A história de quem passou a noite de Natal no hospital em 2020 e, este ano, ganhou de presente a saúde e a celebração da data com a família

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Nilson, Mary, Maria da Glória, Maria José e Leonardo. Com quadro grave de Covid-19, os cinco passaram o Natal de 2020 no hospital. O cenário de leitos e respiradores foi o mesmo dos primeiros minutos de 25 de dezembro para Thales, Priscila, Cláudio, Naila e Rosângela, só que eles estavam de plantão para salvar a vida de quem contraiu o coronavírus, quando a doença superlotava emergências e CTIs. Mas, hoje, o Natal de todos os dez, sejam os pacientes que sobreviveram à internação ou os profissionais de saúde, em nada lembra aquele de tensão máxima que ficou na memória. O dia está sendo para celebrar a vida ao lado de suas famílias, os melhores presentes que poderiam ganhar — junto, claro, com uma boa saúde.

Chegar até aqui, no entanto, não foi fácil para alguns deles. A batalha pela sobrevivência foi árdua, por exemplo, para o economista aposentado Nilson Neves, que completou 73 anos em agosto. Foram 202 dias no Copa D’Or, precisando ser entubado duas vezes. Internado no início de dezembro de 2020, ele passou as bodas de 50 anos de casado no hospital, e recebeu alta apenas em junho. Ainda com sequelas, Nilson faz fisioterapia respiratória e motora.

— Só tenho lembrança do que aconteceu de maio para cá, quando acordei, pouco antes do meu aniversário de 50 anos de casado. Muitas coisas aconteceram. Mas eu tinha que passar por elas e voltar para deixar marcado esse período — diz ele, emocionado e agradecendo à equipe do médico Rafael Pottes, que o atendeu no hospital, e aos fisioterapeutas, que o ajudam hoje. — É uma vitoria, uma perseverança. Graças a Deus e aos profissionais de saúde, consegui vencer a Covid.

É com a voz embargada, pelo sentimento, e ofegante, em decorrência de problemas respiratórios, que Nilson fala do Natal de 2021 ao lado da mulher, dos dois filhos, das noras e de seus dois netos, de 10 e 14 anos:

— Este ano, eles não sentiram a minha falta. O melhor presente é poder estar com minha família.

Mas o filho Fabiano garante que, mesmo separado fisicamente, o pai não esteve ausente no ano passado:

— Vocês pensam que não, mas passamos juntos o Natal de 2020. Embora estivéssemos só nós presencialmente, ele estava com a gente. Senão, não estaria aqui hoje.

Mulher de Nilson, Vera Camargo da Silva Neves enfeitou a casa do casal e preparou a rabanada para levar para o apartamento do filho Luciano, no Leblon, onde houve a ceia:

— Agora, é só alegria. Digo que a gente está em estado de graça.

Internada no Badim, no Macaranã, a dona de casa Mary Augusta Carvalho Germano, de 66 anos, ganhou uma nova chance de viver, segundo os médicos Antonino Eduardo Neto e Marcelo Dibo, que a atenderam, tamanha a gravidade do quadro. Ela ficou 40 dias no hospital. Embora não seja atleta, nadou no passado, o que, na avaliação dos médicos, está ajudando em sua recuperação. Graças à natação, que retomou este mês, Mary melhorou o equilíbrio e já consegue entrar e sair sozinha da piscina.

— Minha mulher chegou ao hospital com mais de 90% dos pulmões comprometidos, e ficou entubada por sete, oito dias. No Natal, tinha saído do CTI e estava no quarto. Os médicos abriram a possibilidade de eu passar a noite com ela. Sabíamos que era Natal, mas estávamos longe de nossa filha. E foi um Natal tenso, triste. Eu não poderia falar para ela que a mãe do namorado de nossa filha tinha morrido de Covid, nem que um irmão dela estava em estado grave em Belém (Armando, de 71 anos, faleceu dia 1º de janeiro) — recorda o marido, o engenheiro aposentado Sérgio Bragantine.

