História do traficante Nem vai virar série de TV inspirada no livro 'O dono do morro'

·4 minuto de leitura

Obra do repórter investigativo inglês Misha Glenny, "O dono do morro" faz um impressionante retrato da guerra às drogas no Rio ao contar a história real de Antônio Francisco Lopes, o Nem, líder do tráfico na Rocinha. Lançado em 2015, o livro agora vai virar uma série de ficção de três temporadas, com roteiro de Glenny. "Nemesis" mostrará como Nem passou de um entregador de baixa renda ao rei da maior favela do Brasil e criminoso mais procurado do país. Co-produzida pela Boutique Filmes (a mesma de "3%" e "Elize Matsunaga: era Uma vez um crime") e pela BlackBox Multimedia ("58 Segundos" e "Fisher of Souls"), a série ainda não tem diretor nem elenco. Mas tem uma ideia definida: fugir do viés sensacionalista do tráfico, mostrando as suas entranhas e bastidores.

— Qualquer pessoa que tenha pesquisado a guerra contra as drogas em detalhes sabe que ela é profundamente falha e que seus impactos mais terríveis são sentidos com mais intensidade nas comunidades pobres e desfavorecidas, incluindo a morte de dezenas de milhares de inocentes no Brasil todos os anos — diz Glenny, que para escrever o livro dividiu seu tempo entre Brasil e Londres, morando durante vários meses na Rocinha. — Poucas histórias demonstram isso de forma tão vívida e dolorosa quanto a ascensão e queda de Nem.

Além de Nem e outros personagens reais, a série terá o personagem de uma jornalista inglesa fictícia inspirada em Glenny. Ela irá ao Rio antes da Copa do Mundo de 2014 para entrevistar o famoso traficante.

— Ela chega ao Brasil com algumas ideias pré-concebidas do país e, aos poucos, vai percebendo que a violência no país é mais complexa do que ela imaginava - diz Gustavo Mello, sócio e produtor—executivo da Boutique. — Ela começa a fazer o que o Misha fez, morar na Rocinha e ter contato com a polícia e todos os agentes sociais do Rio. E começa a entender que há interesses políticos e econômicos que vai muito além do combate às drogas.

Nem é daqueles personagens com ascensão épica no mundo do crime. Seu percurso também é moralmente ambíguo, no estilo de muitos dos personagens de séries de sucesso, como Tony Soprano ("Família Soprano") e Walter White ("Breaking Bad"). Há inclusive um pouco de White em Nem, como lembra o produtor Gustavo , da Boutique. Enquanto o anti-herói de "Breaking Bad" é um brilhante professor de química frustrado que começa a cozinhar metanfetamina ao ser diagnosticado com câncer, Nem entra no crime para o tráfico para pagar as contas médicas de sua filha gravemente doente. Adorado pelos moradores da favela, e capaz de inúmeras ações em prol da sua comunidade, nem por isso deixava de ser impiedoso com os inimigos.

— Nem não é um personagem perfeito, mas tudo o que ele fez, incluindo entrar para a gangue da Rocinha, foi bem intencionado — diz Misha, que conduziu 200 horas de entrevistas na apuração do livro, boa parte delas com Nem em um presídio de segurança máxima. — Uma vez em uma posição de poder, ele se deparou com vários dilemas — às vezes ele tomava a decisão certa, às vezes a decisão errada ... E isso incluía questões de vida ou morte. Mas as estatísticas são claras: sob seu governo, a Rocinha se tornou um lugar mais tranquilo e as taxas de homicídio e criminalidade na Rocinha, São Conrado, Gávea e Leblon diminuíram significativamente.

Ex-repórter do britânico Guardian, Glenny especializou-se na interseção entre o crime organizado e a política. O seu livro "McMafia", que documenta as relações sombrias entre organizações mafiosas e o mundo corporativo, virou série de sucesso na TV. Glenny fez parte da equipe de roteirista e produtores executivos e ganhou um Emmy Internacional pela série.

A esperança de que o sucesso internacional se repita com "Nemesis", até porque o Brasil ainda é o país latino-americano que mais atrai atenção lá fora, acredita o jornalista. E isso por causa do desmatamento da Amazônia, que cresceu 51% nos últimos 11 meses. Ele conta que está curioso para assistir a série documental que a BBC está preparando sobre a família Bolsonaro (Glenny não está envolvido na produção).

— Existe um sentimento de que o destino do planeta depende do Brasi l— diz Glenny. — Mas demorei cinco anos estudando o Brasil para atingir o nível iniciante de compreensão deste incrivelmente complexo, excitante e frustrante país.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos