História de guerrilheiros mortos pela esquerda na ditadura é reconstituída em livro

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na primeira vez que um militante da luta armada contra a ditadura militar (1964-1985) foi morto pela organização em que atuava, a sentença foi decidida por quatro dirigentes reunidos num Fusca. Não havia prova de que Márcio Leite Toledo houvesse traído o grupo, mas o assassinaram mesmo assim.

Na última ocasião em que algo parecido aconteceu, um homem que se afastara da guerrilha ao sair da prisão e recomeçara a vida administrando um bar foi morto pelos ex-companheiros por causa de um boato. Salatiel Teixeira Rolim fora responsabilizado pela morte de um dirigente do grupo, o que era falso.

No livro "Injustiçados", que acaba de chegar às livrarias, o jornalista Lucas Ferraz reconta as histórias de Toledo, Rolim e mais dois militantes que tiveram o mesmo destino durante a ditadura, assassinados pelos próprios guerrilheiros enquanto suas organizações clandestinas eram dizimadas pelos militares.

A obra ilumina episódios que por muito tempo foram mantidos à margem da historiografia do período, sendo tratados como tabu pelos sobreviventes dos grupos que pegaram em armas contra o regime autoritário e usados por ex-agentes da repressão para sustentar mistificações e demonizar a esquerda.

Como o livro mostra, os quatro guerrilheiros foram assassinados pelos grupos em que atuavam após serem presos e torturados pelos militares. Eram inocentes das acusações feitas por seus companheiros e nenhum teve chance de se defender nos tribunais informais criados para julgá-los e condená-los.

Ex-repórter do jornal Folha de S.Paulo e hoje colaborador de outros veículos, Ferraz começou a pesquisar o assunto em 2007, garimpou informações em arquivos públicos e entrevistou parentes das vítimas, ex-guerrilheiros e militares. Reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo anteciparam parte dos resultados desse trabalho.

O jornalista, de 37 anos, trata do assunto sem romantismo e organiza os capítulos do livro como atos de uma tragédia. "Ex-guerrilheiros que participaram dos justiçamentos reconheceram seus erros mais tarde, mas outros nunca se arrependeram, e a maioria prefere ficar em silêncio até hoje", diz Ferraz.

Nos quatro casos narrados pelo livro, as organizações assumiram sua responsabilidade pelas mortes na época dos crimes. Elas divulgaram cartas para justificar as sentenças e acusar os companheiros condenados, com alegações que se revelam infundadas diante das evidências reunidas pelo jornalista.

Levantamentos de ex-agentes da repressão chegaram a apontar dezenas de outros casos de militantes mortos assim, mas Ferraz mostra que alguns foram assassinados pelos próprios militares e outros nunca pegaram em armas. Em dois casos, guerrilheiros mataram colegas acidentalmente em ações armadas.

Classificados como justiçamentos pela esquerda, os assassinatos ocorreram numa fase terminal da luta armada, de 1971 a 1973. Com a maioria de seus companheiros mortos ou no exílio, os remanescentes dos grupos clandestinos viviam em permanente tensão e viam traidores em toda parte.

Três dos quatro justiçados pertenciam à Ação Libertadora Nacional (ALN), fundada pelo ex-deputado comunista Carlos Marighella. O grupo foi responsável pelo sequestro do embaixador americano Charles Elbrick em 1969, que levou à libertação de 13 presos políticos e ao endurecimento da repressão militar.

Ferraz nota que, embora os guerrilheiros também tivessem matado policiais e até um empresário que ajudou a financiar a repressão nesse período, Henning Boilensen, nenhum dos delatores que de fato colaboraram com os militares e traíram a confiança das organizações clandestinas foi alvo de justiçamentos.

Um dos poucos ex-guerrilheiros que assumiram seu papel nos assassinatos foi Carlos Eugênio Paz, que escreveu um livro sobre a experiência e deu várias entrevistas após a redemocratização. Ele nunca manifestou arrependimento. "Não torturamos ninguém na covardia", disse certa vez. Paz morreu em 2019.

O processo de reparação das violações de direitos humanos ocorridas na ditadura foi iniciado pelo governo Fernando Henrique Cardoso em 1995. Ele levou o Estado a reconhecer sua responsabilidade por 434 mortes e indenizar dezenas de milhares de pessoas perseguidas, presas e torturadas no período.

Nenhuma das vítimas da guerrilha teve direito a reparação oficial porque a legislação sobre o assunto só prevê reconhecimento e indenização para mortes e perseguições de responsabilidade do Estado. Familiares dos militantes mortos pela esquerda tiveram pedidos de indenização rejeitados.

O ex-deputado petista Nilmário Miranda, que foi secretário de Direitos Humanos no governo Luiz Inácio Lula da Silva, chegou a defender mudanças na lei para alcançar casos como esses, associando-os a um contexto mais amplo da violência política do período. Mas a ideia nunca foi para frente.

Houve também quem buscasse vingança. Claudio Alvarenga, irmão do professor Francisco Alvarenga, morto pela ALN em 1973, contou a Ferraz que pensou em matar uma ex-guerrilheira que três décadas depois admitiu ter participado do planejamento da morte do seu irmão. Ele não executou o plano.

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MILITANTES MORTOS PELA GUERRILHA NA DITADURA MILITAR

Márcio Leite de Toledo

Morto pela ALN com oito tiros em São Paulo, em 1971. Treinado em Cuba, morreu poucos meses após voltar ao Brasil. Foi acusado de displicência ao participar de uma ação armada, após um sumiço de 40 dias, e fazia críticas aos dirigentes da organização. Tinha 26 anos.

Carlos Alberto Maciel Cardoso

Veterano da Revolta dos Marinheiros, de 1964, foi morto pela ALN com 21 tiros no Rio, em 1971. Tinha saído da prisão, após prometer colaborar com a repressão, mas fugira dos agentes que o monitoravam sem entregar ninguém. Foi considerado traidor mesmo assim. Tinha 25 anos.

Francisco Jacques de Alvarenga

Morto pela ALN com quatro tiros no Rio, em 1973. Responsabilizado por ter delatado um companheiro de guerrilha sob tortura quando estava na prisão, foi libertado após declarar-se arrependido da participação na luta armada. A ALN o assassinou um mês depois. Tinha 27 anos.

Salatiel Teixeira Rolim

Fundador do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), foi morto a tiros por militantes da organização no Rio, em 1973. Acusado falsamente pela morte de um dirigente do PCBR, estava em liberdade havia 15 meses, afastado da luta armada e reconstruindo a vida como gerente de um bar quando foi morto. Tinha 46 anos.

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INJUSTIÇADOS: EXECUÇÕES DE MILITANTES NOS TRIBUNAIS REVOLUCIONÁRIOS DURANTE A DITADURA

Preço R$ 69,90 (240 págs.)

Autor Lucas Ferraz

Editora Companhia das Letras

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