Home office e digitalização: veja por que o coronavírus vai transformar a cultura do trabalho no Brasil

Stephanie Tondo
O geofísico Adriano Martinez está fazendo home office por causa do coronavírus

Trabalho remoto, teleconferências e jornadas mais curtas eram, até a semana passada, parte de uma cultura corporativa específica de nichos como startups e algumas empresas de tecnologia. Mas, com o aumento dos casos de coronavírus no país, o modelo de trabalho antes visto como do futuro precisou ser adotado até pelas empresas mais tradicionais, para evitar que seus funcionários saíssem de casa. Para especialistas, quando a crise de saúde pública passar, é possível que haja uma nova cultura laboral no país, muito mais digitalizada.

— Estamos passando da fase da informatização para a de digitalização. As pessoas ainda valorizam muito o presencial, mas essa situação pela qual estamos passando vai obrigar as pessoas a se adaptarem — afirmou Marcelo Rivani, professor de Inovação Corporativa e Gestão de Pessoas do Ibmec/SP.

Para Raphael Felicio, diretor de Design e de Marketing da empresa de inovação ioasys, até essa crise havia no país uma mentalidade de que o ambiente de trabalho precisava de controle, gestão de tempo e produtividade extrema:

— O novo assusta. Como trabalhamos com inovação em empresas que ainda não tinham essa cultura, estamos acostumados a ver essa resistência. Mas, neste cenário, não tem opção. Acredito que sempre haverá empresas mais cabeça-dura, mas muitas companhias, mesmo as mais tradicionais, serão obrigadas a se adaptar.

O geofísico Adriano Martinez, de 31 anos, teve na semana passada a oportunidade de trabalhar pela primeira vez em home office. Ele avalia os pontos positivos e negativos da experiência.

— Sempre tive vontade de fazer home office, mas, como a minha profissão requer uma infraestrutura maior, achava difícil que acontecesse. Agora, todos estão tendo que trabalhar de casa. As vantagens são que eu não perco tempo no deslocamento para o trabalho e ganhei mais tempo para mim. Mas, por outro lado, a estrutura em casa é menor, o que reduz a eficiência — contou ele, acrescentando que sente falta da interação com os colegas: — Depois que a crise passar, seria muito interessante ter um dia na semana em que pudessemos trabalhar de casa e ter mais tempo para a vida pessoal. Mas não gostaria de passar todos os dias em casa, como ocorreu nesta última semana. Ainda faz falta sair, almoçar em lugares diferentes e encontrar outras pessoas.

A internalização das mudanças feitas neste período não será automática, mas dependerá, principalmente, da percepção, por parte dos gestores, de que as novas formas de trabalhar foram, de fato, mais produtivas. Para o professor do Ibmec/SP Marcelo Rivani, ainda existe desconfiança nas lideranças em relação ao trabalho remoto:

— Parte dessa desconfiança é uma assinatura de que esses líderes não estão preparados para desenvolver seus devidos times. Eles acham que a pessoa vai ficar sentada no sofá de bermuda, com o cachorro de um lado e o computador de outro. Sim, vai! E qual é o problema? Diversos estudos mostram que a produtividade no trabalho remoto aumenta cerca de 30%.

Segundo ele, é preciso que os líderes estimulem a maturidade dos profissionais, para que apresentem bons resultados à distância. Para isso, é preciso desenvolver, junto à equipe, qualidades como disciplina, organização e planejamento:

— Acho que, com isso, talvez a gente possa mudar uma cultura da forma de trabalhar no Brasil. Isso vai nos elevar a um patamar mais competitivo até mesmo internacionalmente.

Apesar de o teletrabalho ser uma tendência mundial, os especialistas alertam que nem todos conseguem se adaptar ao home office, seja pela sensação de isolamento ou pela falta de disciplina. Isso não impede, porém, que se possa trabalhar assim esporadicamente.

— Esse momento será importante para que as companhias identifiquem os profissionais mais adequados para esse modelo — disse Alessandra Montini, do LabData.

Para Alessandra Montini, diretora do LabData da Fundação Instituto de Administração (FIA), o coronavírus vai marcar a entrada definitiva do Brasil na Sociedade 5.0, marcada pela digitalização e pelo uso de tecnologias — como Inteligência Artificial e Internet das Coisas — para criar soluções com foco nas necessidades humanas.

— A tecnologia já existe. Só precisava de uma oportunidade para que houvesse uma mudança de comportamento. Seria muito importante ninguém se esquecer do que aprendeu agora. Toda a experiência adquirida para melhorar nossa rotina deverá ser incorporada — disse.

Essa nova mentalidade será incorporada, inclusive, pelas empresas, segundo Raphael Felicio, diretor da ioasys, que acredita que o futuro dos negócios estará voltado para melhorar a vida dos usuários:

— O grande legado que essa pandemia pode deixar em termos de mudanças culturais e comportamentais é a unificação das pessoas. As empresas perceberam que, enquanto não ajudarem a comunidade, ficarão para trás. Há diversas empresas de educação oferecendo aulas gratuitas, por exemplo. Basicamente, é o que vemos nesse modelo novo de mercado: todas as ações têm que ser focadas no usuário. 

Assim como nas rotinas de trabalho, os processos seletivos para vagas de emprego também estão sofrendo mudanças em função do coronavírus. Sócio da consultoria de RH Luandre, Fernando Medina conta que entrevistas presenciais e dinâmicas de grupo têm dado lugar a videochamadas e conversas virtuais.

— Tudo que era feito fisicamente está mudando. Estamos fazendo entrevistas pelo WhatsApp e outras ferramentas digitais, e tem havido uma mudança inclusive por parte dos candidatos. Nós sempre pedíamos que eles se cadastrassem em nosso site antes de vir para as entrevistas, mas poucos realmente faziam isso. Agora, estão fazendo.

O executivo acredita que, depois que a pandemia acabar, as empresas vão manter algumas das mudanças que foram obrigadas a adotar neste momento:

— Algumas empresas tinham processos muito burocráticos, os candidatos tinham que ir até lá duas ou três vezes. Agora, uma seleção que mantinha o candidato no prédio durante quatro horas tem levado cerca de 20 minutos. É uma quebra de paradigmas que fará as empresas questionarem processos antigos.

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