As histórias por trás dos números da Covid-19

Rennan Setti e Gabriel Cariello
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Reprodução

Os números da pandemia no Brasil são eloquentes: em 55 dias, o novo coronavírus já matou mais de 10 mil pessoas, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde. Desde a primeira morte, em 17 de março, os brasileiros se acostumaram a ver crescer a contagem de óbitos ao ritmo de boletins diários, em uma progressão geométrica cuja frieza esvazia a dimensão humana e banaliza as consequências da maior catástrofe sanitária em um século.

Quando o país ultrapassa a marca trágica das 10 mil mortes, O GLOBO presta uma homenagem às trajetórias por trás dos números, em parceria com o projeto colaborativo Inumeráveis. Por meio de um memorial virtual dedicado às vítimas, o site “repersonifica” as estatísticas a partir de breves relatos de amigos e familiares. Uma rede de jornalistas voluntários ajuda a recuperar a singularidade dessas histórias.

— Quando deixamos de ver apenas os números e descobrimos as histórias, o que sentimos é diferente. O memorial mostrou que havia uma necessidade represada de se mobilizar para contá-las — explica a jornalista Alana Rizzo, uma das coordenadoras do Inumeráveis, idealizado pelo artista Edson Pavoni e pelo empreendedor social Rogerio Oliveira.

Mesmo quando reduzido a algarismos, o coronavírus não é um número qualquer, porém. Sua letalidade é superlativa até se comparada à de tragédias que assombram o imaginário coletivo brasileiro. Em menos de dois meses, a Covid-19 já se tornou o evento mais letal desde a gripe espanhola, em 1918.

A doença já mata todo dia no Brasil mais que o dobro das vítimas de um dos maiores desastres da História do país, o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), que deixou 270 mortos no ano passado. Seriam necessários 37 acidentes iguais àquele, um a cada 35 horas, para se atingir o mesmo número de mortes da Covid-19 nesses 55 dias.

A queda do voo 447 da Air France, entre Rio e Paris, fez 228 vítimas em 2009. Sob a ótica do coronavírus, seria como se 43 aviões como aquele tivessem caído, ou quase seis por semana no período.

A frequente analogia com batalhas marcantes também faz sentido. Entre dezembro de 1864 e março de 1870, a Guerra do Paraguai, a mais sangrenta da História do país, provocou 50 mil baixas do lado brasileiro, segundo o livro “Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai”, de Francisco Doratioto. Assim, o conflito levou mais de um ano para atingir o total de vítimas em menos de dois meses de coronavírus.

Os números da gripe espanhola são imprecisos, mas estima-se que a doença tenha matado cerca de 12 mil pessoas só na cidade do Rio entre outubro e novembro de 1918, de acordo com a edição da “Revista Saúde” publicada no ano seguinte. Até agora, a pandemia foi menos mortal no Rio. Mas, dado o crescimento constante no volume diário de mortes e a subnotificação, é factível que sua letalidade se torne equivalente.

Quando o número de vítimas atinge tal proporção, o drama cai em domínio público, e o luto fica confinado à esfera privada. E tudo no coronavírus bagunça esse momento de dor.

A policial militar Raquel Albernaz de Freitas, de 32 anos, viu a avó pela última vez antes que ela se internasse no Hospital da Posse, em Nova Iguaçu. Visitas não eram permitidas. Deusalina Albernaz de Oliveira, de 74 anos, foi transferida por engano para Volta Redonda e lá morreu, oito dias depois da internação. A família só soube que ela estava em outro município quando foi liberar o corpo. O enterro em Inhaúma transcorreu abreviado pelas regras de isolamento, sem velório, com caixão fechado e pouquíssimas pessoas se despedindo.

— Tudo isso deixa um vazio muito grande. A sensação que dá é que você não sabe quem está ali — conta Raquel, que está grávida de seis meses e também foi diagnosticada com Covid-19. — Para piorar, sinto muita falta de empatia. Com tantas mortes, as pessoas tendem a banalizar a perda, só caem na real quando começam a morrer pessoas próximas. A disputa política em torno da doença só prejudica.

A contradição é que, enquanto as mortes se multiplicam e a dor é banalizada, a sociedade atravessa uma espécie de luto coletivo. O diagnóstico é do escritor americano David Kessler, autor de obras influentes sobre o tema, em entrevista à “Harvard Business Review”. Mesmo quem não perdeu ninguém próximo experimenta os sintomas.

— Foram muitas perdas que tivemos, de rotina, de emprego, de liberdade, de amigos. Isso gera sensações comuns em pessoas que vivem o luto. Eu me sinto hoje um pouco como na época em que perdi minha mãe — observa Mariane Maciel, co-fundadora do projeto Vamos Falar Sobre o Luto. — Há um mal-estar generalizado. A esperança é que isso traga mais empatia com quem perdeu alguém para a doença.

O Vamos Falar Sobre o Luto preparou uma cartilha digital reforçando a importância de rituais de despedida mesmo com o distanciamento social e sugerindo formas de mantê-los durante a pandemia. Memoriais virtuais como o Inumeráveis são um caminho, cita Mariane:

— A pessoa não desaparece enquanto alguém se lembrar dela.