Histórico de Bolsonaro e aliados contradiz iniciativa de face moderada nas eleições

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 23.08.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) participa da abertura do Congresso Aço Brasil 2022, no Hotel Unique, em São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 23.08.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) participa da abertura do Congresso Aço Brasil 2022, no Hotel Unique, em São Paulo. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os últimos dias foram marcados por acenos de Jair Bolsonaro (PL) e de seus aliados ao eleitor moderado -tática que já fracassou antes. Na segunda (12), o presidente se desculpou por ter afirmado que não era coveiro quando questionado sobre as mortes por Covid e disse que passará a faixa em caso de derrota.

Dois dias depois, aliados do atual chefe do Executivo criticaram o ataque que o deputado estadual bolsonarista Douglas Garcia (Republicanos-SP) fez contra a jornalista Vera Magalhães.

Bolsonaro, candidato à reeleição, está atrás de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas de intenção de voto, e a campanha tenta remodelar sua imagem diante de grupos decisivos, como as mulheres.

A postura mais recente, entretanto, contradiz o comportamento que o presidente e seus seguidores adotaram nos últimos quatro anos. Relembre a seguir ataques a instituições, frases misóginas e agressões a jornalistas que o presidente e seus aliados protagonizaram desde 2018.

 Ataques a jornalistas Na quarta, Eduardo Bolsonaro foi ao Twitter fazer uma longa defesa da jornalista Vera Magalhães, alvo constante de seu pai. Ela havia sido atacada, no dia anterior, pelo deputado estadual Douglas Garcia.

Após o fim do debate entre candidatos a governador, na terça (13), o bolsonarista se sentou ao lado de Vera e, gravando com um celular, perguntou se ela recebeu dinheiro para falar mal do governo Bolsonaro.

Ele afirmou ainda que a apresentadora do Roda Viva era "uma vergonha para o jornalismo brasileiro". Tal ofensa já havia sido proferida à mesma jornalista pelo presidente durante debate entre presidenciáveis. Vera perguntava sobre o discurso antivacina de Bolsonaro e a queda nas taxas de imunização no Brasil.

Na ocasião, aliados do presidente não se manifestaram a respeito, assim como em outros ataques.

No início de 2020, o presidente insultou a repórter da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello com insinuações sexuais. A jornalista foi responsável por revelar o esquema de disparos de mensagens em massa contra o PT nas eleições de 2018. O próprio Eduardo Bolsonaro foi condenado, em janeiro do ano passado, a indenizar a repórter em R$ 30 mil por danos morais, após repetir as insinuações do pai.

O deputado também debochou da tortura sofrida pela jornalista Miriam Leitão, de O Globo, durante a ditadura. Em abril, o parlamentar compartilhou a imagem de uma coluna dela e escreveu: "Ainda com pena da cobra". Miriam foi torturada enquanto estava grávida por agentes do governo durante o regime militar (1964-1985). Em uma das sessões de tortura, ela foi deixada nua numa sala escura com uma cobra.

Indignação de Tarcísio O ex-ministro de Bolsonaro Tarcísio de Freitas (Republicanos) também se manifestou após o ataque a Vera. Na quarta-feira, o candidato ao Governo de São Paulo telefonou para a jornalista para se desculpar.

Ele ainda vetou a presença de Douglas Garcia em todos os próximos atos de sua campanha. "Eu mal conheço, nem tenho contato com esse idiota", afirmou o candidato à coluna Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.

Tarcísio, porém, participou da propaganda eleitoral do deputado estadual, que tenta uma vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília. A peça foi compartilhada pelo seu adversário Rodrigo Garcia (PSDB).

Antes desta quarta, Tarcísio nunca havia se posicionado a respeito dos ataques que a família Bolsonaro realizou contra jornalistas. Outras atitudes avessas à liberdade de imprensa tampouco foram criticadas pelo candidato.

Enquanto ele era ministro, por exemplo, Bolsonaro cancelou assinaturas da Folha de S.Paulo em órgãos do governo federal, o que poderia violar princípios constitucionais de impessoalidade, e ameaçou anunciantes do jornal. "Não vamos mais gastar dinheiro com esse tipo de jornal. E quem anuncia na Folha de S.Paulo presta atenção, está certo?", afirmou o presidente, em uma transmissão ao vivo.

