'Hoje estou toda deformada': mulheres contam problemas após operações com cirurgião que está preso

Desde a prisão do cirurgião plástico equatoriano Bolívar Guerrero Silva, de 63 anos, na segunda-feira (18), antigas pacientes têm procurado a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Duque de Caxias para fazer boletim de ocorrência contra o médico. As mulheres alegam que, além de não terem o resultado esperado com as cirurgias, sofreram complicações e problemas de saúde e mostram desespero por terem ficado "deformadas" com os procedimentos. As operações eram feitas no Hospital Santa Branca, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Até o fim da manhã desta quarta-feira (20), ao menos nove ex-pacientes procuraram a especializada.

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Uma mulher que disse ter passado por operação com Bolívar procurou a Deam de Caxias na manhã desta quarta-feira para registrar um boletim de ocorrência contra o cirurgião. A cabeleireira de 40 anos disse que pagou R$ 21 mil pelo conhecido “X-tudão”: quando são feitos procedimentos nos seios e glúteos e abdominoplastia.

— Conheci o Bolívar pelas redes sociais. Ele é muito conhecido, né. Eu fiz mama, barriga e bumbum. Eu disse que estava uma porcaria depois. Deu uma bolha e ele abriu seis meses depois. A gente faz uma operação para melhorar a auto-estima. Não quis mais voltar lá porque ele acabou com o meu sonho. Ele não dá atenção suficiente. Não foi barato — conta a cabeleireira, que mora em Madureira, na Zona Norte do Rio, e não quis se identificar.

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— Ele tem que pagar. Nós mulheres temos sonhos que foram destruídos. Não foi de graça. Eu paguei. No começo, ele te trata com carinho, mas depois te destrata. Eu tinha um sonho de ter um corpo legal. Meu corpo está deformado. Meu peito está deformado. Eu não tenho coragem de andar com biquíni. Não tenho coragem de ir à praia — conta a mulher.

Ela diz que a operação foi realizada em 10 de outubro de 2020. Seis meses depois a ex-paciente começou a sentir e ver problemas. Só agora, após a repercussão do caso da vendedora Daiane Chaves Cavalcante, de 35 anos, internada há dois meses no hospital, a cabeleireira resolveu denunciar Bolívar.

— Eu paguei R$ 1 mil na primeira parcela, que é em um carnê. Mas decidi juntar um dinheiro e paguei R$ 18,5 mil à vista. No dia da cirurgia eu paguei mais R$ 2,5 mil da anestesia — conta.

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Outra ex-paciente que esteve na Deam de Caxias, nesta quarta-feira, é uma cabeleireira de 42 anos que disse ter conhecido Bolívar através da internet. Ela conta que fez uma abdominoplastia e decidiu fazer a mama. Teve “uma infecção generalizada e quase morreu”.

— Eu havia feito abdominoplastia, e saiu perfeita. Como eu tinha que trocar uma prótese (nos seios), eu pedi a ele pra colocar uma de 400 mililitros. Mas ele colocou uma de 450 mililitros. Quando eu saí (da cirurgia), voltei com um peito maior que o outro. Ele usou algo errado. Eu infeccionei toda. Eu fiz isso há um ano e dois meses. Eu procurei vários médicos e ninguém quis atender porque eu corria risco de vida. Eu tive que procurar uma médica reparadora — conta a cabeleireira, que não quis se identificar.

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A vítima disse que para a cirurgia de correção teve que gastar R$ 18 mil. Além do que havia pago a Bolívar, uma quantia no valor de R$ 11 mil.

— Eu andava torta. A prótese rompeu, e eu tive que colocar pano para andar. Quando eu fiz uma biópsia, o resultado deu infecção crônica generalizada. Só estou viva por Deus. Quando eu procurei o médico, ele não me atendeu. Fui atendida por outra pessoa. Eu paguei R$ 11 mil para ele, fora os remédios. Agora, em menos de um ano tive que fazer uma nova cirurgia para reparar. Eu não saía mais de casa. Entrei em depressão. Eu perguntava a Deus porque estava acontecendo isso comigo. Agora só quero que ele pague pelo que fez.

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R$ 28 mil por três procedimentos

Moradora da comunidade Rocinha, na Zona Sul do Rio, a vendedora Daiane Chaves Cavalcante, de 35 anos, disse que pagou R$ 27.800 por três procedimentos no Hospital Santa Branca. Ela continua internada na unidade, em estado grave, pois teria sido mantida em cárcere privado por dois meses no local pelo cirurgião plástico Bolívar Guerrero Silva. As primeiras operações às quais Daiane foi submetida foram abdominoplastia e glúteos. Mas, posteriormente, teria sido convencida por Bolívar a fazer os seios. A informação é da defesa da paciente.

De acordo com a defesa, o montante era oriundo de uma poupança que ela tinha feito durante a vida. Mãe de dois filhos, a família diz que a mulher está em estado grave e precisa ser transferida imediatamente.

— Neste momento, é a vida em primeiro lugar. Depois vamos pleitear outra reparação. A Daiane pagou R$ 27.800, da reserva da vida. Ela fez a abdominoplastia e bumbum num primeiro momento. Ele a liberou 24 horas depois e ela voltou mais três vezes por conta dos problemas. Na quarta vez ela não aguentou mais andar e voltou a ser internada. Mesmo assim, depois de todos os problemas, ele a induziu a fazer os seios. Em seguida, ele fez uma âncora, uma cirurgia reparadora e piorou ainda mais a situação — conta Ornélio Mota Rocha, advogado da vendedora.

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A vendedora não os vê os filhos há cerca de dois meses, período em que foi até o hospital por complicações em uma das cirurgias, foi internada e não saiu desde então. Na terça-feira (19) a defesa de Daiane pediu no Fórum de Duque de Caxias o bloqueio parcial dos bens do Hospital Santa Branca para custear o tratamento da vítima em outra unidade particular.

Os advogados do Hospital Santa Branca destacaram que “a unidade nunca praticou nenhum ato contra a saúde da paciente, ou qualquer ilegalidade”. A defesa do hospital explicou que “está interessada em resolver o problema”. O GLOBO não conseguiu localizar a defesa do médico.

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