Este ano, ele, Mary e a filha Carolina, de 29 anos, decidiram participar da ceia na casa de uma irmã de Sérgio, na Barra. Mary quis festejar o Natal. Contudo, a mãe do futuro genro e os dois irmãos que perdeu para a Covid-19 — sua irmã Nena, de 67 anos, morreu dois meses após Mary deixar o hospital — estavam em seu pensamento.

— A gente fica balançada com as perdas. Fora o que a gente passa. Às vezes, vou dar uma virada, e perco o equilíbrio. Mas estou bem, graças a Deus — diz ela, soluçando, que quer de presente saúde, o fim da pandemia e a conscientização das pessoas: — Queria que todo mundo levasse a sério essa doença. O mais importante é a saúde. Não adianta dinheiro, não adianta prazeres. Se você não tiver saúde, não tem graça nenhuma. As coisas ainda estão muito difíceis. Peço saúde para mim, para a família e para todos que estão sofrendo com isso. Espero que melhorem as coisas. Para todos.

Já duas Marias, uma da Glória e outra José de Sá estavam internadas na mesma enfermaria do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, na noite de 24 de dezembro de 2020. As duas passaram a meia-noite orando pelos enfermos, familiares e profissionais de saúde do hospital. Antes, conseguiram fazer chamadas de vídeo com as suas famílias. As outras pacientes da enfermaria estavam em situação pior, sem conseguir se levantar.

— Só sei que a colega que passou o Natal comigo se chamava Maria — diz a viúva Maria da Glória Almeida de Faria, uma auxiliar de enfermagem aposentada. de 74 anos, moradora de Irajá, que tinha sido removida do Hospital Estadual Carlos Chagas. — Entrei no Gazolla com tosse seca e pulmão com 50%. Fiquei três dias no oxigênio. Depois, foram mais seis dias tomando medicação. Tive alta na tarde do dia 25 de abril. Infelizmente vieram as sequelas. Tive arritmia séria, e fiquei hipertensa, com depressão e ansiedade.

Para este ano, Maria da Glória se programou para um Natal como antes da internação. A ceia foi com a pequena família que tem no Rio e mora com ela: o filho, de 54 anos, e o neto, de 22.

— A gente sempre foi de ficar em casa. Nunca foi de festa e badalação. Este ano, o que fiz de diferente foi agradecer muito a Deus e pedir saúde — conta.

As duas Marias nunca mais se viram desde a internação. A auxiliar administrativa Maria José de Sá Vieira passou o aniversário de 59 anos, o Natal de 2020 e o Ano Novo no Ronaldo Gazolla. Foram 22 dias no hospital.

— Eu apaguei, fiquei alguns dias apagada, quase fui embora, mas voltei para contar a história. No dia de Natal estava lúcida, orientada, acordada, sabendo quem eu era. Infelizmente, vi senhorinhas que entravam na enfermaria. Na mesma hora, era um desespero. Levavam para o CTI, e não voltavam mais. Outras entravam ofegantes, sem respirar, e, no dia seguinte quando eu acordava, a cama estava vaga — conta ela.

Maria José passou o Natal em casa ao lado da mãe Adelina, de 86 anos, além do irmão e da cunhada, que moram no mesmo quintal, na Praça Seca:

— Não vou para aglomeração. Só saio para trabalhar; para aglomerar, não. Este ano, com certeza, não foi gual ao que passou. Deixa para eu morrer bem velhinha. E o que mais desejo é saúde e paz, e que as pessoas tenham bom senso.

Diferentemente de Mary, Nilson e das duas Marias, que não descuidaram da prevenção, o barbeiro Leonardo Ribeiro Prado, de 44 anos, morador do Gradim, em São Gonçalo, faz mea-culpa por não ter sido rigoroso com as medidas de proteção. Ele ficou 22 dias internado no CTI do Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói.

