'História vai mostrar quem estava certo e quem estava errado', diz Mandetta sobre Bolsonaro

SÃO PAULO — O ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta criticou a forma com que o presidente Jair Bolsonaro tem agido durante a pandemia do novo coronavírus. Mandetta disse acreditar que a história vai dizer "quem estava certo e quem estava errado".A declaração do ex-ministro, que foi demitido em plena crise, foi feita durante uma entrevista à CNN americana, nesta quarta-feira. Segundo ele, Bolsonaro é um dos poucos líderes no mundo que continua rechaçando a gravidade do surto ao dizer que a economia precisa voltar a funcionar.— Infelizmente, ele (Bolsonaro) é um dos poucos líderes que continua mantendo esse discurso de que a economia deve voltar a funcionar de qualquer forma, que a perda dos empregos será pior do que a epidemia, que ficar em casa traz mais problemas do que a doença em si. Essa é a mensagem que ele quer levar às pessoas. Trump pelo menos voltou atrás em sua posição de dizer que era simplesmente uma gripe — declarou Mandetta.Ele disse que "opiniões completamente diferentes" em relação ao modo de combater o coronavírus foi uma das razões para a sua demissão e que não conseguia lidar com Bolsonaro rechaçando a gravidade da doença.— Houve razões que levaram a esse ponto (demissão). Nós temos opiniões completamente diferentes sobre essa mesma situação e eu não conseguia lidar com ele dizendo para as pessoas voltarem ao trabalho, saírem por aí e não manterem o distanciamento social. Dizendo que era só uma "gripezinha". Eu era ministro da Saúde e eu segui os especialistas, os governadores, os prefeitos, as pessoas das universidades e ao redor do mundo, dizendo para as pessoas ficarem em casa, cuidarem dos idosos. Nós estávamos claramente em lados opostos. Ele fez o que ele quis fazer, mas a história vai dizer quem estava certo e quem estava errado — disse.Mandetta também respondeu sobre o resultado do exame de Bolsonaro para a Covid-19, antes de terem se tornado públicos, na tarde desta quarta-feira. Ele afirmou não saber se o presidente havia sido diagnosticado ou não com a doença, mas lembrou que "17 pessoas testaram positivo em cerca de 15 dias" após a volta da viagem aos Estados Unidos, a que se referiu como "corona trip" (viagem do corona).Questionado o quão preocupado está, numa escala entre zero e dez, sobre a capacidade do Brasil em conter a disseminação da doença, Mandetta respondeu "dez". Para ele, o país se encontra apenas no começo da pior parte da crise.— Os números falam por eles mesmos. Estamos subindo cada vez mais no número de mortos. Nesta semana ou na próxima, nós provavelmente vamos chegar a mil mortes diárias. Eu acho que o Brasil pode se tornar o país com um dos maiores números de casos no mundo — afirmou.Nesta quarta-feira, o país registrou 749 novas mortes nas últimas 24 horas, totalizando 13.129 óbitos, e 11.385 novos infectados. No total, são 188.974 casos confirmados, que coloca o Brasil numa das primeiras posições em todo o mundo.