Holanda e o confinamento "inteligente"

Por Charlotte VAN OUWERKERK
Ao contrário do confinamento em outros países europeus, a Holanda apenas advertiu que as pessoas devem respeitar o distanciamento social de 1,5 metro

Os belos dias de primavera são vividos quase como de costume na Holanda, onde as lojas estão abertas e as pessoas podem sair, um confinamento chamado "inteligente" que contrasta com os países vizinhos na crise do novo coronavírus.

A regra de ouro para os holandeses é o respeito do 1,5 metro de distanciamento social. Os únicos lugares fechados são os bares, restaurantes, museus e 'clubes sexuais'. As escolas devem retomar as aulas a partir de 11 de maio.

A Holanda registra 4.771 mortes e 38.802 casos de contágio.

Os cidadãos foram convocados a permanecer em suas casas e optar pelo teletrabalho o máximo possível, mas "ao menos é possível sair de casa", afirmam os holandeses. O trunfo é a responsabilidade individual neste país de 17 milhões de habitantes.

"Parece muito difícil ficar em casa o tempo todo. Estou muito feliz com as possibilidades que temos, por mais limitadas que sejam", disse Marijn de Koeijer, que trabalha em uma livraria em Haia, feliz com a possibilidade de tomar ar quando deseja.

Quando o novo coronavírus surgiu, "foi o pânico total", admite Bianca Kragten, vendedora de bicicletas. Diante de sua loja, ela exibe alguns produtos decorados com pequenas bandeiras do país para "incentivar" as pessoas.

"Então, percebemos que estamos entre os sortudos, que podem permanecer abertos", disse Kragten. Para De Koeijer, o governo ganhou "apoio popular" com este tipo de confinamento, "mais fácil de defender e explicar à população".

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, percebeu a situação rapidamente. "Na Holanda, o que não funciona é um governo que diz: devem fazer isto ou aquilo", declarou no fim de março, depois de destacar seu "confinamento inteligente", similar ao da Suécia.

A estratégia de Rutte é a imunidade de rebanho, um conceito polêmico que consiste em conseguir o maior número de pessoas imunes para frear a propagação do vírus, mas que nem sempre foi bem recebido pelos países vizinhos no início da crise.

Em toda a Europa, o denominador comum na gestão da pandemia implica evitar aglomerações e isolar as pessoas que apresentam sintomas da doença, aponta o epidemiologista Frits Rosendaal.

"Os governos devem convencer a população de que as medidas adotadas para conter o novo coronavírus são as corretas", completa o professor de epidemiologia clínica na Universidade de Leiden.

- Escolha "responsável" -

Fiéis à tradição do consenso político, os holandeses deixaram de lado a opção radical de um confinamento total, como na França, Itália ou Espanha, alegando preservar tanto a saúde pública como a economia.

"Estávamos muito perto da plena capacidade nos hospital e de não poder ajudar mais as pessoas, mas graças a estas medidas continuamos um pouco abaixo do limite", disse Rosendaal.

O número de pacientes da COVID-19 nos hospitais está atualmente em retrocesso, o que mostra que as medidas tiveram um "efeito absoluto" e a escolha de uma forma menos estrita foi "responsável do ponto de vista médico e econômico", afirma o epidemiologista.

Porém, a imunidade de rebanho ainda está longe, pois "apenas entre 3% e 4% das pessoas apresentam sinais de imunidade por terem superado a doença e, para alcançar a imunidade coletiva, precisamos de pelo menos 50%", explica Rosendaal.