— Não cheguei a ser entubado. Fiquei dez dias em coma induzido, muito mal. Depois, vi muita gente morrer. No Natal do ano passado, era o único que não estava entubado. Foi muito doloroso. Nunca passei longe da minha família. O legal foi que um médico fez uma chamada de vídeo. Consegui falar com a minha esposa Marli e a minha filha Ana Luzia. Quando ouvi fogos, pensei: “deve ser meia-noite”. Os enfermeiros vieram com uma rabanada, e disseram: “feliz Natal”. E eu só chorava.

No dia 26 de dezembro, um dia após o aniversário de 19 anos da filha, ele teve alta. As recordações, porém, o acompanham:

— Lembro de um senhor chamado Adalberto, um negro forte. Dei entrada muito ruim, e ele falante. Na noite de Natal, ele conseguiu vaga no CTI. Foi logo entubando, e morreu no dia 25.

Este ano, seu Natal foi de agradecimento não só por ter sobrevivido:

— Agradeço por fazer parte do grupo de 20% daqueles que venceram a Covid sem nenhuma sequela.

Enfermeiro desde 2005, Cláudio Veríssimo da Silva Nunes Júnior, de 34 anos e morador de Triagem, que trabalha no Ronaldo Gazolla, está acostumado a plantões. Contudo, o do ano passado, fugiu a rotina:

— Era uma doença nova. Hoje, estamos adaptados, mas naquela época estávamos assustados até para trabalhar. Tivemos que ter força. É nossa profissão. Mas, graças a Deus, o plantão foi sem nenhum óbito no meu CTI, onde eu era responsável por dez pacientes. Para não fugir do foco do Natal, cada um levou alguma coisa ou deu dinheiro para um prato de bacalhau, e jantamos no refeitório do CTI. Entrei 7h da manhã do dia 24 e saí 7h de 25 de dezembro. Era meu aniversário, e o máximo que consegui foi almoçar com a família.

De férias, este ano Cláudio resolveu passar o Natal em Arraial do Cabo, com sua companheira e os filhos, de 10 anos e 1 ano e cinco meses. Ele retorna para o plantão do réveillon:

— Estar com a família reunida e com saúde é o presente neste Natal que quero para sempre. A gente leva o resto. Passei quase dois anos num CTI vendo pacientes que sequer podiam tomar um copo d’água, porque podiam broncoaspirar e morrer.

Moradora do Recreio, a médica intensivista Naila Monnerat Modenesi, de 37 anos, foi mais uma profissional que passou a meia-noite do dia 24 de dezembro de 2020 no Gazolla. Foi uma noite e uma madrugada agitadas, em que CTI onde estava recebeu quatro novos pacientes após 19h. Os seus filhos, hoje com 6 anos, e 2 anos 9 meses, tinham ficado com o pai.

Este ano, Naila decidiu botar o pé na estrada, com o marido e as crianças. Resolveu iri para Bom Jesus, no interior, passar o Natal com os pais, o irmão e a cunhada:

— O que desejo é que não tenhamos uma nova onda de Covid, porque a gente definitivamente está exausto. Passamos os últimos dois anos mais complicados de nossas vidas.

Também intensivista e especialista em clínica médica, Thales Teixeira, de 34 anos, estava no CTI do Copa Star na noite de 24 de dezembro de 2020:

— Naquele momento vimos um novo aumento de casos e de pacientes internados. Foi uma época de bastante movimentação, com os hospitais bastante cheios. Tínhamos muitos pacientes novos, de uma faixa etária que se aproximava dos 40 anos, diferentemente da primeira fase da Covid. Eram jovens que estavam internados bastante graves.

Quando deu meia-noite, lembra ele, em revezamento, os profissionais deram uma trégua de alguns minutos para telefonar para a família, fazer uma reflexão sobre o momento em que passavam, desejar dias melhores aos colegas e comer a ceia oferecida pelo hospital.

Thales, que este ano perdeu um avô com Covid, diz que se concedeu o direito de não trabalhar neste Natal. Sua ceia foi na casa da avó paterna, Eny, em Marechal Hermes, ao lado dos pais e do irmão.

