Homem comemora mastectomia após quase 5 anos de transição: ‘Sonho é ir à praia sem camisa’

Carla Nascimento
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Cézar mostra curativo após fazer a mastectomia

O assistente de marketing Cézar Sant Anna, de 32 anos, acaba de passar pela segunda cirurgia mais importante de sua vida: a mastectomia, o ponto alto da transição de gênero por que vem passando há quase cinco anos. A primeira, segundo ele, foi a cesariana no nascimento de Fernanda, sua única filha. Hoje, confortável em seu próprio corpo, o plano é se recuperar para poder, em alguns meses, tirar a camisa na praia.

 

- Ainda não vi resultado final, estou com colete e curativos, mas fiquei muito feliz. Antes, não conseguia nem ter contato físico com pessoas e ficava puxando a blusa toda hora, preocupado que estivesse marcando. Ficava mesmo  desconfortável. Não queria me esconder, mas é como se eu tivesse que usar uma roupa que não era minha. Fico feliz que agora estou com um corpo que sempre senti que era meu - afirma ele, estudante de Direito em São Paulo.

Cézar conta, orgulhoso, qual o comportamento da filha após ver seu visual transformado: “Está muito mais bonito assim”, disse a menina. A reação foi parecida quando ele lhe revelou, há cinco anos, que passaria por uma transição: “Tudo bem, você vai ter barba”, disse a menina. A naturalidade com que ela  enxerga o processo, segundo o pai, é fruto de muito preparo.

- Entendi o desconforto que eu sentia comigo mesmo depois de ler muito, mas só comecei a fazer a transição depois de trabalhar o tema em casa, junto com ela. Fui  mostrando para a minha filha as pessoas que mudaram, mostrei os livros. Antes de buscar o tratamento eu quis que se acostumasse a esse mundo, que visse que não era um problema e que não era algo apenas com ela -, explica.

A masculinidade em questão

Cézar diz que, em suas redes sociais, não recebe comentários de ódio, mas os vê com frequência fora de sua “bolha”. Reconhece que trata-se de um privilégio estar livre de violência, seja verbal, seja física, ao “desafiar” os conceitos de masculinidade tradicionais.

- Precisamos desconstruir essa ideia do que é ser homem e construir uma nova noção do que é ser homem. Tenho o privilégio de não ouvir nada sobre isso, por causa do que a gente chama de “passabilidade cisgênera”, que acontece quando um homem ou uma mulher trans ‘passa por’ um homem ou mulher cisgênero. No meu caso, como já transitei, não sou questionado -, diz.

O estudante faz ainda um alerta sobre os relacionamentos envolvendo pessoas trans:

- O afeto é um dos maiores privilégios cisgêneros. A pessoa transexual é expulsa da sociedade, da família, acaba indo para a prostituição. Perdem as bases, ficam sozinhas, sem ninguém. Precisamos falar sobre isso -, completa.