'Histórico de atleta' não impediu sintomas graves ou sequelas pela covid-19 em maratonista

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Diego é triatleta e maratonista, e foi diagnosticado com covid-19 em junho. (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)
Diego é triatleta e maratonista, e foi diagnosticado com covid-19 em junho. (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

com João De Mari

Exercícios físicos diários, alimentação balanceada, sem histórico de comorbidade ou doenças crônicas, e somente 34 anos de idade. Nenhum desses fatores, no entanto, impediu que a infecção pelo novo coronavírus fosse extremamente agressiva ao triatleta e maratonista Diego Benko.

Nas próprias palavras de Benko ao Yahoo!, a covid-19 fez “um estrago”, ao explicar os sintomas que apresentou, e deixou sequelas maiores do que o comprometimento dos pulmões. Na tentativa de colocar em palavras sua experiência pós-Covid, o atleta usou uma metáfora atual: uma queimada.

“Sei que estou longe de estar 100%, porque o vírus fez um estrago. Eu até faço uma comparação para as pessoas entenderem, que é mais ou menos assim: se você tem uma plantação e aí ela pega fogo, destrói toda sua plantação. O fogo apaga, ele vai embora, só que o prejuízo fica, entendeu. É mais ou menos isso que eu vejo. O vírus veio, fez um estrago dentro de mim e foi embora, só que ficaram sequelas que estão sendo curadas aos poucos”, detalhou, em entrevista para a série “Eu Tive Covid”.

O atleta conta que se isolou em um apartamento no litoral paulista durante três meses da pandemia já instaurada no Brasil, mas precisou retornar a São Paulo em junho após o pai de um grande amigo falecer. Passados cinco dias do encontro, os primeiros sintomas começaram a se manifestar.

EU TIVE COVID - A SÉRIE

Até então, os sinais eram similares à centenas de milhares de casos de covid: febre, coriza, diarreia, cansaço físico, dor de garganta e outros. A partir do sétimo dia, as manifestações do vírus tornaram-se mais diversas e agressivas, segundo ele.

Mesmo com 'histórico de atleta', Benko apresentou sintomas graves e teve sequelas por conta da doença.(Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)
Mesmo com 'histórico de atleta', Benko apresentou sintomas graves e teve sequelas por conta da doença.(Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

“A partir do sétimo dia, que foi a pior parte para mim, que foi quando atacou os rins. E aí, era um dor insuportável, uma dor de ficar no chão chorando de dor, muito forte. E batia desespero em mim porque eu procurava os médicos, falava com eles, e eles diziam que fazia parte da covid, que não tinha o que fazer, que não tinha remédio para dar, que eu teria que aguentar aquilo”.

‘REVEZAMENTO’ DE SINTOMAS E SEQUELA NOS OLHOS

As dores nos rins ‘revezavam’ com pequenas inflamações nas articulações e com o aparecimento de caroços pelo corpo.

“Os sintomas nos rins duraram entre dois e três dias, e parece que os sintomas se revezavam. Eu tinha um durante dois dias, acabava esse e chegava outro, era sempre assim. O único sintoma meu que não passou de jeito nenhum foi a febre: eu fiquei 19 dias seguidos com febre.”

Nos tornozelos - que já aguentaram centenas de horas de corridas -, a dor era tanta que o impediu de andar por três dias seguidos. “Tive gota, inflamação no tornozelo. Fiquei três dias sem andar, que para ter ideia encostar o lençol no tornozelo era chorar de dor”, conta. Os caroços e pequenos nódulos se manifestaram na nuca e pernas.

“Meu psicológico afetou total. Eu sou atleta, né, e quando fiquei esses dias sem andar, com todos os problemas, me bateu um desespero, pensei: 'nunca mais vou poder correr, nunca mais vou poder fazer nada'. Foram 23 dias ao todo, de sintomas pesados sabe”.

Durante os 23 dias de sintomas, Benko apresentou pequenos 'caroços' no corpo, além de vermelhidão e sensibilidade nos olhos. (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/Yahoo Notícias)
Durante os 23 dias de sintomas, Benko apresentou pequenos 'caroços' no corpo, além de vermelhidão e sensibilidade nos olhos. (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/Yahoo Notícias)

Com sintomas incomuns, Benko consultou amigos que também tiveram diagnóstico de Covid, mas todos eles relataram apenas casos leves. O pior período, segundo ele, foi a partir do 15º dia, quando a falta de ar fez com que uma caminhada de metros até o banheiro fosse igual uma maratona 42 quilômetros.

“Na madrugada, começou a faltar ar. Eu acordava desesperado, tentando puxar o ar e vinha pouco. Eu estava na cama, levantava para ir no banheiro e parecia que eu tinha corrido uma maratona. Estava ofegante, cansado”, relembra.

Um sintoma, no entanto, persistiu mesmo após um mês e meio curado da covid-19: inflamação nos olhos.

Durante o período de infecção, Benko teve períodos de hipersensibilidade à luz e intensa vermelhidão nos olhos. “É uma inflação bem forte, no qual você não pode ter contato com luz, do dia, de casa, nada. Porque cada vez que você tem contato com luz parece que estão esmagando suas bolas dos olhos”, explica.

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O atleta já tinha retomado sua rotina de treinos - mais leves do anteriormente - quando voltou a apresentar sensibilidade extrema à luz durante a madrugada. Ele esperou mais um dia para ver se a dor amenizava, mas ela piorou. Benko foi ao oftalmologista, recebeu uma medicação e aplicou um colírio específico e só foi melhorar 4 dias depois.

“Eu continuo tomando os remédios, usando o colírio, (o médico) está reduzindo aos pouco de mim com medo de que possa voltar. Mas é isso, estou bem agora, meu olho está 100%, mas eu acordo todos os dias com receio, porque eu estou bem, só que qualquer momento posso ter algum sintoma”.

RESPONSABILIDADE E CONSCIENTIZAÇÃO

A gravidade dos sintomas e convivência com as sequelas despertaram um medo “pesado” de morrer e provocaram um ressignificado na vida de Benko. A começar por algumas amizades.

Retomada dos treinos tem acontecido de forma gradual após os impactos da doença no corpo. (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)
Retomada dos treinos tem acontecido de forma gradual após os impactos da doença no corpo. (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

“Tive um medo de morrer pesado. Agora que passou é fácil de falar, falo na maior tranquilidade e naturalidade, mas eu digo que o que eu passei me fez ressignificar muita coisa na minha vida. A principal delas é a amizade. Nesse período que eu estava bem mal mesmo, tiveram amigos que chamaram para ir em festas privadas que eles estavam fazendo. E eram amigos que perderam a avó com covid, que moram com mãe e avó. Pensava: 'eles estão vendo tudo que estou passando, já perderam gente da família e estão fazendo essas coisas'. Se eles não respeitam a própria mãe, eles vão respeitar quem”.

Curado da doença, o atleta gravou um vídeo para o Instagram relatando seu período durante e pós-covid. O intuito, segundo ele, foi conscientizar que a ameaça do novo coronavírus não é somente para aqueles que são do grupo de risco.

“É para mostrar para as pessoas que não botam fé no vírus, que estão saindo, fazendo festa, que o vírus vem para todo mundo. A principal lição e mensagem é para as pessoas acreditarem e respeitarem o próximo. Vejo muitas pessoas falarem que se ela for pegar o vírus o problema é dela. Só que não cara, o problema é nosso, porque é algo que se a pessoa pegar, ela pode passar para outras pessoas. Então, a partir do momento que a pessoa falta com responsabilidade, ela está faltando não só com a vida dela, mas com parte de todos nós”.

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