Com diáspora das elites, qual será o desenho das metrópoles após a pandemia?

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Foto: Getty Images
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Por Rafael Simi*, autor convidado

Nestes quase dois anos em que a pandemia impôs o home office para milhares de pessoas, algumas cenas se tornaram comuns em minha vida. No lugar das tradicionais salas de reunião, diferentes cenários apareceram nas telinhas dos meus aplicativos.

“Gente, desculpa, mas a conexão aqui em Maresias tá meio ruim hoje”, dizia uma pessoa.

“Nossa, mas tá frio demais aqui em Petrópolis”, completava outra.

Desobrigados de bater ponto num escritório, muitos partiram para suas casas de temporada. De lá, mantiveram um ritmo de trabalho igual ao que tinham em capitais, mas tiraram da equação o trânsito e o almoço no buffet. E a coisa vai além: diversos colegas realmente se mudaram e, dizem, não voltarão.

A nova geração, principalmente, não se conforma de vender sua força de trabalho de maneira presencial durante 40 horas semanais; já viu que pode apenas oferecer seu trabalho de onde estiver. Uma poderosa empresa digital não gostou muito da novidade e começou a pagar menos para quem optou pelo trabalho remoto.

Mas a pressão por uma nova dinâmica será forte, devido a vários fatores.

Entre eles, a crise econômica e os direitos trabalhistas cada vez mais escassos.

Há cinco anos, trabalhei num lugar que pagava uma funcionária para servir de capataz. Checava até o tempo dos colegas gasto tomando café.

No dia da minha demissão, perguntei se receberia algo. A resposta foi inesquecível: “Infelizmente, você não era meu funcionário. Era um prestador de serviços PJ”. Quem quer cumprir horário assim?

Tenho me ocupado e refletido sobre as consequências desta possível diáspora dos profissionais qualificados.

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Que impacto causaria em municípios menores a mudança de tanta gente com altas exigências de conforto e consumo? Dificilmente um CFO de multinacional se instalaria em uma vila de pescadores sem alterar a região.

Pior: fico pensando no que seria das metrópoles em geral.

Eu amo a efervescência de São Paulo, mas sei que está longe de ser um lugar saudável para viver.

Aliás, creio que viver seja o que menos se espera desta cidade.

A produção econômica é o centro de tudo e nós giramos em torno dela, trabalhando e consumindo. Basta ver qual era a única preocupação de Jair Bolsonaro enquanto as pessoas morriam.

E se as camadas mais altas da sociedade abandonarem em peso as capitais, deixando suas ruínas para a população de baixa renda? Ficariam alguns escritórios, hospitais, gabinetes de serviço público e uma legião de moradores pobres.

As classes A e B estariam lá de passagem durante a semana ou nem pisariam no lugar.

Num cenário distópico, o futuro normal talvez traga metrópoles decadentes e empobrecidas, tomadas por seres humanos considerados refugos do sistema.

De lá de Ilha Bela, as elites não teriam mais de lidar com as mazelas urbanas. Para elas, não seria uma questão. Seria um problema resolvido.

*Rafael Simi é jornalista

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