Homem é morto pela PM durante buscas por soldado desaparecido em Heliópolis

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Soldado Leandro Martins Patrocínio está desaparecido desde 29 de maio | Foto: Arquivo pessoal
Soldado Leandro Martins Patrocínio está desaparecido desde 29 de maio | Foto: Arquivo pessoal

Por Jeniffer Mendonça

Um homem de 24 anos foi morto com tiro de fuzil por policiais militares do COE (Comando de Operações Especiais) dentro de casa, nesta quinta-feira (3/6), em Heliópolis, na zona sul da capital paulista, durante buscas pelo soldado Leandro Martins Patrocínio, desaparecido desde 29 de maio.

À Ponte, um dos moradores da comunidade, que pediu para preservar a identidade, relatou que ouviu barulho de tiros e que as pessoas estão com receio de sair de casa. “A própria comunidade fez um toque de recolher orgânico porque tem medo de estar na rua enquanto os policiais estão. Até a gente explicar que é trabalhador e está só passando, pode ser tarde demais, por isso os comércios estão fechando e os próprios moradores ficam assustados também pela forma como a mídia retrata a comunidade, destacando só a parte da violência”, lamenta.

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De acordo com o boletim de ocorrência, os PMs Diego Luiz de Oliveira e Wesley Croce de Sousa foram acionados para verificar uma denúncia anônima sobre um indivíduo que estaria envolvido no desaparecimento do soldado. Ao chegarem no local, uma casa na Rua Capitão do Mato, informam que avistaram Bruno Silva Pereira na cama e que ele efetuou um disparo ao avistar a dupla. O registro diz que “os militares foram obrigados a revidar” e que Bruno foi atingido e levado ao Hospital de Heliópolis, mas não resistiu.

A equipe de perícia do DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa), da Polícia Civil, informou que não conseguiu constatar os ferimentos de Bruno porque o corpo se encontrava no hospital e que não foram ao local por “protocolos de segurança” em virtude da Covid-19. Informaram que localizaram câmeras na Avenida Estrada das Lágrimas e na Rua Castelo dos Sonhos, próximas ao local.

Depois, diz o documento, os policiais retornaram à casa com o auxílio da equipe de canil e encontraram substâncias que aparentavam ser drogas. Foram apreendidos dois fuzis pertencentes aos policiais, um revólver calibre 38, uma mochila, folhas de papéis contendo contatos telefônicos, documento sobre benefício de regime aberto relacionado a Bruno, um cortador de unha, 68 invólucros com substância esverdeada, sete tijolos prensados com substância esverdeada, 76 embalagens com substância branca, comprimidos, chaves, um celular e R$ 1.902 em espécie. Também a perícia apreendeu seis munições deflagradas correspondentes aos fuzis dos PMs, um projétil amolgado (“amassado”) e quatro fragmentos de projétil.

Todo o histórico do boletim de ocorrência foi narrado pela equipe de perícia do DHPP. Os policiais foram informados para constituir defesa em 48h para serem ouvidos e foi aberto inquérito para apurar o caso. Essa previsão passou a valer após sanção da lei nº 13.964, de 24 de dezembro de 2019, que alterou o Código de Processo Penal (decreto-lei 3.689 de 4 de outubro de 1941), e que faz parte do Pacote Anticrime do ex-ministro Sergio Moro. Para especialistas, a nova regra pode contribuir para destruição de provas e atrasar o curso da investigação.

À Ponte, a secretaria de Segurança Pública reiterou o conteúdo do boletim de ocorrência e disse que a PM também apura os fatos. Nem a pasta nem no registro foi confirmado se o homem tinha de fato relação com o desaparecimento do soldado.

Soldado desaparecido

Desde segunda-feira (31/5), policiais militares da tropa de Choque, COE, GER (Grupo Especial de Reação) e da Polícia Civil estão realizando operações na comunidade de Heliópolis, após o desaparecimento do soldado Leandro Martins Patrocínio, lotado desde 2018 na 1ª Cia do 1ª Batalhão da PM de São Bernardo do Campo.

Segundo comunicado pelo tenente Fernando Frederico Leite Gomes, do mesmo batalhão, Leandro desapareceu por volta das 22h40 de sábado (29/5). De acordo com imagens de câmeras de segurança na Rua Bom Pastor, em frente ao terminal de ônibus do Sacomã, o soldado usava calça branca, blusa de frio preta e uma camisa polo vinho. Durante as operações na comunidade, na segunda-feira, policiais militares localizaram um relógio de pulso dourado em um imóvel na rua Copa Rio, que foi reconhecido pela esposa de Leandro, com quem tem uma filha pequena. No local, também foi apreendido uma embalagem de papelão que teria mancha semelhante a sangue para ser periciado.

De acordo com o G1, as investigações da Polícia Civil indicam que o PM estava em um baile funk em Heliópolis antes de desaparecer após ter sido constada uma transação com cartão de crédito em um bar próximo ao baile. A polícia acredita que ele foi identificado e sequestrado por traficantes. O celular do soldado, rastreado pelos investigadores, indicaram sinal próximo a um terreno na avenida Guido Aliberti, onde estão sendo feitas buscas com retroescavadeira.

À Ponte, a Secretaria da Segurança Pública disse que as polícias Civil e Militar ainda realizam buscas pelo paradeiro do soldado.

Soldados Leandro Patrocinio e Juliane Duarte | Foto: Reprodução
Soldados Leandro Patrocinio e Juliane Duarte | Foto: Reprodução

Leandro é natural do Rio de Janeiro e integrava a PM paulista desde 2016. Segundo reportagem do UOL, ele foi colega de turma da soldado Juliane Duarte, negra, lésbica e periférica que foi sequestrada, torturada e assassinada por integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital), em 2018, na comunidade de Paraisópolis, na zona sul da cidade de São Paulo. Os dois ingressaram no Batalhão Rodoviário no mesmo ano. Leandro ficou três anos em Campinas, no interior, e Juliane atuou no batalhão por um ano.

A reportagem não conseguiu contato com a família de Leandro.