— Com todas as medidas de segurança, até porque estamos com um surto de influenza, passamos o Natal em família. Este ano eu me prometi estar com minha família. A gente nunca sabe o que vem por aí, quanto tempo resta a todos nós. Então, o importante é tentar estar mais próximo da família e dos amigos — observa Thales. — Este ano, se estivesse de plantão em algum hospital, tentaria conseguir um substituto. Às vezes uma folga é importante. E meu presente foi estar com a minha família.

A enfermeira Priscila da Silva Rodrigues Correa, de 27 anos, do Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca, é outra que quis festejar como nunca o Natal de 2021. Estava de plantão nas noites de 24 e 31 de janeiro de 2020. Sem falar que, como era da linha de frente da Covid, ficou muito tempo isolada da família: seu pai se mudou para casa da irmã de Priscila; e a enfermeira ficou meses afastada da filha Katharina, de 8 anos, e do marido André Luis, mesmo morando no mesmo apartamento.

— Ficamos em quartos seperados um bom tempo, uns cinco ou seis meses. Ficava com muito medo, tinha crise de ansiedade com aquela situação diferente. Este ano, está tudo mais tranquilo. Hoje sou enfermeira de rotina, trabalho de segunda à sexta no CTI. Ano passado, nem pisca-pisca tinha em casa. Este ano eu consegui, graças a Deus, colocar a minha árvore de Natal — afirma ela, que planejou passar a noite de Natal na casa dos pais.

Colega de profissão de Priscila, a enfermeira Rosângela Vitoriano da Silva Rodrigues, de 48 anos, no Natal passado, saiu do Pró-Cardíaco às 7h da manhã, descansou um pouco, fez a torta de bacalhau e o arroz com passas para a ceia dos filhos, e rumou para o plantão do Gazolla:

— Antes de eu sair, a gente fez uma oração. Quando falo disso fico muito emocionada. Foi mais um Natal sem os meus filhos (de 27 e 16 anos), mas com eles no meu coração. Mas eles ficaram bem, super felizes. Disse que iria cuidar de quem está doente, sem a família. Enfermeiro fica 24 horas na beira do leito. Damos aquele aperto de mão, aquele abraço, aquele carinho para os pacientes. Comemorei meu Natal de 2020 com eles.

Rosângela tinha ficado quase dois anos e meio estudando e fazendo trabalho missionário em Málaga (Espanha), e Liverpool (Inglaterra). Voltou pouco antes da pandemia.

— Este ano quero passar com alegria o Natal e o Ano Novo. Já teve muita tristeza no mundo inteiro. Muita gente foi embora. Não tenho como contabilizar, mas muitos morreram no meu CTI. É triste quando a gente sai de um plantão e volta no outro, olha para para um leito e vê que é outra pessoa que está ali. Ou quando a gente briga muito, coloca no respirador, faz de tudo, e, no final, a pessoa faz uma parada, morre e não tem mais jeito. Isso vai mexendo muito com a gente. Teve plantão de eu chegar em casa chorar, chorar, chorar, tomar banho e, só depois, eu conseguir dormir — revela.

A enfermeira, que teve Covid leve, lembra ainda de colegas de profissão que morreram da doença:

— Era um momento em que a gente ficava muito sensibilizado, muito mal. Mas eu pensava: “quem está aqui (no hospital), precisa de cuidados. Em 2020, você saía de casa com a certeza de que iria cuidar de pessoas, mas que também poderia se contaminar. Para mim, é uma vitória ver o resultado que alcançamos este ano.

Entre os pedidos de muita saúde, após 25 de serviço, Rosângela queria conseguir a aposentadoria especial este ano:

— Queria fechar a minha carreira agradecendo a Deus por ter passado por tudo isso, visto tudo isso, ter sido útil. Mas queria outro presente: poder cuidar de galinha, plantar alface, ficar na natureza.

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