'Homem Banana', presidente morto no Haiti enfrentou protestos mesmo antes de assumir

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Assassinado em casa na madrugada desta quarta-feira (7), o presidente do Haiti, Jovenel Moïse, 53, fez carreira como empresário, não tinha experiência política antes de disputar a Presidência e enfrentou turbulência mesmo antes de iniciar seu mandato.

Conhecido no país como "Homem Banana" ("Nèg Bannann", em crioulo haitiano), Moïse fez a vida na plantação e exportação da fruta, que começou produzindo no norte do país no meio dos anos 1990.

A atividade o levou, na década seguinte, à Câmara de Comércio e Indústria do Haiti, na qual aumentou sua influência política no agronegócio ao expandir a produção para áreas antes inexploradas e ao ajudar na criação de uma zona franca agrícola, aproximando-o de poderosos no país.

Mesmo sem experiência, foi escolhido pelo então presidente Michel Joseph Martelly como seu candidato à sucessão na eleição de 2015. Naquele pleito, Moïse (pronuncia-se "Moíse", versão em francês do nome do profeta bíblico Moisés) foi criticado por fazer campanha sem apresentar propostas concretas, ainda que tenha sido vendido por Martelly como um grande produtor nacional capaz de transformar o Haiti.

Com apoio dos setores das zonas rurais, onde vive quase metade da população haitiana, Moïse conquistou a liderança no primeiro turno daquela eleição. O pleito, no entanto, foi questionado por manifestantes, que alegaram fraude no processo e conseguiram suspender o segundo turno. Uma nova votação foi convocada para o ano seguinte e, nesse meio tempo, o país teve um governo provisório.

Em novembro de 2016, Moïse ficou outra vez em primeiro lugar na disputa, desta vez com 55,6% dos votos, o que lhe deu a vitória já no primeiro turno, ainda que apenas 1,1 milhão dos 6,2 milhões de eleitores do país tivessem comparecido às urnas —e menos de 600 mil tivessem votado no presidente.

Sem respaldo da maioria da população, seu governo foi marcado por instabilidade, com protestos violentos principalmente depois de um aumento dos preços dos combustíveis em até 51% em 2018.

Desde então, as ruas nunca mais se esvaziaram, e os atos ganharam força devido a acusações de envolvimento de uma empresa de Moïse em esquemas de corrupção e desvio de dinheiro no programa energético Petrocaribe. Os protestos ruíram a governabilidade do presidente, que fez trocas ministeriais constantes. O país em convulsão e a violência de milícias armadas provocaram o fechamento dos comércios e de escolas por meses, o que contribuiu para a crise econômica do país.

Com manifestações em massa e a onda de violência, as eleições legislativas de 2019 foram suspensas e, ao fim do mandato dos legisladores no cargo, no ano seguinte, Moïse passou a governar por decreto, provocando mais insatisfação. Em fevereiro de 2021, o presidente prendeu mais de 20 pessoas, entre os quais um juiz da Suprema Corte, sob a justificativa de tentativa de golpe de Estado. A oposição defendia que o mandato presidencial havia terminado naquele mesmo mês, cinco anos após a data em que Moïse deveria ter tomado posse, em fevereiro de 2016, caso a eleição de 2015 não tivesse sido anulada.

Já o líder haitiano argumentava que seu mandato terminaria apenas em 2022, uma vez que ele assumiu o cargo em 2017 —posição defendida pela Organização dos Estados Americanos e pelos Estados Unidos.

Pesquisadora da USP e professora de relações internacionais pela Faap, Vanessa Braga Matijascic, que estudou as operações da ONU no Haiti, lembra que Moïse se soma a uma tradição de líderes que não concluíram o mandato no país. "Temos uma sequência recente de presidentes que conseguiram terminar o mandato, mas historicamente, desde a independência, há diversos nomes que foram assassinados, cometeram suicídio, morreram no cargo, fugiram do país, foram mortos envenenados, com explosivos, desmembrados ou esquartejados. Esse é infelizmente o histórico do país."

A raiz da turbulência e da desconfiança com o presidente pode ser traçada desde a independência, em 1804, diz ela, quando parte da população se sentiu traída pela nova elite formada no país, acusada de subserviência a grupos estrangeiros. É o caso de Moïse, afirma Marcos Queiroz, professor do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa) e autor do livro "Constitucionalismo Brasileiro e o Atlântico Negro: A Experiência Constituinte de 1823 diante da Revolução Haitiana".

"Moïse chegou ao poder de maneira extremamente contestada e foi acusado de aprofundar relações de dependência, especialmente com os EUA, dada a proximidade que ele tinha com o [ex-presidente americano Donald] Trump", diz Queiroz. Os dois líderes tiveram um atrito diplomático em 2018, quando o americano questionou a chegada de imigrantes de "países de merda", entre os quais o Haiti, o que provocou a reação de Moïse, que se disse chocado com a declaração. Em outras ocasiões, no entanto, ele elogiou Trump, e os dois chegaram a se reunir na Flórida, em 2019.

Queiroz chama a atenção para a proximidade das eleições legislativas, previstas para setembro. "Há uma perspectiva de mudança constitucional, para retirar um pouco os poderes da mão do presidente, e talvez o assassinato contribua para atrapalhar isso", diz ele. "É preciso analisar a morte dele tanto do ponto de vista interno, agora que uma lei marcial já foi decretada, quanto do ponto de vista externo, que pode legitimar uma nova intervenção."

Isso porque, diz Queiroz, a comunidade internacional construiu um discurso de que as turbulências do Haiti mostram que é um país que não consegue governar sozinho, "onde a democracia não dá certo", o que justifica a sequência de intervenções estrangeiras. Além das missões de paz da ONU, o Haiti foi ocupado pelos Estados Unidos por duas décadas a partir de 1915.

Após o assassinato do presidente, o embaixador haitiano nos EUA, Bocchit Edmond, disse em entrevista ao Guardian que os assassinos invadiram a casa alegando serem membros da agência norte-​americana antidrogas (DEA, na sigla em inglês). "Foi um ataque bem orquestrado. Eles se apresentavam como agentes da DEA, diziam às pessoas que vieram como parte de uma operação da DEA", alegou o diplomata.

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, disse que as acusações são "absolutamente falsas".

Moïse era casado desde 1996 com Martine Marie Etienne Joseph Moïse, 47, também alvo da ação desta madrugada. Em estado crítico, ela foi levada para tratamento em Miami. Como primeira dama, ela comanda a Fondasyon Klere Ayiti, instituição voltada ao desenvolvimento da saúde e educação, principalmente de mulheres e crianças, e coordena ações de erradicação do HIV e da malária no país. O casal tem três filhos.

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