Histórias de mulheres que aproveitam o confinamento para realizar projetos pessoais

Natália Boere
1 / 4

WhatsApp Image 2020-05-14 at 20.03.15.jpeg

Lunar. A atriz e produtora Mel Rocha está aproveitando a quarentena para fazer um curso de astrologia e se capacitar para um programa

RIO - Uma quarentena proveitosa. Quatro mulheres moradoras da Zona Sul vêm conseguindo pôr em prática projetos pessoais antigos, que estavam guardados por falta de tempo. Não que elas desejassem o isolamento social, muito menos o medo e o sofrimento de tanta gente diante de uma pandemia. E não que o tempo esteja exatamente sobrando (trabalhar em home office, cuidar da casa e, em alguns casos, também de filhos é tarefa para maratonistas). Mas as horas que passaram a economizar por não precisarem se deslocar até o trabalho se converteram em moeda preciosa. E em desejos concretizados.

A advogada Ludmyla Almeida, que mora em Ipanema e trabalha com produção teatral, conta que é fã de cerveja desde antes de poder beber. Apaixonada pelas amargas, conhecidas como IPAs (do tipo indian pale ale), resolveu criar, em 2017, um perfil dedicado à bebida no Instagram, o @ipacondriaca, que tem quase 13 mil seguidores. No ano seguinte, fez um curso no Instituto da Cerveja Brasil (ICB) e se tornou beer sommelière. Mas faltava realizar um sonho de adolescente vidrada em programas de rádio de conversa fiada: um podcast. Chamou um amigo que entendia de edição de som, o designer Leandro Bulkool, para ser seu parceiro. E, em 40 dias, nasceu o “Surra de lúpulo”, no ar desde 30 de abril no Spotify.

— Eu e minha mulher entramos em quarentena no dia 16 de março, e pensei que, com todo mundo em casa, era a hora de levar esse assunto para a mesa. Sou supertímida, mas resolvi dar minha cara a tapa falando sobre um tema de que gosto — conta Ludmyla, de 39 anos.

Em cada episódio, lançado sempre às quintas, Ludmyla e Bulkool entrevistam um profissional que atua no mercado da cerveja ou falam sobre estilos, marcas, eventos, harmonizações e viagens cervejeiras, com atenção para a representatividade feminina no mercado.

— Ficou claro, na quarentena, que eu não tenho tempo a perder, por isso quis botar o projeto logo de pé. Ele está me dando ânimo e me ajudando a desconectar dessa história toda, que é muito assustadora. Para um vírus que representa mais dúvidas do que respostas, o podcast tem sido uma boa válvula de escape — afirma ela.

A atriz e produtora Mel Rocha, que mora no Jardim Botânico com o marido e a filha Clara, de 11 meses, tem se apegado às aulas de astrologia para ocupar a cabeça e não pensar em coronavírus. O curso on-line, uma vontade antiga que conseguiu realizar na quarentena, capacita-a para uma ideia que teve em 2014 e ainda estava engavetada, o programa “Cozinhando com os astros”. Na atração, que pretende lançar no YouTube no pós-pandemia, Mel vai engatar uma conversa astrológica com artistas de vários signos enquanto prepara quitutes diversos.

— A astrologia entrou na minha vida ainda na infância. Minha mãe comprava revistas de horóscopo, e eu sempre lia. Desde que um mapa astral ajudou a dar uma guinada na minha vida, aos 30 anos, ela vem me orientando. E cozinhar sempre foi outra paixão minha — explica a pisciana de 41 anos.

Goiana radicada no Rio há mais de 20 anos, Mel se viu com tempo para se dedicar ao programa quando teve que adiar, a princípio para setembro, um projeto agendado para abril: ela trará ao Rio, para dar uma oficina, a americana Ivana Chubbuck, preparadora de atores como Brad Pitt e Halle Berry. Mas a produtora conta que sua grande realização mesmo será tirar do papel o “Cozinhando com os atros”.

— Quando veio a quarentena, e a oficina foi adiada, pude fazer algo que me desse ferramentas para pôr em prática esse meu desejo. É muito difícil ver tudo o que está acontecendo no país, mas tento focar no positivo e vibrar na onda boa — afirma.

Mesmo no isolamento, publicitária e jornalista trilham novos caminhos

Viver do próprio negócio sempre foi o sonho da publicitária Natalia Jelecky, moradora do Leme. Ela começou a empreitada timidamente, no fim de 2017. Trabalhava numa pousada em Botafogo, cuja dona comprava um litro de batida de coco por R$ 35 e revendia o copo de 300ml a R$ 20. Achou caro e, num dia em que a bebida tinha acabado, decidiu testar uma receita que encontrou na internet: gastou R$ 15 num litro. E viu que a batida podia dar caldo.

Assim surgiu a Batida da Frida, que ganhou os sabores doce de leite, amendoim, morango e maracujá e foi tomando corpo, devagar e sempre. Em 2018, ela vendeu uma garrafa de um litro por mês. Em 2019, duas. Este ano, vendeu quatro em janeiro e quatro em fevereiro. Foi só em março, com o início da quarentena, que as vendas realmente engrenaram.

— As pessoas têm bebido mais; estão bebendo em casa, postando no Instagram e marcando nosso perfil (@batidadafrida), o que tem ajudado bastante na divulgação — conta Natalia, que é responsável pelo marketing digital de um camarote de carnaval.

Quem sabe em breve ela não poderá se dedicar exclusivamente à Batida da Frida? Em abril, vendeu 135 garrafas de um litro (R$ 35, cada) e 43 de 250ml (R$ 13, cada). Em maio, até agora, foram vendidas 96 de um litro e 15 de 250ml: 10% das vendas deste mês serão destinados à compra de cestas básicas para famílias carentes.

— Eu me sinto bem por ajudar quem precisa neste momento tão delicado — diz Natalia, que tem como sócia a melhor amiga, Manuela Juvino.

O momento delicado também tem sido proveitoso para a jornalista Isabel Brandão, que mora em Botafogo e trabalha na Barra como assistente de produção executiva em uma produtora. Com as duas horas de deslocamento diárias que economizou graças ao home office, está conseguindo escrever o argumento de um filme e pôr em prática o que aprendeu numa oficina de roteiro que fez ano passado na Escola de Cinema de Cuba no:

— Estou tentando me redescobrir. Claro que, se pudesse optar, não estaria vivendo esta situação. Mas já que não temos escolha, podemos tirar algum proveito, não é?

SIGA O GLOBO-BAIRROS NO TWITTER (OGlobo_Bairros)