua vida seria tão devassada. Ao aposentar-se como babá, estocou seus pertences em guarda-móveis de Chicago. Sem poder pagar, perdeu tudo em leilões. Num deles, por sorte ou destino, um jovem corretor de imóveis e historiador, John Maloof, de 27 anos, arrematou em 2007, por US$ 400, 30 mil negativos e 1.600 rolos de filmes não revelados de uma tal “Vivian Maier”. Maloof buscava imagens para valorizar seu bairro em um livro. Frustrado porque pouco havia ali para a pesquisa, guardou no armário. Pesquisou sobre a autora. E nada encontrou no Google nem em outro lugar. Vivian não existia.

Dois anos depois, em 2009, Maloof leu uma nota de obituário no Chicago Tribune, publicada por três filhos da família Gensburg, para quem ela havia trabalhado. “Vivian Dorothea Maier foi uma segunda mãe para John, Lane e Matthew”. A partir daí, desvendou sua vida secreta. O que no início achou ser “uma tralha” mudou seu futuro. Fez um documentário premiado e venceu a desconfiança de museus e galerias que hoje a expõem com pompa e filas imensas. É uma artista cult. Deixou centenas de autorretratos com ajuda de espelhos e vitrines. Nada a ver com os selfies atuais. Muitas vezes, ela é só uma sombra.

Maloof comprou o resto da obra de Vivian — cerca de 120 mil imagens — e vasculhou os depósitos com seus objetos, prestes a ser jogados no lixo. Era uma acumuladora. Câmeras. Chapéus. Um par de sapatos vermelhos. Cheques do governo americano não descontados. Um gravador. Pastas com recortes de jornais e manchetes de crimes em Chicago. Vivian não permitia a entrada de ninguém em seus depósitos. Ela mentia até sobre o local onde nasceu, por seu sotaque levemente estrangeiro. Sua mãe era francesa, o pai húngaro, imigrantes nos Estados Unidos. Vivian nasceu em Nova York, passou infância na França. Chegou a viajar pelas Américas Central e do Sul, Europa, Oriente Médio e Ásia, entre 1959 e 1960, com uma licença da família Gensburg. Experimentou cor e vídeos, mas nada se compara a seus registros de pessoas em Chicago e NY.

Em Paris, o Museu do Luxembourg, no jardim do mesmo nome, dedica uma exposição a Vivian Maier até dia 16 de janeiro de 2022. A babá independente (e às vezes autoritária e cruel), que carregava as crianças em suas aventuras pelas ruas, sempre com a câmera pendurada, é hoje comparada a Cartier-Bresson e Robert Frank. Todos fotógrafos da condição humana, do instante de um riso, um choro, um beijo, um grito, uma baforada, um afago, um bocejo. A diferença é que Vivian Maier será sempre um enigma.

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