Frases golpistas Na terça, Bolsonaro afirmou que, em caso de derrota nas eleições de outubro, passaria a faixa para o próximo presidente. "Se for a vontade de Deus, continuo. Se não for, a gente passa aí a faixa, e vou me recolher, porque, com a minha idade, não tenho mais nada a fazer aqui na Terra se acabar essa minha passagem pela política em 31 de dezembro do corrente ano", afirmou.

Bolsonaro é um defensor da ditadura militar e tem um histórico extenso de ameaças de ruptura institucional. "Temos um presidente que não deseja nem provoca rupturas, mas tudo tem um limite na nossa vida. Não podemos continuar convivendo com isso", afirmou, em agosto de 2021.

Ele ainda põe em dúvida, sem provas, a lisura das urnas, como fez em reunião com embaixadores em julho. Sob esse pretexto, ameaça as instituições caso não haja o que chama de "eleições limpas".

"As eleições no ano que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não teremos eleições", afirmou o presidente, no ano passado, a apoiadores reunidos em frente ao Palácio do Alvorada. No dia seguinte, disse que "a fraude está no TSE [Tribunal Superior Eleitoral], para não ter dúvida".

No 7 de Setembro de 2021, disse que deixaria de cumprir ordens de Alexandre de Moraes, do STF, e que o Judiciário poderia sofrer "aquilo que não queremos" caso o ministro não se enquadrasse.

Negação da pandemia Na segunda-feira, durante entrevista a um pool de podcasts, Bolsonaro disse que se arrepende de declarações ofensivas durante a pandemia de Covid. Segundo o presidente, ele "aloprou" ao ter afirmado que não era "coveiro" quando questionado sobre os brasileiros mortos pelo coronavírus.

"Dei uma aloprada. Aloprei. Perdi a linha. Aí eu me arrependo", afirmou, sobre a fala da compra de vacinas "na casa da tua mãe". "A questão do coveiro, eu retiraria", acrescentou.

Por outro lado, o presidente não demonstrou arrependimento sobre o boicote que promoveu ao combate à pandemia. Ele segue atribuindo a prefeitos e governadores a culpa pela piora da economia, por terem decretado medidas de distanciamento social. Bolsonaro também defendeu o uso de remédios sem comprovação científica para o tratamento da doença, como a cloroquina, e promoveu aglomerações em passeatas e manifestações no momento em que o Brasil batia recordes de mortes por Covid.

Falas machistas De acordo com a última pesquisa Datafolha, Lula lidera entre as mulheres, o que tem levado Bolsonaro a rever frases machistas, como a de que a sua filha teria sido fruto de uma "fraquejada".

Outros episódios, porém, são ignorados. No 7 de Setembro deste ano, Bolsonaro sugeriu comparar as primeiras-damas. Michelle, sua mulher, tem papel central para tentar diminuir a rejeição feminina.

Em 2019, ao comentar uma publicação de Bolsonaro no Facebook, um seguidor afirmou que as críticas do presidente da França, Emmanuel Macron, ao brasileiro seriam "inveja". Acompanhada da mensagem, havia uma foto do chefe do Planalto e de sua esposa abaixo de um retrato de Macron e de sua mulher, Brigitte.

O perfil de Bolsonaro então respondeu: "Não humilha, cara. Kkkkkkk", dando a entender que as recentes críticas de Macron ao presidente brasileiro seriam motivadas por inveja da esposa do brasileiro.

Bolsonaro não poupa Michelle de piadas machistas e já fez insinuações sobre sua vida sexual. Em novembro de 2021, deixou a esposa aparentemente constrangida num evento no Planalto ao dizer que havia dado um "bom dia muito especial" a ela. "Acredite se quiser", disse ele na ocasião, rindo.

Em julho, o chefe do Executivo disse que Michelle aprendeu Libras (Língua Brasileira de Sinais) porque falava alto em casa. "Como ela falava muito alto comigo em casa, disse: 'Tu vai aprender Libras'. Aí ela aprendeu Libras", afirmou Bolsonaro, também rindo, em conversa com apoiadores em frente ao Alvorada.

Na ocasião, disse ainda que a mulher pedia dinheiro todo dia. "Meu salário bruto de presidente é R$ 33 mil. Não tô reclamando, tenho tudo de graça. Não gasto quase nada do meu salário. Quem gasta é a mulher."

Os exemplos de frases sexistas ditas por Bolsonaro não se restringem aos comentários sobre Michelle. No início do mês, afirmou que notícia boa para mulher é "beijinho, rosa, presente, férias".